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ARIE PDBFF 41 anos: projeto protege área de pesquisa que investiga os efeitos da fragmentação florestal na Amazônia

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ARIE PDBFF 41 anos: projeto protege área de pesquisa que investiga os efeitos da fragmentação florestal na Amazônia

ARIE PDBFF. Foto: Paulo Rodrigo e Willian Vasco/PDBFF

A Área de Relevante Interesse Ecológico Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (ARIE PDBFF) foi criada em 5 de novembro de 1985 e tem como uma das principais características a proteção de fragmentos florestais utilizados em pesquisas científicas sobre biodiversidade no Amazonas. Em meio às árvores, trilhas e fragmentos florestais, pesquisadores acompanham as transformações da vegetação, identificam espécies, monitoram o desaparecimento de organismos e investigam como a divisão da floresta interfere na biodiversidade.

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Localizada na região do Distrito Agropecuário da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), a unidade de conservação abriga o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), iniciativa que começou em 1979 e se tornou referência internacional nos estudos sobre os efeitos da fragmentação florestal.

O projeto surgiu com uma pergunta do ambientalista e biólogo norte-americano Thomas Lovejoy, e que ainda orienta parte importante das pesquisas: qual é o tamanho mínimo de uma área de floresta necessário para conservar a biodiversidade? 

Para responder a essa questão, o ambientalista desenvolveu o experimento que acompanhou a transformação de áreas contínuas de floresta em fragmentos de diferentes dimensões. A proposta era observar o que aconteceria com árvores, aves, insetos, mamíferos e outros organismos depois que grandes extensões de vegetação fossem divididas e cercadas por áreas desmatadas.

O diferencial do estudo estava em uma condição rara em pesquisas desse tipo: os cientistas tiveram a oportunidade de conhecer e registrar a floresta antes da fragmentação. Assim, foi possível comparar a biodiversidade existente originalmente com as mudanças provocadas pela retirada da vegetação.

A gestão da área é realizada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e a Associação de Levantamento Florestal do Amazonas (ALFA), que atuam de forma integrada na proteção da unidade, no desenvolvimento das pesquisas e na manutenção das atividades científicas.

Bióloga Ana Segalin, coordenadora do PDBFF. Foto: Paulo Rodrigo e Willian Vasco/PDBFF

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A bióloga Ana Segalin, que chegou em Manaus em 1998 para realizar mestrado em Ecologia, acompanha o projeto desde então. Atualmente, trabalha na coordenação das atividades de campo, na identificação de plantas, na organização de coleções de referência e no gerenciamento de dados científicos.

Segundo ela, a existência de registros anteriores à fragmentação representa um dos maiores patrimônios científicos do PDBFF.

“Existem vários outros estudos de fragmentação florestal no país e em outros locais do mundo, mas muitos deles não têm o ponto zero. Quando começou a estudar, por exemplo, a Mata Atlântica, ela já estava toda fragmentada. E aqui a gente teve a oportunidade de fazer um estudo em que sabe como estava antes de fazer a fragmentação. Então, a gente sabe exatamente o efeito que foi feito durante a fragmentação”, explicou ao Portal Amazônia.

Como surgiu o projeto que se tornou referência mundial?

Para compreender a origem da ARIE PDBFF, é necessário voltar à década de 1970. Naquele período, a Amazônia vivia um contexto de expansão da ocupação territorial, com incentivos à migração, à instalação de empresas e ao desenvolvimento de atividades agropecuárias.

A secretária executiva da Associação de Levantamento Florestal do Amazonas (ALFA), Paula Taquita, explica que a proposta inicial do projeto estava diretamente relacionada a essas discussões.

“Naquela época, a discussão ambiental que estava acontecendo era sobre a criação de unidades de conservação. Mas a grande pergunta era: que tamanho? Era para ser pequena, média ou grande? Adianta preservar uma coisa muito pequenininha? Precisa ter um tamanho médio? Precisam ser grandes áreas, muitas extensões de terra? E ninguém sabia direito essa resposta, porque é muito difícil, em um experimento, ter o que a gente chama de ponto zero. Como era antes e como ficou depois”, relata.

A iniciativa foi idealizada pelo pesquisador Thomas Lovejoy, em parceria com a organização ambiental WWF. A proposta era aproveitar o processo de ocupação da região para desenvolver um experimento científico que permitisse acompanhar, de forma sistemática, os efeitos da fragmentação.

Biólogas Paula Taquita e Ana Segalin demonstrando a ARIE PDBFF. Foto: Paulo Rodrigo e Willian Vasco/PDBFF

O planejamento envolveu negociações com proprietários de terras, pesquisadores e instituições. A ideia era permitir que parte da área fosse transformada em pastagem, mas manter determinados trechos de floresta preservados, formando fragmentos de diferentes tamanhos.

Antes da retirada da vegetação, os pesquisadores realizaram levantamentos para registrar os organismos presentes na região.

