A visita de Estado do Rei Charles III aos Estados Unidos foi muito além do protocolo cerimonial. Em um momento de tensão diplomática entre Londres e Washington, motivada pela recusa do Reino Unido em apoiar os Estados Unidos no conflito com o Irã, a monarquia britânica foi acionada como o principal instrumento de aproximação entre as duas nações.
A viagem, programada para coincidir com as comemorações dos 250 anos da independência americana, carregava desde o início um objetivo estratégico: utilizar o chamado soft power da Coroa para influenciar Donald Trump, que nutre reconhecida afeição pela monarquia britânica. Durante o videocast Fora da Ordem, que vai ao ar ao vivo às sextas-feiras, a partir das 13h, no canal de YouTube da CNN Brasil e na TV aos domingos às 17h15, Américo Martins, correspondente sênior de Internacional em Londres, disse que Trump “chama o rei Charles III praticamente de um amigo” e “diz que o conhece há muitos anos”, além de ter demonstrado afeto especial pela rainha Elizabeth.
O contexto político que antecedeu a visita era de confronto aberto. O governo britânico recusou, em pelo menos duas oportunidades, apoiar militarmente os Estados Unidos na guerra contra o Irã. Ministros britânicos chegaram a afirmar, em caráter reservado, que o conflito seria ilegal e que o partido trabalhista, no poder, não teria razões para aderir à iniciativa americana.
A resposta de Trump foi dura. O presidente americano passou a criticar severamente o Reino Unido, seu governo e até suas Forças Armadas, chegando a chamar os porta-aviões britânicos de “brinquedos” em comparação com os navios americanos. A declaração gerou forte repercussão no Reino Unido, país cujos militares lutaram e morreram ao lado de soldados americanos em diversas guerras ao longo da história.
O charme do rei e os recados políticos
Diante desse cenário, tanto o governo quanto a monarquia britânica decidiram que a visita deveria acontecer. Charles III utilizou discursos, humor e conexões pessoais para suavizar as relações. Em seu discurso no Congresso americano, o monarca fez menções diretas à importância de preservar a aliança transatlântica, aos valores democráticos compartilhados pelas duas nações e, de forma incomum para um membro da família real, citou explicitamente a preservação da soberania da Ucrânia, conforme explicou Lucas Martins, consultor e pesquisador da Temple University, durante o programa.
O próprio rei brincou que, se não fosse monarca, seria comediante de stand-up. Trump, por sua vez, comentou que sua mãe era “apaixonada” pelo Charles quando jovem. A visita foi descrita como leve e bem-humorada, mas permeada de recados políticos estratégicos. A interpretação predominante no Reino Unido foi de que o rei conseguiu, de fato, influenciar Trump e reaproximar os dois países.
Limites do soft power real
Apesar do clima positivo gerado pela visita, analistas apontam que a diplomacia real tem seus limites. Américo Martins avalia que, embora Trump respeite a monarquia e tenha afeição pelo Reino Unido, a relação com o governo de Keir Starmer permanece tensa. Uma coisa é a monarquia e o Reino Unido. Outra coisa é a negociação com o Keir Starmer, observou a correspondente Mariana Janjácomo durante o debate.
Os embates comerciais entre os dois países, por exemplo, não seriam desfeitos por uma visita de Estado. Além disso, a possível saída dos Estados Unidos da Otan e as pressões sobre os aliados europeus continuam sendo fontes de preocupação. “Está ficando cada vez mais difícil trazer Trump para perto da Otan de novo”, afirmou Janjácomo.
A família real como trunfo diplomático
A visita evidenciou que o Reino Unido dispõe de um recurso diplomático que poucos países possuem: a figura da família real, com sua força histórica e midiática. Enquanto outras democracias, especialmente as de centro-esquerda, enfrentam dificuldades para negociar com Trump, o Reino Unido apresentou um modelo alternativo de aproximação. “A Inglaterra traz um exemplo de como fazer isso através de um trunfo chamado Família Real”, resumiu Lucas Martins. Resta a outras nações encontrarem suas próprias estratégias para lidar com o atual cenário político internacional.
