Por Beatriz Figueiredo Cabral, Aurora Miho Yanai, Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça, Maria Isabel Sobral Escada, Cláudia Maria de Almeida e Philip Martin Fearnside
De 2019 a 2021, o desmatamento anual na floresta amazônica brasileira aumentou 56,6% em comparação com o período de 2016 a 2018, ultrapassando 10.000 km² por ano [1, 2]. Em 2021, o estado do Amazonas saltou para o segundo lugar no ranking de desmatamento anual entre os nove estados da Amazônia Legal brasileira, assumindo a posição histórica anteriormente ocupada por Mato Grosso e ficando atrás apenas do estado do Pará [3].
Nos últimos anos, o desmatamento tem se concentrado principalmente no leste do Acre, norte de Rondônia e sul do Amazonas, regiões que compõem a Zona de Integração AMACRO, ou Zona de Desenvolvimento Sustentável Abunã-Madeira, recentemente renomeada. A AMACRO foi criada em 2021, durante o governo presidencial de Jair Bolsonaro (2019-2022), com a justificativa de promover a sustentabilidade ambiental por meio do desenvolvimento econômico dos 32 municípios que compõem a região [4]. No entanto, a perspectiva de substituir a economia local existente por uma economia agroindustrial voltada para a exportação de commodities está atrelada à intensificação da violência rural, como observado nessa área [5-7]. Com o aumento do potencial para grandes plantações de soja e operações pecuárias, cresce a demanda por terras e intensifica os conflitos fundiários.
Esses conflitos frequentemente se manifestam como “apropriação de terras”, um termo específico da Amazônia, que denota a reivindicação ilegal e em larga escala de terras, tipicamente em territórios pertencentes ao governo (diferentemente do significado do mesmo termo na África e na Ásia, onde se refere à compra de terras locais por grupos estrangeiros) [8]. As terras do governo são invadidas tanto por grileiros quanto por pequenos agricultores (organizados e individuais). O resultado tem sido o aumento das taxas de desmatamento [7]. O processo de ocupação em Lábrea reflete um contexto histórico marcado por intensos conflitos fundiários relacionados à ocupação ilegal e desordenada, expansão da pecuária, pesca e caça predatórias, extração ilegal de madeira e posse de terras em áreas protegidas [5, 9]. O termo “posse de terras”, usado aqui, se refere a reivindicações autodeclaradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e não implica que os requerentes possuam a propriedade ou o título legal das áreas.
Tipologia dos padrões de desmatamento na Amazônia
Combater o crescente desmatamento e suas profundas consequências para a humanidade é crucial, o que exige uma compreensão abrangente desse processo dinâmico. Considerando a complexa relação entre desmatamento e mudanças no uso da terra, é fundamental compreender as interações entre os atores e os fatores envolvidos, a fim de subsidiar a formulação de políticas públicas capazes de mitigar os impactos negativos do desmatamento sobre o meio ambiente e a sociedade [10]. Para compreender de forma abrangente a ocupação da terra, uma abordagem robusta consiste em identificar a tipologia dos padrões de desmatamento e relacioná-los aos diferentes atores e aos estágios de ocupação de uma região [11-14]. Essa relação permite inferir o estágio evolutivo do processo de ocupação e desmatamento em uma determinada área, bem como identificar possíveis trajetórias de ocupação [15-17].
Estudos anteriores na Amazônia utilizaram tipologias de padrões de desmatamento para caracterizar os diferentes estágios de ocupação da terra. Por exemplo, Silva et al. [14] identificaram padrões distintos, como linear, irregular isolado de pequena escala, irregular de pequena escala próximo a estradas, irregular de escala média próximo a estradas e geométrico de grande escala, cada um vinculado a atores específicos e características da posse da terra. Saito et al. [18] classificaram o desmatamento com base nos estágios de ocupação, distinguindo entre padrões consolidados, difusos, espinha de peixe, geométricos regulares, desordenados multidirecionais e lineares unidirecionais. De forma semelhante, Gavlak et al. [17] definiram padrões e trajetórias de desmatamento ao longo de uma rodovia específica, fornecendo informações sobre os estágios de ocupação e as mudanças associadas. Em outro estudo, Marinaro et al. [10] definiram os estágios e os atores do desmatamento em uma fronteira pecuária no Chaco Seco do norte da Argentina, contribuindo para a compreensão, organização e diferenciação de vários processos socioecológicos e percepções dos habitantes locais e urbanos.
