*Por Zé Lima
Se você viveu os anos 2000, lembra bem do Bug do Milênio. A mídia só falava disso. Era o caos apocalíptico e sistêmico porque os sistemas baseados em dois dígitos para ano (98, 99) iriam colapsar na virada para o 00. No fim, viramos o ano e o mundo não acabou. Pode rir.
Hoje, estamos prestes a viver um novo bug. Só que ele é silencioso, cruel e muito mais definitivo. Ele vai mudar a forma como a gente se relaciona com as máquinas: o exaurimento completo dos dados. A euforia que nos abastece com uma carga homérica de informação capaz de transformar qualquer infante em "sábio" em dois cliques, gerando argumentos irrefutáveis para a roda de conversa que não sabe diferenciar Sócrates de Shakespeare, está prestes a bater no teto.
O ponto é simples: criar IA exige um processo humano e braçal por trás. Primeiro vem a coleta. Imagina que alguém plantou um monte de coisa e você precisa colher. Você manda coletores pra rua, eles trazem tudo pro celeiro (o banco de dados) e você precisa separar o milho do feijão, etiquetando que ambos vieram da Fazenda do João. Isso é a normalização (para a gente não ficar louco falando de metadados aqui). Depois, você guarda cada um no seu galpão (a clusterização) para ser usado na hora certa.
Tudo isso só para começar a preparar o consumo da IA
O problema? Assim como os grãos na terra, os dados da internet são finitos. E o esforço para continuar minerando o que resta está ficando financeiramente inviável. Estimativas do mercado indicam que a gente atinge o teto da internet utilizável muito em breve. Hoje, uma fatia gigante do que alimenta as IAs já é dado sintético, ou seja, dado gerado pela própria IA. A máquina comendo o próprio rabo.
Quando comecei lá em 2014, criava-se datasets na unha. Juntava dezenas de pessoas na madrugada, à base de pizza e cerveja, baixando e etiquetando foto por foto para treinar modelos que hoje são gerados em dois segundos. Na nossa época, tudo era mato.
E aqui entra o colapso filosófico: quando tudo virar dado sintético, nada mais será real. Quando nada for real, o real perde o valor. Se o sintético passa a ser a "verdade", a gente passa a viver em uma ilusão. E se a gente virar a ilusão, a única saída é desligar a máquina.
Se desligar a máquina, o jogo acaba. E se tiver que recalibrar tudo do zero, quem é que volta pro jogo?
Os "dinossauros". A turma que ficou no meio do caminho, que ajudou a construir a base disso tudo no braço e que de fato sabe como esses filhos rebeldes funcionam por dentro. No fim das contas, a tecnologia só está imitando a vida: o pai tendo que ir lá dar um puxão de orelha no filho que achou que sabia tudo, mas só estava de molecagem.
É... parece que mais uma vez Steve Jobs tinha razão no seu famoso manifesto. Só que dessa vez ele não pode estar aqui para resolver o problema. Mas deixou seu legado com uma corja de poucos inconformados, aqueles "loucos, desajustados e rebeldes", prontos para esperar o caos se formar e depois agir para organizar o que os meninos bagunçaram.
Porque, afinal de contas, gente louca muda o mundo.
Filosofia, sociologia, antropologia.
Sempre foi sobre isso.
Você já ouviu falar na teoria da internet morta? Robôs já dominam mais de metade do tráfego e das páginas web.
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