“Eles falaram para os fazendeiros: vocês podem desmatar tudo, mas vamos deixar a gente fazer esse experimento, manter esses quadrados e ver o que acontece. A gente vai ver tudo que tem, cada árvore, cada animal, cada peixe, cada inseto, cada borboleta, cada morcego. Nós temos trabalhos de todos os tipos de biodiversidade que vocês podem imaginar que já aconteceram nesse projeto”, conta Paula.

A intenção de Thomas Lovejoy era testar se a teoria da biogeografia de ilhas, desenvolvida a partir de estudos realizados em ilhas oceânicas e no Caribe, poderia ser aplicada aos fragmentos de floresta em terra firme.

“Ele quis aplicar isso em terra firme. E viu, naquele momento, a oportunidade de conseguir fazer isso em uma área onde seria possível fazer um pré-levantamento antes de isolar o que seriam hoje os fragmentos. E entender também como isso se comportava em terra firme, tendo conexão de alguma forma. Em ilhas reais, cercadas de água, o processo de migração e saída de organismos é muito mais limitado. E aqui não”, explica Segalin.

Fragmentos de 1, 10 e 100 hectares

A estrutura inicial do experimento foi planejada para comparar áreas de diferentes dimensões. Foram estabelecidos fragmentos de 1, 10 e 100 hectares, permitindo observar como o tamanho da floresta influencia a conservação dos organismos.

A escolha dessas dimensões ajudou os pesquisadores a investigar se fragmentos pequenos conseguiriam manter as mesmas condições ecológicas de áreas maiores.

Com o desenvolvimento das pesquisas, uma das principais conclusões foi que, de maneira geral, quanto maior a área preservada, melhores são as condições para a manutenção da biodiversidade. No entanto, os resultados também demonstraram que o tamanho não é o único fator determinante.

Um dos fenômenos identificados foi o chamado ‘efeito de borda’, que corresponde às alterações ambientais que acontecem nas extremidades de um fragmento florestal em contato com áreas abertas ou modificadas.

De acordo com Ana Segalin, as pesquisas identificaram que, para as árvores, os ‘efeitos da borda’ podem avançar até aproximadamente 300 metros para dentro da floresta.

“Um fragmento de 1 hectare, de 100 por 100 metros, é inteiro uma borda. O que se viu foi que o efeito de borda entra, pelo menos para árvores, até 300 metros. Então, isso é muito importante para as árvores, que são quem mantém a estrutura daquela área, da floresta”, exemplifica.

Bióloga Paula Taquita demonstrando a divisão de hectares da ARIE PDBFF. Foto: Rebeca Almeida/Portal Amazônia

Essa área é chamada de matriz e pode apresentar diferentes características, dependendo do histórico de uso e das alterações sofridas. Inicialmente, muitos fragmentos eram cercados por pastagens, mas com o abandono de algumas fazendas, a vegetação secundária começou a crescer novamente, criando novas condições para a circulação de animais e para a regeneração da floresta.

Os estudos passaram a investigar como essa vegetação influencia a conexão entre os fragmentos e se diferentes espécies conseguem atravessar essas áreas.

“Tem bichos que atravessam de um local para outro, tem bichos que não atravessam. Então, o efeito da permeabilidade dessa área, para que os animais tenham essa conectividade com outras áreas, também começou a ser estudado. Para ter fluxo gênico, fluxo de animais, para que elas consigam fazer migração de um local para outro”, acrescenta Ana.

A conectividade é importante porque permite que populações de animais e plantas mantenham relações entre diferentes áreas de floresta. Quando os fragmentos ficam isolados, o deslocamento dos organismos pode ser dificultado, comprometendo processos ecológicos e a diversidade genética.

O desafio de manter os fragmentos e continuar as pesquisas

Apesar da importância científica, a continuidade do experimento depende de condições ambientais, institucionais e financeiras que nem sempre são fáceis de garantir. Um dos procedimentos realizados ao longo da história do PDBFF foi o isolamento dos fragmentos, por meio da retirada da vegetação ao redor das áreas selecionadas. 

Entretanto, esse processo exige intervenções extensas e custos elevados. Segundo Ana Segalin, o último reisolamento foi realizado em 2014, já que a operação envolve a retirada de vegetação em uma área muito maior do que o próprio fragmento que será isolado.

A bióloga explica que para isolar um fragmento de 1 hectare, por exemplo, é necessário retirar vegetação de aproximadamente 8 hectares ao redor, considerando a abertura das áreas necessárias para formar os limites do experimento.

ARIE PDBFF
ARIE PDBFF acampamento KM 41. Foto: Rebeca Almeida/Portal Amazônia

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O custo e o impacto dessa intervenção dificultam a repetição do procedimento. Atualmente, os fragmentos não estão isolados nas mesmas condições do experimento original, e parte das áreas ao redor apresenta vegetação secundária.

