Apesar das recentes divergências envolvendo o acordo Mercosul-União Europeia, como exigências sanitárias para carnes, cotas agrícolas e mecanismos de proteção ao mercado europeu, a Apex-Brasil mantém a projeção de US$ 1 bilhão em comércio adicional entre os blocos.
Em entrevista à CNN, o presidente da agência, Laudemir Müller, afirmou que o potencial do acordo vai além das cotas para produtos agropecuários tradicionais e pode abrir espaço para setores com baixa participação no mercado europeu, como o de frutas. Segundo ele, a estimativa é conservadora e o tratado também deve impulsionar investimentos no Brasil e fortalecer as relações comerciais com parceiros estratégicos, como a China.
Confira os principais pontos da entrevista:
CNN: Os recentes entraves envolvendo o acordo Mercosul-UE, especialmente as discussões sobre antimicrobianos e as cotas agrícolas, podem reduzir os ganhos esperados para o Brasil?
Laudemir Müller: Eu continuo muito otimista. Estamos falando de 543 setores de cinco mil que estão impactados. Não estamos falando de todos os setores, estamos falando apenas de uma parte.
CNN: Quais setores têm vantagem?
Laudemir Müller: Vou dar o exemplo da uva de mesa, em que o Brasil fez o primeiro envio dentro do acordo na semana passada. Atualmente o país detém 1,5% do mercado europeu de uva de mesa, que é um mercado de importação de US$ 5 bilhões. Se chegarmos a 3% de participação, vamos para quase US$ 170 milhões. Se chegarmos a 5%, passaremos de US$ 250 milhões. Somos competitivos,nosso preço é bom, temos capacidade, escala e solo. Nas carnes, ninguém tem expectativa de que a gente vá mudar tudo de uma hora para outra. Por isso estamos falando de apenas US$ 1 bilhão. É uma estimativa bem modesta.
CNN: Por que o senhor considera essa projeção conservadora?
Laudemir Müller: Porque a Europa importa US$ 3 trilhões por ano de fora do bloco. O Mercosul importa US$ 340 bilhões. A Alemanha importa US$ 1,4 trilhão por ano — só que 70% dessa importação vem de países com os quais a Europa tem acordo ou algum tipo de preferência comercial. Como é que você entra num mercado de US$ 1,4 trilhão sem ter acordo nenhum? É muito difícil. A gente até consegue, mas é muito difícil. Esse acordo cria um espaço novo. Por isso, acho que esse US$ 1 bilhão adicional é uma estimativa bem modesta.
CNN: Como o senhor vê a questão das cotas?
Laudemir Müller: A cota é você melhorar a sua posição, fazer uma entrada gradual. Não dá para abrir tudo de uma vez. Então vamos administrar uma cota. Eu não vejo isso como um grande revés. Vejo como parte do processo. Então ninguém espera um surto de exportação. E, se acontecer, haverá outros mecanismos de proteção. É uma coisa lenta de a gente entrar, e isso é natural.
CNN: O acordo pode atrair mais investimentos europeus?
Laudemir Müller: Estou muito seguro disso. A Alemanha está com um impacto de custo muito alto por conta de energia. E nós estamos falando de setores que vão demandar muita energia. Então o Brasil entra bem nessa equação.
CNN: O agro brasileiro já está acostumado a lidar com esse tipo de barreira?
Laudemir Müller: O Brasil aprendeu a navegar nesse ambiente. Abre mercado, fecha mercado, habilita planta, marca visita técnica, depois a visita é adiada, manda relatório, manda outro relatório. Essa complexidade não é exatamente uma novidade para nós.
CNN: A discussão sobre antimicrobianos entra nessa categoria?
Laudemir Müller: Sim. Mas não é um assunto novo. A gente precisa conduzir bem essa discussão, cuidar da imagem do Brasil e esclarecer os pontos necessários. Ainda é muito difícil para o europeu entender a agricultura brasileira. Eles vivem uma realidade completamente diferente.
CNN: O senhor vê gargalos logísticos para aproveitar o acordo com a Europa?
Laudemir Müller: Não. A Europa não é um mercado novo para o Brasil. Estamos falando de incremento de comércio. Não vejo problemas de rota ou conexão.
