Os Estados Unidos realizaram ataques de “autodefesa” no Irã durante o fim de semana, enquanto o presidente americano, Donald Trump, devolveu alterações a uma proposta de acordo para estender o cessar-fogo na região e reabrir o Estreito de Ormuz.
Os ataques do fim de semana no Irã tiveram como alvo radares e centros de comando e controle iranianos e foram uma resposta a “ações agressivas iranianas que incluíram o abate de um drone MQ-1 americano que operava sobre águas internacionais”, afirmou o CENTCOM (Comando Central dos EUA) na noite de domingo (31).
“Aviões de combate dos EUA responderam prontamente, eliminando as defesas aéreas iranianas, uma estação de controle terrestre e dois drones de ataque unidirecional que representavam ameaças claras para navios que transitavam pelas águas regionais”, afirmou o Comando Central.
Enquanto isso, a IRGC (Guarda Revolucionária Islâmica do Irã) declarou ter atacado uma base aérea americana supostamente usada para lançar um ataque contra uma torre de telecomunicações na ilha iraniana de Sirik, segundo comunicado divulgado por diversos veículos de imprensa estatais iranianos.
O comunicado não especificou qual base aérea teria sido atingida, mas o anúncio veio após o Kuwait informar ter repelido ataques de drones e mísseis.
O Teerã e Washington têm trocado ataques repetidamente desde que o frágil cessar-fogo entrou em vigor no início de abril, inclusive na semana passada, quando o Kuwait também relatou ter sido alvo de mísseis e drones iranianos.
Esses confrontos têm abalado a região, mas até agora não levaram ao colapso do cessar-fogo.
Memorando de entendimento
No centro das negociações em curso para pôr fim às hostilidades está um memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irã que encerraria as hostilidades e estabeleceria as bases para novas negociações sobre questões-chave pendentes.
As últimas alterações propostas por Trump, feitas após reunião com assessores na sexta-feira (29), já haviam estendido as negociações por mais uma semana.
“O Irã realmente quer fechar um acordo, e será um bom acordo para os EUA e para aqueles que estão conosco”, escreveu o presidente americano em uma publicação na Truth Social, nesta segunda-feira (1º), após o Comando Central confirmar os últimos ataques.
As mudanças exatas solicitadas pelo líder republicano não ficaram imediatamente claras, mas autoridades disseram que o presidente insistiu em uma linguagem mais dura em relação aos compromissos nucleares do Irã e à sua promessa de reabrir o Estreito de Ormuz.
Os aliados dos EUA no Golfo foram informados sobre as discussões.
Um funcionário estrangeiro familiarizado com o assunto relatou à CNN que as mudanças não são substanciais e se concentram principalmente no desejo de Washington por garantias sobre essas questões.
Trump também expressou preocupação com o tipo de ajuda financeira que poderia ser fornecida ao Irã como parte do acordo, receoso de comparações com os “paletes de dinheiro” entregues no âmbito do acordo nuclear da era Obama, que ele considera fraco.
Antes do anúncio dos últimos ataques no Irã, um oficial americano disse à CNN que novos ataques militares eram improváveis com um acordo próximo e que os aliados regionais não queriam a retomada das operações de combate.
Busca pelo fim da guerra
A mais recente leva de mudanças propostas surge uma semana depois de Trump ter declarado que o acordo estava “praticamente finalizado” e sinalizado que o fim da guerra era iminente.
Desde então, autoridades americanas têm demonstrado progresso nas negociações para um acordo que encerraria as hostilidades, reabriria o estreito e iniciaria conversas mais detalhadas sobre o programa nuclear iraniano.
Mesmo depois do presidente ter anunciado que tomaria uma “decisão final” durante a reunião de sexta-feira (29) e ter detalhado algumas das condições do acordo nas redes sociais, a sessão de duas horas terminou sem uma decisão conclusiva.
Embora Trump tenha afirmado em sua mensagem que os EUA iriam confiscar e destruir o estoque de urânio altamente enriquecido do Irã, Teerã tem reiteradamente declarado que não está discutindo detalhes de seu programa nuclear nas negociações em curso.
O líder americano também afirmou que não houve qualquer discussão sobre troca de dinheiro como parte do acordo, uma condição que o Irã considera obrigatória em qualquer pacto.
A forma como essas discrepâncias serão resolvidas permanece incerta, enquanto as negociações sobre os termos do acordo prosseguem.
Axios e The New York Times noticiaram anteriormente o pedido de mudanças feito por Trump.
