Foto: Adriano Sarmento/Divulgação
Se o gambá – animal – é conhecido pelo cheiro, o de Maués, é reconhecido pelo som. Ritmado por tambores, a manifestação cultural chamada de ‘Gambá’ reúne cantigas, danças e histórias que atravessam gerações e mantêm viva a ancestralidade do povo maueense, no Amazonas.
📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp
Com raízes afro-indígenas e forte presença nas comunidades ribeirinhas, a manifestação reúne batuques, cantigas, danças circulares e elementos de religiosidade popular que atravessa gerações, ganhou um importante reconhecimento em maio de 2026, quando o Conselho de Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Amazonas (Copham) aprovou o registro do Gambá como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Amazonas.
Para a secretária municipal de Cultura de Maués, Ocilene Medeiros, o gambá representa a essência da identidade maueense e funciona como uma ligação entre o presente e as raízes históricas do município.
“Ele resume a verdadeira essência do ‘ser maueense’. O gambá não é apenas um ritmo musical, ele é um arquivo vivo da memória coletiva. Ele conecta o presente às raízes mais profundas da terra, honrando os povos originários que já habitavam a região e os antepassados que desbravaram os rios e florestas. É o som que diferencia Maués culturalmente no cenário amazônico, indo muito além do guaraná e se tornando a batida do coração da identidade do município”, afirma.
Tradição nasceu nos rios e comunidades
A manifestação reúne influências dos povos indígenas, da população negra e das comunidades ribeirinhas, que contribuíram para a construção de uma expressão musical própria do município. Segundo Ocilene, a tradição surgiu nas comunidades rurais, nos rios e nos terreiros, em momentos de celebração, lazer, festividades religiosas e pagamento de promessas.
“O ritmo surgiu da necessidade de expressão, resistência e alegria dos habitantes tradicionais da Amazônia profunda, ecoando nas margens dos rios Mucajá, Maués-Açu, Maués-Mirim e nas comunidades do Parauari.

Leia também: Conheça o Tambor de Gambá, símbolo da identidade musical de Maués
A transmissão dos conhecimentos ocorre, principalmente, pela oralidade e pela convivência entre as gerações. Crianças e jovens aprendem observando os mais velhos durante as apresentações, acompanhando os cantos e conhecendo os instrumentos utilizados na manifestação.
“Os mais novos aprendiam observando os mais velhos nos terreiros, nas festas tradicionais e nos quintais, ouvindo as loas, toadas e o som compassado do tambor, absorvendo a técnica e o respeito à tradição pelo exemplo e pela convivência diária”, explica a secretária.
De acordo com Ocilene, a juventude de Maués têm mostrado um interesse pulsante e criativo. “A transmissão hoje acontece tanto na raiz, nos terreiros e comunidades rurais com os mestres antigos, quanto na renovação artística promovida por jovens talentos”, explica.
Nomes como Tercio Macambira (que com o grupo Maroaga leva o gambá para Manaus) e Raphael Mendonça (com o Grupo Capo, fundindo o ritmo com sonoridades atuais e influências indígenas), mostram como a transmissão dos conhecimentos entre gerações é importante.

