Foto: Kirpal Rodriguez/Acervo pessoal
Teatro, futebol, concurso de imitação de sons de ariranhas e almoço comunitário reuniram moradores de Palmari e de comunidades vizinhas, no Amazonas, no Festival das Ariranhas. Organizado pelo biólogo colombiano Kirpal Rodriguez, o evento antecedeu e ajudou a construir uma proposta de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP. O projeto prevê a participação de pescadores no monitoramento dos animais por meio de gravações de suas vocalizações.
📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp
Realizado em celebração ao Dia Mundial da Lontra (celebrado anualmente na última quarta-feira do mês de maio), em 2026, o festival teve como inspiração o Festival del Choibó, iniciativa colombiana voltada à conservação do macaco-aranha-marrom. Em Palmari, na bacia do rio Javari, a programação foi organizada com a comunidade para abordar a relação entre os moradores e as ariranhas.
Essa convivência inclui conflitos relacionados à pesca. Durante atividades de campo na região, Rodriguez identificou relatos de pescadores sobre o consumo de peixes capturados e os danos às redes provocados pelos animais.
Programação construída com a comunidade
Professores participaram da divulgação do festival e moradores colaboraram com reuniões, contribuições voluntárias e a organização das atividades. Comunidades vizinhas também foram convidadas para a programação, que incluiu a Copa das Ariranhas, apresentações culturais e refeições coletivas.
No teatro, histórias contadas pelos pais serviram de referência para abordar sentimentos como medo, raiva e curiosidade em relação aos animais. A apresentação incluiu o Curupira como mediador. Já o concurso de vocalizações convidou os participantes a imitar os sons das ariranhas e contou com a participação de indígenas Matis.
Leia também: Pesquisa com ariranhas busca compreender estado de conservação da espécie no Amazonas

A programação também reuniu troca de plantas, plantio com crianças e uma atividade de troca de garrafas plásticas por brinquedos e roupas doados. Segundo a apresentação do festival, foram recolhidas cerca de 80 garrafas.
A experiência de organização comunitária integra o caminho percorrido por Rodriguez para propor a participação dos moradores no acompanhamento das ariranhas. No projeto, ele relata que a confiança estabelecida com a comunidade permite planejar a coleta de registros sonoros em colaboração com pescadores e outros habitantes de Palmari, além da bióloga Ana Maria Montes Ferro.
Formada pela Universidade dos Andes, Ana Maria tem direcionado sua trajetória para a promoção dos direitos das comunidades que cuidam e habitam a floresta amazônica há gerações.

Pescadores no monitoramento das ariranhas
Kirpal é formado pela Universidade de los Andes, em Bogotá, na Colômbia, e escolheu a FFCLRP pelas pesquisas em bioacústica desenvolvidas no laboratório da professora Patrícia Ferreira Monticelli, sua orientadora.
“O Brasil é reconhecido pela qualidade da sua produção científica, e os objetivos do meu projeto se alinham muito bem com as pesquisas desenvolvidas no laboratório e com a experiência da minha orientadora”.
O projeto combina bioacústica, inteligência artificial e o conhecimento dos moradores sobre o território para acompanhar a presença e os padrões de atividade das ariranhas em rios, lagos e igarapés nos arredores da comunidade Palmari, especialmente nos locais utilizados para a pesca.
Os moradores deverão colaborar na escolha dos pontos de instalação dos gravadores, a partir de sua experiência com os deslocamentos dos animais. O projeto também prevê que voluntários levem equipamentos portáteis durante as saídas para pescar e registrem as vocalizações das ariranhas que encontrarem.

Essa participação constitui a proposta de ciência cidadã, na qual pessoas de fora do meio acadêmico colaboram em etapas do trabalho científico. Em Palmari, a colaboração deverá incluir a identificação de áreas utilizadas pelos animais, a instalação dos equipamentos e a coleta de gravações.
Para a professora Patrícia, o mérito de todo o projeto é de Kirpal e lembra que será feita uma nova edição do Dia da Ariranha, agora pensando em “avaliar o quanto isso pode de fato mudar crenças e atitudes a favor de uma convivência que seja boa para todas as partes e o funcionamento do ecossistema”.

Sons para acompanhar os animais
As ariranhas possuem um repertório vocal diversificado. O projeto cita trabalhos que identificaram 22 tipos de vocalizações, utilizados na comunicação entre os indivíduos. Esses sons serão a base do monitoramento acústico passivo, técnica que utiliza gravadores automáticos para registrar os sons do ambiente sem a presença contínua de observadores.
Leia também: Conheça os cinco maiores predadores da floresta amazônica
Os equipamentos serão fixados em árvores próximas aos cursos d’água. Como captarão também sons de outras espécies e do ambiente, o projeto prevê o aperfeiçoamento de um programa de inteligência artificial para identificar as vocalizações das ariranhas nas gravações.
A proposta parte de um modelo já desenvolvido, que reconhece alguns tipos de vocalização, mas ainda apresenta erros de identificação. Novos registros serão utilizados em seu treinamento e na avaliação de seu desempenho.
Com as gravações, o trabalho pretende identificar onde e em quais horários os animais utilizam determinadas áreas, além de reunir informações sobre seu comportamento.
O projeto delimita que intervenções para modificar atitudes dos moradores ou realizar o manejo das ariranhas não estão previstas durante o mestrado. As informações obtidas poderão servir de base para ações posteriores de outros integrantes e colaboradores do laboratório.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Sofhia Camargo (estagiária sob supervisão de Rose Talamone)
O post Festival das Ariranhas na Amazônia é tema de projeto de mestrado em Ribeirão Preto apareceu primeiro em Portal Amazônia.