“Não há confiança” no inimigo, diz Irã
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou no domingo (31) que nenhum acordo será aprovado com os Estados Unidos até que os “direitos” de Teerã sejam garantidos, segundo a agência de notícias semioficial Tasnim.
“Os soldados do campo de batalha diplomático não confiam nas palavras e promessas do inimigo. O que importa para nós são as conquistas tangíveis que devemos obter, em troca das quais cumpriremos nossos compromissos”, disse Ghalibaf, citado pela Tasnim.
A CNN apurou que um míssil balístico iraniano foi interceptado na semana passada perto da Base Aérea de Ali Al Salem, no Kuwait, causando ferimentos leves entre os militares da base devido à queda de destroços, segundo uma fonte familiarizada com o assunto.
O senador de Delaware, Chris Coons, afirmou na manhã de domingo que os termos apresentados por Trump na semana passada para um acordo parecem aceitáveis no papel, mas expressou ceticismo quanto à sua viabilidade na prática – particularmente em relação ao Estreito de Ormuz.
“Embora possamos usar nossa superioridade tecnológica para bombardear grandes fábricas no Irã, não seremos capazes de impedi-los de usar suas minas para fechar o Estreito de Ormuz e seus drones para atacar a nós e nossos aliados”, disse Coons, senador democrata e membro da Comissão de Relações Exteriores do Senado, no programa “Fox News Sunday”.
“Precisaremos de um acordo firme para lidar de fato com essa nova capacidade que o Irã demonstrou nesta guerra.”
Em resposta ao controle do estreito pelo Irã, uma passagem crucial para o comércio global de energia, Trump ordenou à Marinha dos EUA que bloqueasse os portos do país e removesse as minas iranianas do estreito.
O bloqueio continuou em meio às negociações, com as forças armadas dos EUA incapacitando na sexta-feira um navio de bandeira gambiana que seguia para o Irã, disparando um míssil contra a sua casa de máquinas, segundo o Comando Central dos EUA.
O CENTCOM (Comando Central dos EUA) afirmou em um comunicado publicado nas redes sociais no sábado (30) que o navio mercante M/V Lian Star estava a caminho de um porto iraniano no Golfo de Omã quando as forças armadas americanas emitiram “mais de 20 advertências” de que ele estava violando o bloqueio americano aos portos iranianos.
Este foi o quinto navio comercial imobilizado pelas forças armadas americanas desde o início do bloqueio, segundo o CENTCOM. Mais de 100 embarcações também foram redirecionadas.
Reservas de petróleo
Enquanto os impactos econômicos continuam em meio às negociações, o diretor do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett, disse no domingo que o governo federal e as empresas privadas ainda têm “bilhões” de barris de petróleo em reserva, enquanto usam os estoques para compensar o aumento dos preços do petróleo.
“Há muito espaço para negociação… existe muita pressão sobre o Irã para que finalmente aceite os termos do presidente”, disse ele em entrevista ao programa “This Week”, da ABC, respondendo às preocupações de um executivo da Exxon Mobil na última quinta-feira de que os estoques estão se aproximando de níveis “sem precedentes”.
A Reserva Estratégica de Petróleo diminuiu em mais 9,1 milhões de barris entre 15 e 22 de maio, conforme relatório semanal divulgado pela Administração de Informação de Energia (EIA). Essa queda é superior ao recorde de 8,6 milhões de barris registrado em 13 de maio.
Se um acordo for confirmado com o Irã e os bloqueios atuais forem removidos do Estreito de Ormuz, o fornecimento de petróleo poderá levar dois meses para voltar ao normal, explicou Hassett.
A queda nos preços do petróleo também dependerá da rapidez com que as refinarias conseguirem retomar a produção, após a paralisação das atividades em meio à guerra.
A alta dos preços do petróleo provocou o aumento dos preços da gasolina. O preço médio da gasolina nos EUA chegou a US$ 4,34 por galão no domingo, segundo a AAA. Isso representa uma queda de cerca de 18 centavos em relação à semana anterior, mas ainda permanece quase 46% mais alto em comparação com o início da guerra.
O aumento dos preços da energia afetou a percepção dos americanos sobre a economia. Apenas 16% dos americanos classificam a economia como excelente ou boa, de acordo com uma pesquisa recente do Gallup.
Hassett minimizou a percepção negativa dos americanos sobre a economia, afirmando que os aumentos nos salários reais e no mercado de ações compensaram a inflação.
“Se eles olharem para suas carteiras e virem quanto dinheiro têm depois do aumento dos preços, vão perceber que têm muito mais dinheiro”, afirmou ele.
Entenda por que os EUA não conseguem proteger o Estreito de Ormuz

