Manaus – Você é um empresário com negócios na Amazônia. Sabe que a BR-319 ajudaria a escoar melhor sua produção de produtos extrativistas sustentáveis, ao mesmo tempo em que vê terras vizinhas serem ocupadas por grileiros e incêndios florestais criminosos quase alcançarem sua propriedade. O que fazer com essa estrada: apoiar a pavimentação, defender o transporte fluvial ou cobrar pelo asfaltamento apenas com um plano rigoroso de fiscalização e proteção das matas?
Eis um dilema da vida real e do Jogo da Amazônia, a nova experiência interativa e gamificada lançada pela Amazônia Real, que transforma mais de uma década de reportagens investigativas e complexas em cenários de decisão sobre os conflitos socioambientais da região.
Por trás da tela de um celular está um problema que tira o sono de qualquer redação hoje: como aproximar um público mais jovem, acostumado a decidir em segundos o que vale seu tempo, de um acervo de mais de 4 mil reportagens que pedem de 15 a 20 minutos de leitura cada? Foi esse o ponto de partida do jornalista Eduardo Nunomura, responsável pela coordenação de projetos de Inteligência Artificial (IA) na redação da Amazônia Real, para idealizar o Jogo da Amazônia.
O desenvolvimento do Jogo da Amazônia foi viabilizado por meio do apoio financeiro do programa JournalismAI Innovation Challenge, coordenado pela Polis, o think-tank de jornalismo da London School of Economics and Political Science (LSE), e do Google News Initiative. Iniciado em fevereiro, o projeto está em sua reta final.
Mas o caminho até chegar ao próprio jogo não foi direto. A equipe chegou a procurar desenvolvedores de mercado para ajudar a construir o produto. Uns cobravam entre 60% e 70% do orçamento do projeto, enquanto outros não tinham a menor noção do que é jornalismo. A virada veio quando Nunomura, formado também em Ciência da Computação pela Universidade de São Paulo, decidiu montar sozinho um protótipo para convencer os programadores de que a ideia era viável e não demandava um orçamento tão alto. Em três semanas, o que deveria ser uma maquete simples já era muito mais que isso.
“As inteligências artificiais abrem espaço para que possamos ir além do nosso potencial. Barreiras tecnológicas de entrada sempre foram impeditivas para veículos pequenos ou independentes, mas as IAs derrubaram a maioria delas”, diz o editor de Especiais da Amazônia Real. Com o MVP (Produto Mínimo Viável, em português) rodando, ele decidiu seguir em frente só com a equipe da agência.
Da tela ao dilema real
No Jogo da Amazônia, cada participante começa escolhendo entre dois níveis: Aprendiz, para questões mais simplificadas, ou Pro, com desafios mais complexos. Em seguida, ele tem de assumir um personagem antes de começar a jogar. Pode optar por ser um governante, um indígena, um ambientalista, um empresário ou um cidadão.
Cada rodada apresentará um cenário real, com três caminhos possíveis. Não há certo ou errado, mas consequências das escolhas feitas. Tudo isso resultará em um placar ético, que mede o impacto em três pilares: ambiental, social e econômico. No fim, o jogador recebe seu veredito, como defensor da floresta, explorador dos recursos naturais ou tomador de decisões da agenda socioambiental.
“Ele nos estimula a identificar qual é nossa postura na defesa da sustentabilidade e quais os desafios que a Amazônia vive, com impactos econômicos nas comunidades locais. Um ponto que destaco é que todas as informações que aparecem à medida que jogamos são retiradas de fontes da Amazônia Real. Ou seja, não são respostas aleatórias e superficiais. Espero que este jogo contribua para a conscientização e funcione também como aprendizado e incentivo ao engajamento em defesa da floresta e das populações amazônicas”, diz Elaíze Farias, cofundadora e editora de conteúdo da Amazônia Real.
O humano no controle da IA
A base de cada dilema vem do acervo de mais de 4 mil reportagens já publicadas pela agência, e não de respostas genéricas geradas pela IA sobre a Amazônia. Ao longo do desenvolvimento, Kátia Brasil e Elaíze Farias revisaram perguntas e respostas produzidas pelas ferramentas de IA, eliminando lugares-comuns como “floresta em pé”. Alberto César Araújo, editor de fotografia da agência, selecionou as imagens que ilustram esta primeira versão do jogo e ajudou a pensar a experiência do usuário ao lado de Nunomura.
Por recomendação dos apoiadores institucionais, o Jogo da Amazônia está disponível em edição trilíngue (português, inglês e espanhol).
Da sala de aula para o mundo
Em maio deste ano, os primeiros a testarem o Jogo da Amazônia foram 80 alunos do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, onde Nunomura é professor. Os testes foram feitos online, em celulares, tablets e computadores.
O resultado surpreendeu: 96% dos alunos afirmaram ter aprendido algo novo sobre o bioma amazônico, 83% elogiaram o design da ferramenta e 46% foram classificados como promotores (nota 9 ou 10 em uma escala NPS). E um dado surpreendente para publishers: o tempo médio de cada sessão passou de 5 minutos, com picos de até 10, mais que o triplo da permanência média registrada no site principal da Amazônia Real.
O próximo passo é levar o Jogo da Amazônia para o grande público e também às escolas, sobretudo as de ensino médio. Com foco na alfabetização ambiental, a experiência ajuda as instituições educacionais a ensinarem o complexo da urgência climática a partir de dilemas reais, que estão pressionando hoje a floresta.
Para levar o jogo à sala de aula de forma organizada, basta escrever para jogo@amazoniareal.com.br. A adoção é gratuita e sem burocracia: os professores reservam de 5 a 10 minutos de uma aula para os alunos jogarem e tomarem decisões sobre o bioma, observando as consequências em tempo real. O restante do tempo é dedicado a um debate, ancorado por um material de apoio pedagógico preparado exclusivamente para o professor, e já atendendo às normas da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Um jogo para qualquer redação
Esse projeto foi construído inteiramente em vibe coding (programação com auxílio de IAs) e consiste de duas fases. A primeira é a experiência gamificada do Jogo da Amazônia, já lançado. Mas o desenvolvimento prevê a construção de um plugin de WordPress em código aberto (open source). Isso permitirá que qualquer veículo de comunicação do mundo possa transformar seu próprio acervo de reportagens em um jogo interativo semelhante. Basta instalar o plugin e usar suas próprias ferramentas de IA de mercado (Google, OpenAI, Anthropic ou Deepseek) para criar suas versões de jogos.
“Quando idealizei esse projeto, não só via sua viabilidade, mas também imaginava outros veículos adotando essa solução para gerar mais engajamento para seus conteúdos. Em tempos de IA, quando as audiências das notícias entram em declínio, criar um produto que vai na contramão dessa corrente é um ato político”, afirma Eduardo Nunomura.
A escolha do empresário da BR-319 que abre esse texto poderia ser sua. Assim como a de um governante, uma indígena, uma ambientalista ou uma cidadã qualquer. Conheça essa experiência gamificada, compartilhe com os amigos e saiba que não há decisões fáceis sem efeitos sobre a maior floresta tropical do mundo. Há 13 anos, a Amazônia Real existe para visibilizar quem precisa. O Jogo da Amazônia é a mais nova ferramenta para isso.
Jogue agora → [https://amazoniareal.com.br/jda/]
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