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Comércio deixa de faturar “dois natais” por apostas em bets, diz CNC

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Comércio deixa de faturar “dois natais” por apostas em bets, diz CNC

Apostas em bets fizeram o comércio brasileiro deixar de faturar o equivalmente a dois natais nos últimos dois anos, segundo dados da CNC (Confederação Nacional do Comércio), divulgados nesta terça-feira (28).

No período, o varejo doméstico perdeu a oportunidade de receber cerca de R$ 143,82 bilhões em vendas por conta do gasto em apostas. Segundo a entidade, cada período de Natal costuma girar aproximadamente R$ 70 bilhões.

O montante que o setor deixa de comercializar representa 2,5% do total de vendas que fez desde janeiro de 2023, quando os dados financeiros sobre as bets começaram a ser registrados oficialmente no Brasil.

“O que vemos é uma mudança de hábito de consumo da população em favor de serviços”, disse Fabio Bentes, economista-chefe da CNC.

“Mas o problema são gastos que colocam em risco o equilíbrio do orçamento familiar. Parcela cada vez mais significativa da renda familiar, que deveria quitar dívidas ou manter a família abastecida, está sendo direcionada para as plataformas, e o resultado é uma inadimplência muito mais difícil de ser revertida, pois o recurso frequentemente se perde sem gerar patrimônio ou consumo de bens”.

Segundo o levantamento da CNC, a utilização de recursos em sites de bets têm causado – embora não sejam a única origem – impactos negativos sobre três aspectos do orçamento familiar no Brasil: o aumento do endividamento total, a inadimplência severa e maior tempo médio para pagamento dos débitos.

O estudo mediu o potencial de dano que os gastos com bets podem causar em diferentes grupos socioeconômicos e concluiu que o perfil de família mais afetado é o de considerado “renda baixa”, que vai de três a cinco salários mínimos.

Já no perfil de indivíduos mais prejudicados em função do uso de dinheiro nas bets estão homens, pessoas com mais de 35 anos e que tenham como grau de escolaridade o ensino médio completo ou acima.

De acordo com a pesquisa da CNC, os gastos financeiros com apostas podem fazer com que as famílias ou se endividem mais – no caso de quem pega empréstimos, por exemplo, para conseguir dinheiro para usar em bets – ou deixem de consumir no comércio e serviços (nessa situação, as pessoas deixam de gastar em compras para apostar).

O economista-chefe da CNC, Fábio Bentes, considera que o problema nacional do endividamento é um ponto importante para o rendimento de vários setores da economia que, aparentemente, “não teriam a ver” com o mercado de apostas.

“O tema das dívidas é relevante porque impacta no estrangulamento da renda das pessoas, o que afeta diretamente nosso setor, no comércio e na economia como um todo. Por isso, dívidas pessoais, inclusive com as bets, são tão importantes”, disse Bentes.

Ele ressaltou, porém, que o estudo não significa que a CNC seja contrária ao funcionamento das bets no país.

“Nós não somos contra apostas online, somos a favor de qualquer atividade econômica formalmente estabelecidas. A ideia é desmistificar essa discussão sobre bets e endividamento. Até porque as bets, por si só, não são as responsáveis por todo o problema das dívidas nem por uma possível redução na atividade do comércio”, afirmou o chefe da CNC.

Maiores prejudicados

O levantamento da CNC mediu como o uso do orçamento pessoal ou familiar para jogos de aposta tende a impactar a situação financeira de alguns grupos sociais brasileiros. No estudo, foi calculado uma espécie de “coeficiente” de efeito, ou seja, o potencial que cada tópico tem de ser influenciado pelos gastos com as bets.

A pesquisa mediu três características distintas do contexto das dívidas: o endividamento total (ou seja, quanto alguém deve com empréstimos, financiamentos, créditos e parcelamentos, por exemplo); a inadimplência severa (quando o cidadão já não consegue mais pagar seus débitos em dia) e o tempo médio de quitação (o período gasto para pagar alguma dívida, seja pelo número de parcelas ou pelo tempo de atraso em casos de inadimplência).

A partir desse método, a CNC concluiu cinco “pontos críticos” sobre a influência das bets para o endividamento no Brasil:

  • Aumento de casos inadimplência severa por quem faz apostas online.
  • Homens tendem a se endividar mais em função das bets, além de gastarem mais tempo para quitar suas dívidas.

Segundo a CNC, as mulheres não tem alterações significativas no total que devem nem na capacidade de pagar quando gastam com apostas. A única alteração relevante, para elas, é o aumento do prazo médio que levam para quitar seus débitos.

  • Os perfis mais propícios a serem afetados são de pessoas maiores de 35 anos e com escolaridade de ensino médio completo ou mais.

Nesse caso, a CNC justifica que esse grupo populacional costuma ter mais acesso à bancarização e à plataformas de bets, fazendo com que tenham tendência de gastar mais nas apostas.

  • Famílias de baixa renda (que ganham até 5 salários mínimos) geralmente se endividam mais em função das bets.

Para a CNC, em casos de menor renda costuma haver novas contratações de dívidas em patamares significativos. Já as famílias de renda alta (acima de 10 salários mínimos), em média, não adquirem mais débitos, mas sim substituem outros gastos pelas bets.

Setor de apostas rebate

A ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias) divulgou nota rebatendo o estudo apresentado pela CNC. A entidade declarou que a relação entre bets e endividamento não é real, e citou que o problema da inadimplência é “histórico e estrutural”, impulsionado, segundo a ANJL, por fatores como o alto custo do crédito, taxas de juros altas e a pressão do custo de vida sobre o orçamento da população.

A associação também disse que o mercado opera sob regras legais definidas pelo Ministério da Fazenda, e que os números da CNC desconsideraram o “comportamento heterogêneo” das apostas, o qual, diz a ANJL, “é incompatível com generalizações sobre impacto uniforme no orçamento das famílias.”

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