A mudança de nome da Síndrome dos Ovários Policísticos vem para trazer mais clareza e tornar mais compreensível o que é a patologia. A partir da nova definição, vai ser possível também fazer mais diagnósticos.
Considerada uma das condições hormonais mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva, o novo nome agora é SOMP (Síndrome Ovariana Metabólica Poliendrócrina).
Essa imprecisão contribui para atrasos no diagnóstico, fragmentação do cuidado, estigma e dificuldades na pesquisa e nas políticas de saúde. “Na prática clínica, este novo nome significa que pacientes e profissionais de saúde passarão a reconhecer a condição ginecológica como um distúrbio sistêmico, que afeta hormônios, metabolismo e ovários, em vez de algo restrito a cistos ovarianos”, afirma o presidente da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia, José Maria Soares Junior.
Fim do estigma e rotina de atendimentos
A nova nomenclatura reflete um lado humanitário e ajuda a reduzir o estigma em torno da síndrome, que está associada a maior risco de depressão e ansiedade por estar ligada à infertilidade.
Além disso, os profissionais de saúde também deverão investigar e, possivelmente, excluir condições endócrinas antes de chegar ao diagnóstico.
“Além de reduzir o estigma, a mudança ajudará a acelerar o diagnóstico (atualmente retardado em até 70% dos casos), melhorar a comunicação clínica, orientar pesquisas e políticas de saúde de forma mais precisa e alinhar classificações internacionais como o CID, com um período de transição global de três anos apoiado por novas diretrizes, recursos educacionais e atualizações em prontuários eletrônicos”, acrescenta o especialista.
Soares reforça também que a nova nomenclatura impacta a rotina dos consultórios e avaliações, transformando tanto a abordagem clínica quanto a comunicação com o paciente.
Segundo ele, o médico, em vez de explicar que “ovários policísticos não são cistos verdadeiros” (uma correção confusa e frequente), pode simplesmente dizer: “você tem uma condição que afeta seus hormônios, seu metabolismo e seus ovários — por isso o nome poliendócrino, metabólica e ovárica”.
Neste sentido, a presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Karen de Marca, acrescenta que a mudança implicará, sobretudo, na clareza do diagnóstico – permitindo, assim, que o paciente informe com mais precisão o quadro da condição.
“A mudança da nomenclatura vem de uma necessidade de a gente adaptar ao que realmente é a síndrome hoje em dia, o que ela significa, do que realmente ela trazia como significado quando você fala de uma síndrome de zoovários policísticos.
Então, existiam algumas demandas em relação a isso e eu acho que o apelo principal foi que as pessoas que tinham o diagnóstico da síndrome. Ela está muito associada à infertilidade, e parece que em algumas culturas a função reprodutiva é muito desejada, muito exigida. E, quando uma paciente recebia o diagnóstico da síndrome de zoovários policísticos, automaticamente já era taxada como infértil e poderia sofrer algum tipo de rejeição, de estigma da sociedade”.
Impactos da nova nomenclatura
De acordo com o consenso internacional, a condição afeta mais de 170 milhões de mulheres no mundo e não deve ser entendida como uma doença exclusivamente ginecológica.
A mudança de nome levou 14 anos de discussão internacional, envolveu 56 organizações científicas, clínicas e de pacientes e coletou mais de 14 mil respostas de mulheres e profissionais de saúde em todo o mundo.
O ginecologista obstetra, especialista em Reprodução Humana, Rodrigo Rosa, explica que a nova nomenclatura – SOMP (Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina) – teve como objetivo, sobretudo, refletir a real fisiopatologia, facilitando aspectos que vão desde a educação médica até à aplicação de políticas públicas. “A ideia é que o impacto vá além da terminologia. Quando o nome de uma doença comunica melhor sua natureza, ele ajuda o médico a pensar mais cedo nela, ajuda a paciente a reconhecer sinais de alerta e encurta o caminho até o diagnóstico. Em saúde reprodutiva, isso pode fazer toda a diferença”, celebra.
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