Partindo dessas constatações, a região que engloba o município de Lábrea apresenta um cenário emergente influenciado pela fronteira pecuária, consolidando sua importância como uma área relevante para a compreensão da dinâmica de ocupação do solo. Para obter informações sobre a dinâmica recente do desmatamento no município de Lábrea, este estudo busca compreender os padrões e trajetórias de ocupação do solo na região. O foco na identificação dos padrões e trajetórias de desmatamento no município de Lábrea, de 2008 a 2021, contribuirá com conhecimento valioso para subsidiar políticas públicas voltadas à mitigação das taxas de desmatamento nessa região crítica. [19]
Notas
[1] INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). 2021. Desmatamento – Amazônia Legal. INPE, Coordenação Geral de Observação da Terra. Programa de Monitoramento da Amazônia e Demais Biomas.
[2] Alencar, A.; Silvestrini, R.; Gomes, J.; Savian, G. 2022. Amazônia em chamas – O novo e alarmante patamar do desmatamento na Amazônia. Nota técnica n° 9. Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Brasília, DF.
[3] InfoAmazonia. 2021. Sul do Amazonas é a nova fronteira do desmatamento na Amazônia. InfoAmazonia, 22 de dezembro de 2021.
[4] SUDAM (Superintendência do desenvolvimento da Amazônia). 2021. Zona de desenvolvimento sustentável dos Estados do Amazonas, Acre e Rondônia 2021-2027: documento referencial. SUDAM, Belém, PA. 174 p.
[5] CPT (Comissão Pastoral da Terra). 2021. Conflitos no Campo Brasil 2021: CEDOC Dom Tomás Balduino – CPT.
[6] IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). 2021. Invasão de terras públicas foi a principal causa do desmatamento na Amazônia. IPAM, 22 de novembro de 2021.
[7] IMAZON (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia). 2022. Desmatamento na Amazônia cresce 29% em 2021 e é o maior dos últimos 10 anos. IMAZON, 17 de janeiro de 2022.
[8] Agrawal, A.; Brown, D.G.; Sullivan, J.A. 2019. Are global land grabs ticking socio-environmental bombs or just inefficient investments? One Earth, 1, 159–162.
[9] Tavares, L.; Cordeiro, L. 2017. Perfil Socioeconômico e Ambiental do Sul do Estado do Amazonas: Subsídios para Análise da Paisagem. WWF–Brasil, Brasília, DF. 56 p.
[10] Marinaro, S.; Sacchi, L.; Gasparri, N.I. 2022. From whom and for what: Deforestation in Dry Chaco from local-urban inhabitants’ perceptions. Perspectives in Ecology and Conservation, 20, 141-150.
[11] McGarigal, K.; Marks, B.J. 1995. FRAGSTATS: Spatial pattern analysis program for quantifying landscape structure. (Pacific Northwest Research Station General Technical Report PNW-GTR-351) United States Department of Agriculture, Washington, DC, E.U.A. 132 p.
[12] Mertens B.; Lambin, E.F. 1997. Spatial modeling of deforestation in southern Cameroon. Spatial disaggregation of diverse deforestation processes. Applied Geography, 17(2), 143-162.
[13] Pereira, L.M.; Escada, M.I.; Rennó, C.D. 2007. Análise da evolução do desmatamento em áreas de pequenas, médias e grandes propriedades na região centro-norte de Rondônia, entre 1985 e 2000. Anais do XIII Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto, Florianópolis, Brasil, 21-26 abril 2007, INPE, São José dos Campos, SP, p. 6905-6912.
[14] Silva, M.P.S.; Câmara, G.; Escada, M.I.S.; Souza, R.C.M. 2008. Remote-sensing image mining: detecting agents of land-use change in tropical forest areas. International Journal of Remote Sensing, 29(16), 4803-4822.
