Recrutadores ao redor do mundo têm relatado um novo tipo de candidato nas entrevistas de emprego: o avatar gerado por inteligência artificial. A tecnologia reproduz voz e aparência de uma pessoa real, mas quem responde às perguntas é um sistema de IA. O fenômeno já aparece em entrevistas de primeira fase, segundo reportagem do site TheNextWeb.
Lana Kersanava, recrutadora de Sydney, Austrália, contou à Semafor que passou a identificar esses avatares nos últimos seis meses. "No começo, você sente que algo está estranho", disse. "A aparência é bem realista”.
Segundo Kersanava, o problema não estava na renderização visual, que se mostrou convincente. O que chamou atenção foi a qualidade das respostas, sempre articuladas sem hesitação ao longo de uma sequência de perguntas.
A recrutadora encerrou a entrevista após cerca de cinco minutos e desqualificou o candidato. Ela já repetiu esse procedimento três vezes.
Uso diferente do esperado
Os três candidatos flagrados por Kersanava haviam se inscrito para vagas que exigiam inglês, mas não eram falantes nativos do idioma. Nesses casos, o avatar funcionou como forma de compensar uma limitação de proficiência, um uso diferente de quem inventa uma experiência profissional inteira.
O mercado de recrutamento já enfrenta um problema de viés documentado. Um levantamento citado pela reportagem aponta que recrutadores têm até 19% menos chance de dar retorno a candidatos imigrantes ou de minorias étnicas, mesmo quando as qualificações são equivalentes às de outros candidatos.
O dado não torna aceitável o uso de um avatar sem aviso prévio, mas complica a leitura desses casos como simples fraude.
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IA para filtrar currículos, IA para responder entrevistas
Sistemas de rastreamento de candidatos já usam IA para filtrar currículos antes da leitura humana. Recrutadores também passaram a recorrer a avatares de IA para conduzir entrevistas de primeira fase. Na prática, máquinas entrevistam máquinas.
Essa disputa entre inteligências artificiais têm levado empresas a reformular processos seletivos, com etapas técnicas ao vivo, simulações de cenários reais e dinâmicas de interpretação de papéis, formatos mais difíceis de automatizar.
O volume de uso ajuda a explicar a corrida. Quase dois terços dos candidatos hoje usam IA em algum momento do processo de candidatura, enquanto 87% dos gestores de contratação nos Estados Unidos recorrem à tecnologia durante a seleção. O número de candidaturas geradas por IA cresceu 239% no período analisado pela reportagem.
Números mostram o tamanho do problema
Um relatório de 2026 da Greenhouse mostrou que 91% dos gestores de contratação nos Estados Unidos já encontraram ou suspeitaram de respostas geradas por IA em entrevistas on-line.
Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, a empresa analisou 19.368 entrevistas ao vivo e identificou sinais de comportamento assistido por IA em 38,5% delas.
A tendência aponta para um crescimento do problema. A consultoria Gartner projeta que, até 2028, um em cada quatro perfis de candidatos no mundo será falso, considerando perfis gerados por IA, entrevistas em vídeo com deepfake e históricos profissionais fabricados.
A barreira técnica para criar esse tipo de fraude é baixa. Um estudo da Palo Alto Networks mostrou que uma pessoa sem experiência em edição de imagem consegue montar um candidato falso capaz de passar por uma entrevista em vídeo em até 70 minutos.
Empresas retomam entrevistas presenciais
Do total de líderes de recrutamento consultados na reportagem, 72% afirmam manter ao menos uma etapa presencial obrigatória para reduzir fraudes ligadas à IA. Google, McKinsey e Cisco já reintroduziram rodadas presenciais obrigatórias em seus processos seletivos.
Essa mudança resolve o problema de detecção, mas reduz o alcance que o recrutamento remoto buscava oferecer. Candidatos que não podem se deslocar até um escritório, entre eles muitos dos profissionais internacionais mais tentados a usar a tecnologia, perdem acesso à vaga logo na etapa inicial.
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