CNN: Onde a logística ainda é um problema?
Laudemir Müller: Na China, por exemplo. A abertura para a uva de mesa é um caso. Ainda não encontramos uma logística adequada. Às vezes a rota é cara demais.Em outros casos falta escala. E aí você não viabiliza a escala porque a logística não fecha a conta. É uma equação complexa.
CNN: Isso reforça a importância da Rota Bioceânica?
Laudemir Müller: Eu acredito que sim. Os chineses não investiriam bilhões de dólares no porto de Chancay se não estivessem pensando em rotas mais seguras e mais baratas. Eu acredito muito nessa conexão. Mas existe também uma questão cultural. O Brasil se acostumou a olhar apenas para o Atlântico. De costas para o Suriname, para a Guiana. A gente olha só para um lado. Mas isso vem mudando. Se você falar hoje para um empresário de Cuiabá que em dois dias e meio, três dias, um caminhão pode estar no porto do Pacífico e seguir para a Ásia em mais vinte e poucos dias, muita gente ainda não acredita.
CNN: Como avalia o momento da relação bilateral Brasil-China?
Laudemir Müller: Saí ainda mais convencido de que Brasil e China vivem o melhor momento da relação bilateral. Isso não significa que a China não possa adotar salvaguardas ou medidas de proteção. Pode. Mas a relação está muito forte. Me encontrei com um governador de Shenzhen, que é uma das pessoas mais importantes do Partido Comunista. A gente falou sobre estratégia. O que eu ouvi diversas vezes foi a importância atribuída à relação entre o presidente Lula e o presidente Xi Jinping.
CNN: A guerra comercial entre Estados Unidos e China cria oportunidades para o Brasil?
Laudemir Müller: Cria oportunidades, mas também exige atenção. Os chineses procuram ainda mais o Brasil porque nos enxergam como um parceiro estável. Mas ao mesmo tempo eles não querem depender excessivamente de ninguém, mesmo que seja um grande amigo. Quando eles colocam uma salvaguarda na carne, estão pensando no preço interno, nas outras relações. E o Brasil está entendendo isso. A gente não está só apostando na China. Estamos olhando para Japão, Coreia, México e vários outros destinos. O Brasil está se posicionando e jogando com várias cartas.
CNN: Além de commodities, o que mais o Brasil está construindo com a China?
Laudemir Müller: O café. A gente está fazendo junto com empresas chinesas no Brasil, levando uma cultura de café para a China, inclusive café especial. A gente fechou uma parceria com uma empresa de café especial. E aí vêm outros produtos. O gergelim é um fenômeno. É de zero para quase US$ 200 milhões de exportação, em terceira às vezes até quarta safra. Frutas, mesmo sem a gente ter achado solução boa de logística.
CNN: A missão da Apex levou cooperativas da agricultura familiar para a China pela primeira vez. Qual foi o resultado?
Laudemir Müller: Foi um marco histórico. Convencer cooperativas e empresários a irem para a China não é simples. Tivemos casos muito interessantes, como a AmazonBai, do Amapá, que conseguiu vender a produção do ano inteiro e passou a enxergar possibilidades que antes pareciam impossíveis.
CNN: Quais mercados devem ganhar importância nos próximos anos?
Laudemir Müller: Índia e África são dois exemplos muito claros. A Índia não é uma nova China. É um país diferente, com outra cultura, outro ritmo, outro governo — é uma democracia. E o que a gente percebe é que ela está pulando algumas etapas. Quase não tem supermercado na Índia, a cadeia de frio é muito pouco estabelecida, mas eles estão dizendo que vão pular direto para o e-commerce.
Como é que você sai de uma feira na rua para o e-commerce? É isso que está acontecendo lá. Mas estamos acompanhando uma carteira de 12 grandes investidores indianos, temos um escritório lá, e o fluxo de comércio praticamente dobrou nos últimos três anos. Ainda é baixo, mas o potencial é grande.
A África também terá um peso crescente por causa da dinâmica populacional. A gente vai chegar a 10 bilhões de habitantes logo [no mundo] e70% vai vir da África nos próximos 30 anos. Quando olhamos as projeções do FMI para os próximos 20 ou 30 anos vislumbramos a Nigéria como a quinta ou sexta economia do mundo.