[15] Diniz, A.M. 2002. Migração e evolução na fronteira agrícola. In: Anais do XIII Encontro da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, Ouro Preto, Minas Gerais, 2002. Associação Brasileira de Estudos Populacionais, Campinas, SP. 26 p.
[16] Oliveira Filho, F.J.B.; Metzger, J.P. 2006. Threshold in landscape structure for three common deforestation patterns in the Brazilian Amazon. Landscape Ecology, 21, 1061-1073.
[17] Gavlak, A.A. 2011. Padrões de Mudança de Cobertura da Terra e Dinâmica Populacional no Distrito Florestal Sustentável da
[18] Saito, E.A.; Fonseca, L.M.G.; Escada, M.I.S.; Körting, T.S. 2011. Análise de padrões de desmatamento e trajetória de padrões de ocupação humana na Amazônia usando técnicas de mineração de dados. In: Anais XV Simpósio Brasileiro de Sensoriamento
[19] Esta série traduz o trabalho Cabral, B.F., A.M. Yanai, P.M.L.A. Graça, M.I.S. Escada, C.M. de Almeida & P.M. Fearnside. 2024. Amazon deforestation: A dangerous future indicated by patterns and trajectories in a hotspot of forest destruction in Brazil. Journal of Environmental Management 354:art. 120354.
Sobre os autores
Beatriz Figueiredo Cabral possui graduação em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Lavras e mestrado em Ciências de Florestas Tropicais (CFT) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Atualmente é doutoranda em CFT no INPA, onde desenvolva uma tese sobre “Projeções para a Expansão da Fronteira Amazônica: Simulação do Desmatamento e da Degradação Florestal sob Futuros Cenários Climáticos”. Ela tem experiência em análise e manipulação de dados de sensoriamento remoto, sistemas de informação geográfica, programação nas linguagens R e Python e simulação do desmatamento no software Dinamica-EGO para análises espaço-temporais na Amazônia.
Aurora Miho Yanai é engenheira florestal pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e tem mestrado e doutorado pelo Inpa em ciências de florestas tropicais. Atualmente é pesquisadora no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), onde ela continua suas pesquisas iniciadas como pós-doutoranda no mesmo instituto trabalhando com modelagem de desmatamento na região Trans-Purus. Ela tem experiência na análise e modelagem de desmatamento no sul do Amazonas.
Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça é doutor pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ele tem mestrado em ciências florestais pela Universidade de São Paulo, (USP-Esalq) e graduação em Engenharia Florestal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Ele é pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), atuando junto ao laboratório de agroecossistemas. Ele tem publicado artigos sobre mapeamento de exploração madeireira utilizando técnicas de sensoriamento remoto, modelagem espacial do uso da terra, impacto do desmatamento, e eficiência de queima de biomassa florestal, entre outros.
Maria Isabel Sobral Escada possui doutorado e mestrado em sensoriamento remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e graduação em ecologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Ela é pesquisadora na Divisão de Observação da Terra e Geoinformática da Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), São José dos Campos, São Paulo. Ela atua nos seguintes temas: monitoramento de floresta por satélite, análise da paisagem e de padrões e processos mudança de uso da terra com técnicas de processamento de imagens, mineração de dados e análise espacial, técnicas aplicadas a estudos sobre degradação florestal, desmatamento, regeneração, atividades econômicas associadas ao uso e cobertura da terra e saúde.
Cláudia Maria de Almeida possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – USP, Mestrado em Infrastructure Planning pelo Centre for Infrastructure Planning, Universität Stuttgart, Alemanha, e Doutorado em Sensoriamento Remoto pela University College London, Inglaterra / Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Tem experiência na área de Sensoriamento Remoto aplicado ao Planejamento Urbano e Regional, com ênfase em Técnicas de Previsão e Avaliação Urbana e Regional, atuando principalmente nos seguintes temas: Modelagem Dinâmica Espacial, Modelos de Autômatos Celulares, Sensoriamento Remoto de Alta Resolução Espacial, Análise de Imagens Baseada em Objeto e Geoinformação.
Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador 1A de CNPq. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 850 publicações científicas e mais de 850 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.
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