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Mandato de Powell como chair do Fed termina nesta sexta (15)

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Mandato de Powell como chair do Fed termina nesta sexta (15)

A maior retração econômica da história americana, a maior inflação em mais de 40 anos, ataques políticos agressivos da Casa Branca e o pior choque energético global de todos os tempos.

Esses são alguns dos eventos que se desenrolaram durante os oito anos de presidência de Jerome Powell no Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. O mandato de Powell termina nesta sexta-feira (15).

Kevin Warsh, o indicado do presidente Donald Trump para liderar o Fed, recebeu a aprovação do Senado na quarta-feira (13).

“É difícil pensar em outro chair do Fed que tenha enfrentado uma combinação tão grande de golpes na economia americana”, argumentou à CNN Patrick Harker, que atuou como dirigente do Fed da Filadélfia de 2015 a 2025 e trabalhou em estreita colaboração com Powell.

“Para encontrar um presidente do Fed que tenha lidado com algo semelhante ao que Jerome Powell enfrentou, é preciso voltar a Marriner Eccles, que lidou com a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial”, continuou ele.

A pandemia de Covid-19 foi um dos maiores desafios de Powell à frente do banco central americano, afirmam economistas e ex-funcionários do Fed.

“A pandemia foi algo inédito para o Fed”, disse Loretta Mester, que serviu ao Fed de Cleveland de 2014 a 2024 e trabalhou com Powell. “Foi uma situação de saúde pública com implicações para a economia, a política fiscal e a política monetária”.

O fechamento repentino de empresas em 2020 provocou quedas recordes no Produto Interno Bruto (PIB), a medida mais abrangente da produção econômica, e no consumo, a força vital da economia americana. Além disso, também elevou a taxa de desemprego para 14,8% em abril de 2020, a maior desde a Grande Depressão.

Os mercados financeiros também entraram em colapso. Powell convocou rapidamente duas reuniões de emergência em março de 2020 para reduzir as taxas de juros a quase zero e injetar liquidez no sistema financeiro por meio de um programa de empréstimos.

Powell descreveu as ações emergenciais do Fed como um esforço “sem precedentes” para apoiar a economia de forma “enérgica, proativa e agressiva”. O objetivo, segundo Powell, era construir uma “ponte” para a recuperação econômica, e esses esforços, juntamente com a resposta enérgica do Congresso, são amplamente reconhecidos por terem atenuado o impacto inicial da pandemia na economia americana.

“A resposta do Fed à Covid foi bem-sucedida em restaurar a estabilidade do mercado e preservar o acesso ao crédito”, escreveu Erin Lockwood, professora de ciência política da Universidade da Califórnia, Irvine.

O que dizem os críticos

Em 2021, quando as empresas se apressaram para recontratar os trabalhadores que haviam demitido no ano anterior, ofereceram salários mais altos para atrair um contingente de trabalhadores que havia diminuído durante a pandemia por diversos motivos. Os trabalhadores americanos não só tinham vantagem no mercado de trabalho, como também contavam com as economias acumuladas durante os lockdowns generalizados e os pagamentos de estímulo relacionados ao período da pandemia. Na época, as cadeias de suprimentos ainda se recuperavam das interrupções causadas pela pandemia.

Todos esses fatores prepararam o terreno para a maior alta inflacionária em quatro décadas. Mas, na época, vários formuladores de políticas, incluindo Powell, disseram que qualquer pressão sobre os preços provavelmente seria “transitória” — uma palavra da qual os dirigentes do Fed se arrependeriam mais tarde. A inflação acabou sendo mais duradoura, ao invés de transitória, em grande parte devido à demanda dos trabalhadores por aumentos salariais para compensar a inflação mais alta.

Por fim, o Fed percebeu que precisava começar a aumentar as taxas de juros, o que fez em março de 2022, no que se revelou o ciclo de aumento de juros mais agressivo desde a década de 1980.

Na época, Powell alertou sobre a “dor necessária” que os aumentos de juros do Fed poderiam trazer para as famílias americanas para controlar a inflação. Contudo, apesar dos custos de empréstimo mais altos terem afetado muitos cidadãos — especialmente as famílias de baixa renda — a economia dos EUA mostrou-se notavelmente resiliente, evitando uma recessão.

Os críticos de Powell frequentemente apontam para esse aumento da inflação como um grande erro do Fed. Mester, que fazia parte do comitê de definição de taxas do Fed na época, disse à CNN: “De fato, agimos muito lentamente”, mas afirmou que era uma “situação sem precedentes” e que ninguém sabia ao certo como ela se desenrolaria.

Harker descreveu o mesmo sentimento, apontando-o como uma “interpretação equivocada”, mas disse que o Fed não foi o único a tomar a decisão errada.

“O consenso, não apenas do Fed, mas de toda a classe econômica da época, era de que a inflação seria transitória”, declarou Harker. “Este não foi apenas um erro do Fed, foi também um erro dos analistas de Wall Street e dos economistas acadêmicos”.

Ponto central do legado de Powell

É importante ressaltar que o legado de Powell também será definido pela luta dele para manter a capacidade do Fed de definir as taxas de juros sem interferência política.

Apenas alguns meses após Powell assumir a presidência do Fed em 2018, Trump começou a criticá-lo por não reduzir as taxas de juros. As críticas recomeçaram após o início do segundo mandato de Trump. Ao longo do último ano, o presidente exerceu uma pressão sem precedentes sobre o Fed, em uma tentativa de forçar a redução das taxas de juros. Trump argumentou que as taxas precisam ser menores para diminuir os custos de empréstimo do governo e impulsionar o crescimento econômico.

O Fed, contudo, define as taxas com base nas condições econômicas e nas perspectivas, não nas exigências de um presidente em exercício — uma característica consagrada na carta constitucional que estabeleceu o Fed em 1913, e também um pilar da estabilidade da economia americana.

Este é um ponto que Powell reiterou frequentemente: “A independência é o que nos permite fazer nosso trabalho. É fundamental que a tenhamos para que possamos preservar a estabilidade de preços”, frisou ele a repórteres em março, após a decisão do Fed sobre as taxas naquele mês.

Trump insultou Powell repetidamente e ameaçou demiti-lo; o governo dele continua a caracterizar uma reforma na sede do Fed como “prova de má gestão da administração de Powell”; e o presidente dos EUA está tentando demitir a governadora do Fed Lisa Cook em um caso histórico que será decidido pela Suprema Corte.

Powell reagiu. Em janeiro, ele revelou, em uma declaração em vídeo, que procuradores federais estavam investigando o depoimento que ele prestou ao Congresso no ano anterior sobre as reformas do Fed. Powell repreendeu esses esforços, classificando-os como uma tática de pressão do Poder Executivo. Mais tarde naquele mês, Powell compareceu às audiências na Suprema Corte no caso Trump vs. Cook, em uma demonstração de apoio à independência do Fed.

Mesmo durante a última coletiva de imprensa como chair, em abril, Powell continuou a enfatizar a importância da independência do Fed.

“Não se trata do Fed ou das instituições, mas sim dos benefícios de um banco central que toma decisões com base em análises e no nosso melhor discernimento, ao invés de tentar ajudar ou prejudicar políticos”, ressaltou ele. Nesse discurso, Powell também confirmou que continuará como membro do Conselho de Governadores do Fed até que considere que a investigação federal contra ele esteja realmente encerrada.

Powell afirmou que não pretende interferir na liderança de Warsh, enfatizando a importância de respeitar a autoridade do chair do Fed. Powell chegou a dar alguns conselhos ao futuro presidente do Fed.

“Mantenha-se afastado da política eleitoral”, destacou Powell.

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