O tambor como símbolo do gambá
O principal instrumento da manifestação é o tambor de gambá, confeccionado artesanalmente a partir de troncos de árvores amazônicas, como a cupiúba. Tradicionalmente, o instrumento recebe revestimento de couro, que permite a produção da sonoridade característica do ritmo.
A composição musical pode incluir outros instrumentos de percussão, como o caracaxá, espécie de reco-reco, e o tamborinho, além das vozes que conduzem as cantigas. Além disso, os versos, conhecidos como loas, podem ser improvisados ou preservados na memória dos participantes.
A preservação desse conhecimento depende diretamente dos mestres e mestras que dedicaram a vida à manifestação. Entre os nomes lembrados por Ocilene Medeiros estão os Mestres Baianos do Pedreiro, como Manoel Cardoso, Raimundo Cardoso, Zé Raimundo, Bebé Baiano e Rabo Largo, além de Mestre Manoel Chico, Mestre Barro, Mestre Iracito e Mestre Ismael Pinheiro.
“Eles contribuem sendo as fontes vivas do saber: ensinam a tocar, fabricam os tambores com as técnicas ancestrais, compõem as letras que contam a história local e mantêm a chama acesa ao passarem o bastão para as novas gerações”, destaca.
A contribuição desses mestres também está relacionada à preservação de conhecimentos que nem sempre foram registrados em documentos escritos. Por meio da música, das danças e das histórias compartilhadas, eles mantêm vivas referências culturais que fazem parte da formação histórica de Maués.
Renovação Cultural
A renovação musical, no entanto, não significa abandonar as raízes. A proposta é manter os elementos tradicionais e, ao mesmo tempo, permitir que a expressão cultural dialogue com outras sonoridades.
A pesquisa Gambá Elétrico: revitalização e reinvenção de uma tradição na cidade de Maués/AM, desenvolvido a partir de experimentações do Mestre Barrô e do grupo Tambores da Floresta, também apontam estratégias de revitalização da tradição e de aproximação com as gerações mais jovens.
Iniciativas de formação cultural também contribuem para esse processo. O projeto Tamboreando Cultura na Terra do Guaraná, realizado pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), promoveu oficinas de construção de instrumentos e formação musical, beneficiando 135 crianças e jovens de Maués.
Leia também: Conheça 14 ritmos musicais que fazem sucesso na Amazônia
Reconhecimento e desafios para a preservação
Apesar do reconhecimento como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Amazonas, a preservação do gambá enfrenta desafios. Entre eles estão a falta de incentivo financeiro contínuo, a dificuldade de acesso às comunidades ribeirinhas, a necessidade de ampliar a transmissão dos conhecimentos nas escolas e a valorização insuficiente das manifestações culturais tradicionais.
Para Ocilene Medeiros, a manutenção dessa expressão cultural exige políticas públicas permanentes e ações que garantam condições para que os mestres continuem ensinando e os jovens tenham oportunidades de aprender.
“Entre os desafios estão a dificuldade de escoamento e visibilidade, já que muitas comunidades ribeirinhas de onde o gambá se origina ficam isoladas geograficamente; A valorização insuficiente da cultura popular tradicional frente à massificação de mídias e ritmos comerciais globalizados; A escassez de matéria-prima adequada para a confecção artesanal dos tambores tradicionais devido às leis ambientais rigorosas e ao desmatamento, exigindo um equilíbrio delicado entre sustentabilidade e tradição”, explicou.
O reconhecimento patrimonial, portanto, representa uma etapa importante, mas a continuidade da tradição depende de ações concretas de salvaguarda, documentação e valorização dos detentores desse conhecimento.
História sendo contada
Para a secretária municipal de Cultura, o gambá também carrega um significado afetivo, relacionado às lembranças familiares e à convivência nas comunidades.“Para quem vive e respira a cultura maueense, o gambá representa um elo de pertencimento e afeto familiar. Ele está presente nas lembranças de infância, no som que embalava os fins de tarde nas comunidades, nos encontros de quintal e na festa”, afirma.
Ao imaginar o que o tambor revelaria sobre o passado de Maués, Ocilene Medeiros destaca a presença dos povos originários, a resistência das populações negras e ribeirinhas e as histórias construídas às margens dos rios.
“Se o tambor de gambá pudesse falar, ele revelaria os segredos mais profundos que os livros oficiais muitas vezes esquecem de contar: contaria sobre os rituais ancestrais dos Sateré-Mawé e a relação sagrada com a terra e com o fruto do guaraná muito antes da chegada dos colonizadores. Narraria o suor e a resistência dos negros e ribeirinhos que abriram picadas na mata, navegaram os rios em canoas de pau a pique e trouxeram nos braços o ritmo que consolava as saudades e celebrava a união. Revelaria as noites de lua cheia nas margens do Maués-Açu e do Parauari, onde o som do tambor ecoava como um pacto de sobrevivência e alegria contra o esquecimento”, explicou a secretária.

Entre batuques, cantigas e danças, o Gambá de Maués segue como uma expressão viva da ancestralidade amazônica. Uma tradição que resiste ao tempo e que, a cada nova geração, reafirma a identidade de um povo que encontra no som do tambor uma forma de preservar suas raízes e contar a própria história.
“Não importa onde estejamos, nossas raízes estão fincadas na força do tambor e na generosidade do povo de Maués”, conclui Ocilene Medeiros.
O post Gambá de Maués: um dos maiores símbolos da ancestralidade na música amazonense apareceu primeiro em Portal Amazônia.

