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Três cemitérios indígenas na Amazônia: o que eles têm de diferente?

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Três cemitérios indígenas na Amazônia: o que eles têm de diferente?

Foto: Divulgação/Prefeitura de Manaus

A relação dos povos indígenas com a morte e os rituais de despedida também faz parte da história da Amazônia. Em diferentes períodos, comunidades desenvolveram formas próprias de sepultar seus mortos, que envolvem desde cerimônias tradicionais até a utilização de urnas funerárias de cerâmica, produzidas com técnicas e desenhos específicos.

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Na região amazônica, alguns desses espaços ajudam a compreender como os povos originários lidam com a morte e preservavam suas tradições. Há desde um cemitério indígena construído em contexto urbano, até sítios arqueológicos que guardam vestígios de sepultamentos realizados há centenas de anos.

O Portal Amazônia procurou por exemplos na região e, apesar de terem finalidades e histórias diferentes, os três espaços encontrados têm algo em comum: ajudam a manter viva a memória dos povos indígenas da Amazônia. Confira:

1. Yane Ambiratá Rendáwa Bara Upé

Localizado no bairro Tarumã, na Zona Oeste de Manaus (AM), dentro da área do Cemitério Nossa Senhora Aparecida, o cemitério indígena Yane Ambiratá Rendáwa Bara Upé, que significa ‘Casa de Retorno’, foi inaugurado em 19 de abril de 2022, em homenagem ao Dia dos Povos Indígenas.

Segundo a Prefeitura de Manaus, o espaço é considerado o primeiro cemitério indígena urbano do Brasil e foi criado para atender a população indígena que vive em Manaus e nos arredores, oferecendo um local destinado ao sepultamento e à realização de cerimônias de despedida que respeitem os costumes dos diferentes povos.

Primeiro cemitério indígena de M
Foto: Dhyeizo Lemos e Antônio Pereira/Semcom Manaus

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Uma das principais diferenças em relação aos cemitérios tradicionais está na estrutura, já que em vez de sepultamentos em covas no solo, o espaço foi construído verticalmente, com cinco módulos que possuem 216 gavetas cada. Ao todo, são 1.080 espaços destinados aos sepultamentos.

Mas a estrutura funerária não é a única característica que diferencia o local, já que o complexo também possui uma oca ritualística, utilizada para velórios, danças e outras cerimônias de acordo com as tradições de cada etnia. Além disso, o projeto conta com grafismos indígenas e elementos culturais desenvolvidos com a participação de representantes dos povos originários.

De acordo com a Prefeitura de Manaus, a criação do cemitério também representa uma conquista para os indígenas que vivem em contexto urbano. Isso porque o espaço permite que as famílias realizem as despedidas de seus parentes respeitando suas referências culturais, sem precisar deixar de lado suas tradições por estarem longe de seus territórios de origem.

2. Sítio Jauari

No município de Itacoatiara, no interior do Amazonas, o Seringal do Jauari guarda vestígios de um antigo cemitério indígena pré-colonial. Diferentemente do espaço de Manaus, que foi construído para receber sepultamentos, o Jauari é um sítio arqueológico que preserva evidências de práticas funerárias realizadas por povos que habitaram a região antes da chegada dos europeus.

Segundo informações da pesquisa arqueológica realizada na região, foram identificados quatro pontos com urnas funerárias e mais de 200 fragmentos de materiais arqueológicos. Entre os vestígios encontrados estão peças de cerâmica trabalhada, que ajudam os pesquisadores a investigar os modos de vida e as práticas culturais das populações indígenas que ocuparam o território.

Local onde achados arqueológicos foram encontrados durante escavação em Itacoatiara. Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica

O trabalho de pesquisa foi motivado por uma intervenção no terreno, após o proprietário de uma área dentro do sítio iniciar a construção de um muro. O responsável foi notificado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e orientado a realizar um estudo arqueológico antes de novas intervenções.

Durante as investigações, os pesquisadores identificaram que o local não era apenas uma área com fragmentos cerâmicos espalhados pelo solo, mas também apresentava características de um espaço utilizado para sepultamentos. Um dos aspectos mais importantes da descoberta é a decisão de preservar as urnas funerárias no próprio local, já que embora tenham sido identificados quatro pontos com esses vestígios, as urnas permanecerão enterradas e intactas no terreno, respeitando o contexto arqueológico e funerário em que foram encontradas.

3. Cemitério Arqueológico de Tauary

Na comunidade de Tauary, localizada na região do Médio Solimões, nas proximidades do município de Tefé (AM), pesquisadores encontraram conjuntos de urnas funerárias importantes para os estudos arqueológicos da Amazônia. Segundo o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, as pesquisas realizadas na comunidade identificaram nove urnas funerárias com aproximadamente 500 anos, em uma área de cerca de quatro metros quadrados, nas proximidades da escola comunitária.

Os recipientes estavam enterrados no solo e continham vestígios ósseos de adultos e crianças. Conforme os estudos arqueológicos, as peças foram associadas à chamada Tradição Polícroma da Amazônia, um conjunto de conhecimentos tecnológicos e artísticos relacionado à produção de cerâmicas por antigas populações indígenas.

Arqueólogos analisam urnas encontradas em comunidade do Amazonas. Foto: Divulgação/Instituto Mamirauá

Essa tradição é reconhecida pela variedade de formas, pinturas e elementos decorativos presentes nas peças. As urnas encontradas em Tauary apresentam pinturas geométricas, representações de rostos humanos e elementos que remetem a animais.

Um dos detalhes que mais chamaram a atenção dos arqueólogos foi a maneira como as urnas estavam organizadas no solo. Segundo os pesquisadores do Instituto Mamirauá, os recipientes apresentavam diferentes orientações, com os rostos modelados voltados para posições distintas, e nenhuma das urnas estava posicionada diretamente de frente para outra.

A disposição chamou a atenção dos pesquisadores justamente por indicar que os objetos não foram simplesmente colocados juntos de maneira aleatória, e a organização sugere uma escolha intencional, relacionada às práticas funerárias daquele grupo indígena. De acordo com o Instituto Mamirauá, após as escavações, as urnas passaram por estudos na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém, e em maio de 2025, sete delas retornaram a Tefé, após seis anos de análises realizadas pela universidade.

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