Vitor recebeu cuidados durantes os últimos 13 anos. Foto: Divulgação/Instituto Bicho D’água
Depois de mais de uma década de cuidados, reabilitação e preparação para a vida selvagem, o peixe-boi Victor Maracá está mais próximo de voltar à natureza. Resgatado ainda filhote em 2013, ele deixou de conhecer os rios amazônicos para crescer em uma piscina do Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ibama, em Macapá (AP). Agora, inicia uma nova etapa rumo à possível soltura.
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Ao lado da fêmea Perpétua, Victor seguirá para o Recinto Omar de Aclimatação, em Soure, no arquipélago do Marajó, no Pará. Lá, eles se juntarão à peixe-boi Adria, formando um grupo que passará por um processo de readaptação ao ambiente natural antes de uma eventual reintegração à vida livre.
A transferência integra o Programa Estadual de Conservação de Peixes-boi no Pará e mobiliza 54 profissionais de instituições ambientais dos Estados do Amapá e Pará.
Victor Maracá e Perpétua: o caminho de volta para a natureza
Esta será a segunda tentativa de soltura de Victor Maracá. Em 2019, ele chegou a ser transferido para um recinto de aclimatação na Terra Indígena Uaçá, no Amapá. No entanto, a pandemia de Covid-19 interrompeu o trabalho e o animal retornou a Macapá no ano seguinte.
Hoje, Victor mede 2,51 metros e pesa 319 quilos. Considerado um híbrido de segunda geração entre o peixe-boi-marinho e o peixe-boi-da-Amazônia, passou praticamente toda a vida sob cuidados humanos. Na piscina de 44 mil litros onde vive atualmente, é conhecido pelo comportamento curioso e pela proximidade com a equipe que o acompanha há anos.

Já Perpétua chegou à Fundação Bioparque da Amazônia em 2020, após ser resgatada com cerca de três meses de vida. Com 2,06 metros de comprimento e 124 quilos, a fêmea apresenta um comportamento mais arisco e costuma reagir à aproximação de pessoas.
Entre os alimentos oferecidos, demonstra preferência por alface-d’água e passa boa parte do tempo nadando em círculos, comportamento observado pelas equipes responsáveis pelo manejo.
A bióloga Renata Emin, presidente do Instituto Bicho D’Água, explica que, antes de voltar à natureza, o peixe-boi passa por várias etapas de preparação. Segundo ela, esse processo é necessário para garantir uma soltura segura e aumentar as chances de sobrevivência do animal na natureza.
Renata destaca que o Amapá ainda não possui uma área adequada para a fase de aclimatação dos animais. Por isso, os peixes-bois precisam ser levados para o arquipélago do Marajó, no Pará, onde passam pela etapa final de adaptação antes da soltura.
“Antes de retornar à natureza, o peixe-boi passa por uma etapa fundamental nos protocolos de reabilitação e soltura: a aclimatação antes da soltura. Como o próprio nome sugere, a aclimatação é o processo de adaptação do animal ao ambiente onde ele será solto. Essa fase precisa acontecer o mais próximo possível do local para onde ele vai retornar na natureza. Dessa forma, o peixe-boi se acostuma às condições do ambiente, como o regime das marés e a disponibilidade de alimento”, explicou.
No Pará, os dois encontrarão Adria, uma fêmea de peixe-boi-da-Amazônia que também foi resgatada no Amapá. Após anos de reabilitação no Zoounama, em Santarém (PA), ela foi transferida para o Recinto Omar no fim de 2025 e se tornou a primeira ocupante do espaço.
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Uma operação que envolve dezenas de profissionais
Dois dias antes da viagem, Perpétua será transferida para o Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), onde se juntará a Victor Maracá para o início da operação.
Na manhã da transferência, as piscinas serão esvaziadas e cada animal será colocado em uma maca. Cerca de 20 profissionais atuarão diretamente na retirada e no transporte dos peixes-boi até o porto da Marinha, em Santana.
O trajeto terrestre será feito em vans climatizadas. Os animais viajarão deitados sobre colchões mantidos úmidos e acompanhados por técnicos durante todo o percurso.
No porto, Victor e Perpétua serão embarcados em piscinas de fibra instaladas em uma embarcação preparada para a travessia até Soure. A viagem deve durar entre 30 e 40 horas.
Ao longo do trajeto, uma equipe de 18 profissionais se revezará no monitoramento da respiração, do comportamento e das condições de saúde dos animais durante o dia e a noite.
A chegada ao Recinto Omar está prevista para a manhã de 9 de novembro.
Antes da liberdade
Após a chegada, Victor Maracá e Perpétua permanecerão em monitoramento intensivo por 72 horas. Em seguida, continuarão sob os cuidados do Instituto Bicho D’água durante toda a fase de aclimatação.
A soltura definitiva ainda não tem data prevista. Ela só ocorrerá quando os animais atenderem a critérios técnicos, sanitários e comportamentais definidos pelas equipes responsáveis pelo programa.
A translocação dos animais faz parte das condicionantes do licenciamento ambiental federal conduzido pelo Ibama para as atividades da Petrobras na Bacia da Foz do Amazonas.
*Por Mariana Ferreira, da Rede Amazônica Amapá.
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