Mesmo assim, as diferenças na estrutura da floresta permitem que os pesquisadores reconheçam os locais que foram desmatados e aqueles que permaneceram preservados. 

“A gente consegue reconhecer que tem uma área que foi derrubada e outra não pela estrutura da floresta. Onde não é derrubado dentro de fragmentos, as árvores são maiores, mais grossas. Para quem conhece planta, a diversidade é maior”, comenta. 

Paula Taquita destaca que o avanço da ocupação urbana em direção à região representa uma preocupação para o futuro da área. A possibilidade de retomada das atividades agropecuárias e o crescimento da cidade reforçam a necessidade de articulação entre pesquisadores, órgãos ambientais, proprietários e instituições responsáveis pela proteção da área.

Além disso, o PDBFF recebe doações para manter a pesquisa científica ativa na Amazônia. As contribuições podem ser feitas pelo site oficial pdbff.org, onde também é possível conhecer a história e como funciona o projeto desde a sua criação. 

ARIE PDBFF: proteção ambiental e gestão compartilhada

A engenheira florestal Enir Salazar explica que todos os estudos solicitados para a ARIE PDBFF precisam passar pela avaliação do ICMBio. O procedimento permite acompanhar as atividades científicas e verificar se estão de acordo com as regras de proteção da unidade.

O trabalho também inclui o acompanhamento de imagens de satélite para identificar possíveis focos de queimadas, incêndios e desmatamento, além de fiscalizações presenciais.

“A gente trabalha com a integridade física da unidade. Fazemos a parte de educação ambiental, monitoramento e fiscalização. A gente acompanha as imagens de satélite, verifica se existe algum incêndio próximo ou desmatamento e também recebe informações das pessoas que trabalham aqui quando identificam alguma situação irregular”, esclarece Enir.

Árvore demarcada para estudo na ARIE PDBFF. Foto: Rebeca Almeida/Portal Amazônia

Como destacado anteriormente, na ARIE PDBFF, o trabalho é desenvolvido por meio de uma parceria entre ICMBio, INPA e ALFA. Enquanto o ICMBio responde pela gestão da unidade de conservação e pela fiscalização, o INPA participa das pesquisas científicas e das atividades de monitoramento, enquanto a ALFA oferece suporte administrativo, logístico e financeiro para a manutenção das atividades.

Paula Taquita explica que a criação da associação ocorreu justamente pela necessidade de uma estrutura jurídica que permitisse captar recursos e viabilizar o funcionamento do projeto. A associação auxilia na manutenção dos acampamentos, no pagamento de funcionários, na captação de recursos e na organização das atividades necessárias para manter o funcionamento do PDBFF.

A atuação conjunta das três instituições permite que a área continue recebendo pesquisadores e desenvolvendo estudos de longo prazo. “São três braços cuidando de uma mesma área”, resume Paula.

Um patrimônio científico ainda pouco conhecido pelos brasileiros

Para a engenheira florestal, aproximar a população da ciência também significa ampliar o conhecimento sobre a floresta e a importância de conservar os ecossistemas amazônicos.

Uma das possibilidades é utilizar as descobertas do projeto em atividades de educação ambiental, apresentando espécies e processos ecológicos que fazem parte do cotidiano da região, mas que nem sempre são conhecidos pela população.

A pesquisadora acredita que apresentar essas informações às crianças e aos jovens pode contribuir para aproximar a população da biodiversidade amazônica.

“Muita gente não conhece uma árvore de seringueira, nunca viu uma semente de seringueira, não sabe. A gente precisa levar um pouco da natureza para as crianças, porque tem que ter orgulho da nossa floresta, do nosso quintal. A gente vive no meio de uma floresta maravilhosa e, às vezes, não tem conhecimento disso”, destaca.

Enir Salazar. Foto: Paulo Rodrigo e Willian Vasco/PDBFF

Para Enir, o PDBFF representa um patrimônio que precisa ser valorizado não apenas pela comunidade científica, mas também pela sociedade amazonense.

“Isso aqui é um tesouro. Deve ser explorado, deve ser divulgado, sim. Nas escolas, nas universidades, a gente tem que ter essa consciência do valor que nós temos aqui. Isso aqui vale muito. Mais do que dinheiro. Isso aqui é cultura”, conclui.

O experimento que começou com a tentativa de descobrir qual seria o tamanho mínimo de uma área florestal para conservar a biodiversidade se transformou em uma extensa rede de pesquisas sobre árvores, animais, regeneração natural, conectividade e mudanças ambientais. Em uma região onde a biodiversidade ainda guarda espécies desconhecidas pela ciência, manter pesquisas de longo prazo significa preservar não apenas árvores e animais, mas também informações fundamentais para orientar estratégias de conservação da Amazônia.

*Esta é a Parte 1 do especial ‘ARIE PDBFF 41 anos’. A repórter Rebeca Almeida foi convidada pelo projeto para participar da expedição comemorativa.

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