O canto da murucututu inspira cantigas de ninar típicas da região amazônica em que a ave é chamada de “mãe do sono”. Foto: Guto Magalhães
É quando os últimos raios do pôr-do-sol se escondem e o saçaricar da mata aumenta que a grande e misteriosa coruja murucututu pode ser vista voando por entre os galhos mais altos da floresta. Com suas penas escuras, peito amarelado, olhos vibrantes e uma marca branca ao redor dos olhos, que lembra um par de óculos, ela ecoa pela noite o seu canto grave e profundo: “muru-cu-tu-tu”.
Nas culturas indígenas da região amazônica, a coruja murucututu também é conhecida como “mãe do sono” ou “guardiã da noite”. Até hoje, mães e pais embalam o sono de seus filhos, enquanto entoam canções de ninar inspiradas na vocalização envolvente do bicho – como um dia eles mesmo escutaram, quando eram crianças.
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Um dos acalantos mais conhecidos diz: “Murucututu / Da beira do telhado / Leva este menino / Que não quer ficar calado“.
Luís da Câmara Cascudo, um pesquisador e escritor brasileiro que se dedicou a estudar o folclore do país, registrou que o bicho costumava ser chamado para dar o seu sono às crianças que custavam a dormir.
“O murucututu era uma entidade que acolhia essas mães que também estavam em privação de sono”, completa o educador do Museu Biológico do Instituto Butantan Matheus de Moraes.
Mas, a coruja também tem um lado mais sombrio e temido. João Barbosa Rodrigues, um botânico brasileiro que foi especialista no registro de mitos, lendas e manifestações culturais dos povos indígenas da Amazônia apontou que, para alguns povos originários, a ave era agourenta, ou seja, uma figura que trazia azar ou anunciava coisas assustadoras.
Murucututu na natureza
Conhecida cientificamente como Pulsatrix perspicillata, a espécie pode ser encontrada em florestas da América Central até a América do Sul. No Brasil, é uma coruja muito comum na região da Amazônia, além de ocorrer na Mata Atlântica.
Medindo cerca de 50 centímetros e pesando em torno de um quilo murucututu é a segunda maior coruja do Brasil, segundo o biólogo do Instituto Butantan Matheus de Moraes – a maior é a jacurutu, que mede em torno de 65 centímetros.
De hábitos noturnos, ela costuma sair logo no início da noite, principalmente nos períodos de lua cheia. Já nas noites mais geladas ou de frio, ela prefere se proteger e economizar energia. Pousada imóvel nos galhos ou em buracos nos troncos da árvore, a impressão é que o bicho está em sono profundo.

Leia também: Murucututu: “coruja de óculos” é considerada a maior espécie do gênero na Amazônia
Caçadora e cantora
O cardápio do murucututu aceita quase tudo: desde répteis, como serpentes e lagartos, e pequenos mamíferos como gambás, até outras aves menores e grandes insetos.
Além de ter um grande porte, a espécie reúne uma série de características que a tornam uma “supercaçadora”, a começar pela audição: como ela possui um ouvido mais alto que o outro, consegue captar, de maneira precisa, sons de diferentes direções. Já sua cabeça funciona como uma verdadeira antena parabólica, graças às penas de seu rosto, que captam as vibrações sonoras do ambiente e as direcionam para os ouvidos. O resultado dessa combinação é que o murucututu consegue calcular a distância e a altura exatas de uma presa, mesmo no escuro absoluto.
Para monitorar o entorno, seu pescoço vira-se quase que completamente, pois seus olhos fixos não se movimentam para os lados, olhos estes que são grandes, amarelos e tubulares para captar o máximo de luz durante as noites. Por fim, as bordas de suas penas possuem dentes serrilhados que quebram a turbulência do ar, garantindo um voo silencioso, sem que a presa perceba sua aproximação.
A espécie pode viver em torno de 20 anos de idade e não constrói ninhos. Geralmente coloca um único ovo em cavidades de árvores ou fendas de rochas.
Tanto o macho quanto a fêmea realizam o famoso canto do murucututu, sendo que a fêmea emite uma vocalização com tom mais agudo. O casal também costuma “soltar a voz” em dueto para reforçar os laços e demarcar o território contra invasores.
Como bem disse o estudioso Câmara Cascudo sobre a magia desse animal fascinante: “Murucututu. Cinco sílabas seguidas, todas terminadas em ‘u’, e isto me parece uma coisa maravilhosa!”.

Diversidade
Ao todo existem quatro espécies de corujas popularmente chamadas de “murucututus”. Todas elas ocorrem na América do Sul, mas três estão presentes no Brasil. Além da Pulsatrix perspicillata, temos:
– Pulsatrix koeniswaldiana (murucututu-de-barriga-amarela), que é típica da Mata Atlântica e está presente desde o Nordeste ao Sul do território brasileiro e em partes da Argentina, destacando-se por seu peito amarelado e olhos inteiramente pretos. Pode ser encontrada, de maneira inesperada, em grandes áreas verdes urbanas, como no parque do Instituto Butantan.
– Pulsatrix pulsatrix (murucututu-grande), também da Mata Atlântica, é endêmica do Brasil – isso significa que não existe naturalmente em nenhum outro lugar do mundo – e há pouco tempo foi reconhecida como uma nova espécie, após estudos mostrarem diferenças marcantes em relação à P. perspicillata.
Coruja Murucututu
- Espécie: Pulsatrix perspicillata
- Onde habita: ocorre em florestas da América Central até a América do Sul. No Brasil, é uma espécie comum na Amazônia e, também, presente na Mata Atlântica.
- Características físicas: é a segunda maior coruja do Brasil, medindo cerca de 50 centímetros e pesando aproximadamente um quilo. Possui penas escuras no corpo, peito amarelado, e olhos grandes, amarelos e tubulares, cercados por uma marcação branca que lembra um par de óculos.
- Alimentação: répteis (serpentes e lagartos), pequenos mamíferos (como gambás e ratos), aves menores e grandes insetos.
- Curiosidades: na cultura indígena amazônica é vista como a “mãe do sono”, sendo invocada em cantigas de ninar, ou uma ave agoureira ligada ao medo da escuridão.
Referências
- Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1954.
- Holt, D. W., R. Berkley, C. Deppe, P. L. Enríquez, J. L. Petersen, J. L. Rangel Salazar, K. P. Segars, K. L. Wood, G. M. Kirwan, and J. S. Marks (2020). Spectacled Owl (Pulsatrix perspicillata), version 1.0. In Birds of the World (J. del Hoyo, A. Elliott, J. Sargatal, D. A. Christie, and E. de Juana, Editors). Cornell Lab of Ornithology, Ithaca, NY, USA. https://doi.org/10.2173/bow.speowl1.01
- Holt, D. W., R. Berkley, C. Deppe, P. L. Enríquez, J. L. Petersen, J. L. Rangel Salazar, K. P. Segars, K. L. Wood, E. de Juana, and J. S. Marks (2020). Tawny-browed Owl (Pulsatrix koeniswaldiana), version 1.0. In Birds of the World (J. del Hoyo, A. Elliott, J. Sargatal, D. A. Christie, and E. de Juana, Editors). Cornell Lab of Ornithology, Ithaca, NY, USA. https://doi.org/10.2173/bow.tabowl1.01
- Rodrigues, João Barbosa. 1890. Poranduba amazonense, ou kochiyma-uara porandub. Rio de Janeiro: 1872-1887
Essa matéria contou com a colaboração do biólogo, educador e técnico de manejo animal do Museu Biológico do Instituto Butantan Matheus de Moraes dos Santos.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Butantan, escrito por Natasha Pinelli
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