Deolane Bezerra foi presa na quinta-feira (21) durante uma operação policial em São Paulo. Em entrevista ao CNN 360° durante a semana, Lincoln Gakiya, promotor do MPSP (Ministério Público de São Paulo), detalhou a investigação e afirmou que a influenciadora está envolvida em lavagem de dinheiro do crime organizado pelo menos desde 2022.
Segundo o promotor do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), a operação já vinha sendo planejada há algum tempo e envolveu dimensões internacionais.
Havia informações de que Deolane estava na Itália, enquanto outra investigada, Paloma Ervas Camacho, sobrinha de Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola, encontrava-se em Madri.
Um terceiro investigado estava na Bolívia. “A gente até faria a prisão da Deolane aqui hoje, na deflagração da operação, para ser concomitante no Brasil e também na Espanha e na Itália”, explicou Gakiya, que estava em Roma no momento da entrevista. No entanto, Deolane antecipou seu retorno ao Brasil, o que levou as autoridades a aguardarem sua chegada para cumprir os mandados.
Segundo Gakyia, Deolane Bezerra representa uma “nova face do PCC”. Ele explicou o conceito. “Ela não é uma integrante batizada do PCC, porém é uma peça fundamental para que a facção e para que líderes da facção possam usar essas pessoas para a lavagem de dinheiro […] No caso dela [Deolane], contas particulares foram usadas de forma ilegal para ocultar dinheiro”, destacou Gakyia.
Conexão com a família Camacho e o PCC
Gakiya revelou que Deolane já era conhecida das autoridades antes de se tornar famosa nas redes sociais. “Deolane já era conhecida nossa antes da fama, ela advogava para presos do PCC no interior de São Paulo, inclusive presos de altíssima periculosidade, que cumpriam pena na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau”, afirmou. Segundo ele, ela chegou a se casar com um dos detentos, integrante do PCC.
A investigação teve início a partir da apreensão de um bilhete na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, que continha informações sobre agentes penitenciários e diretores que seriam assassinados.
A partir desse material, as autoridades chegaram a uma transportadora montada em um terreno próximo à penitenciária onde Marcola se encontrava com seu irmão Alejandro Camacho, chamada “Transportadora Lado a Lado”. As investigações comprovaram que o empreendimento era ligado a Marcola e Alejandro. Um casal utilizado como “laranja” na sociedade da transportadora já foi condenado com sentença transitada em julgado.
Contas de Deolane usadas para lavar dinheiro
De acordo com Gakiya, o celular de um dos sócios laranjas da transportadora continha informações sobre repasses de dinheiro feitos para a família Camacho. “As contas pessoais da Deolane foram indicadas pelo Everton de Souza, que é um dos acusados presos na operação, e que era o sujeito que operava a parte financeira, tanto do Marcola quanto do seu irmão, o Alejandro, para receber pagamento de recursos provenientes da lavagem de dinheiro dos irmãos Camacho”, detalhou.
Segundo ele, “há uma ligação direta da Deolane com a família Camacho, principalmente no que tange à lavagem de dinheiro“.
Gakiya acrescentou que, em dois anos, as contas de Deolane movimentaram R$ 140 milhões, sem qualquer comprovação de serviços prestados que justificassem esse valor. “É muita renda não declarada, é a pulverização de dinheiro em várias contas de pessoa jurídica”, disse.
Para dissimular a origem dos recursos, Deolane teria aberto 35 empresas em Martinópolis (SP), município próximo a Presidente Prudente (SP), todas registradas em um endereço falso em um conjunto habitacional de baixa renda, além de outras 15 empresas em Santo Anastácio (SP) e mais empreendimentos na região de Ribeirão Preto (SP).
Prisão mantida e próximos passos
Após audiência de custódia realizada no mesmo dia, a Justiça manteve a prisão preventiva de Deolane Bezerra. Gakiya informou que o inquérito já foi concluído e que, em poucos dias, o Ministério Público deverá oferecer denúncia contra a influenciadora e os demais envolvidos, dando continuidade à ação penal.
Ao ser questionado sobre a capacidade de líderes do crime organizado se comunicarem de dentro dos presídios, Gakiya reconheceu que se trata de um desafio não exclusivo do Brasil. “Eu estou na Itália, inclusive, participando de encontros com procuradores antimáfia italianos e também europeus”, disse, destacando que a comunicação de presos com familiares e advogados é uma previsão constitucional.
Segundo ele, as autoridades tentam monitorar essas comunicações e têm obtido algum sucesso, ressaltando a importância do trabalho integrado entre Polícia Civil, Polícia Penal e Ministério Público.

