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Cesta do povo indígena Ye’kwana, de Roraima, vence 10º Prêmio Objeto Brasileiro

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Cesta do povo indígena Ye’kwana, de Roraima, vence 10º Prêmio Objeto Brasileiro

Folhas de cipó Ködaayu coletadas na floresta são a base do Fishau ou Wöwa Tömennato. Foto: Juliana Carla/ISA

As folhas de cipó Ködaayu coletadas na floresta são a base do Fishau ou Wöwa Tömennato, cesta do povo Ye’kwana que está entre os vencedores do 10º Prêmio Objeto Brasileiro, promovido pelo Museu A CASA do Objeto Brasileiro, em São Paulo. O prêmio reconhece a riqueza e a diversidade da produção artesanal e do design em todo o país. O cesto, com cor vibrante, arte, cultura e beleza, venceu na categoria ‘Produção Coletiva’.

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No total, foram selecionadas 26 obras – sendo quatro vencedoras de categorias e 22 selecionadas para a exposição presencial. O prêmio destaca iniciativas divididas nas categorias de Produção Autoral, Produção Coletiva, Ação Socioambiental e Novos Talentos. As peças selecionadas farão parte da exposição presencial na sede do museu, com abertura e cerimônia de premiação marcadas para 14 de novembro de 2026.

A peça foi inscrita no Prêmio Objeto Brasileiro pela Associação Wanasseduume Ye’kwana (Seduume), com sede em Boa Vista (RR), em parceria com o Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA).

Presidente da Seduume, Júlio Ye’Kwana comemora a premiação e diz que a exposição é muito importante como forma de valorizar a floresta, o artesanato e o conhecimento  do seu povo.

“A premiação é bem importante para nós, pois com a exposição a gente mostra o nosso artesanato e leva mais longe nossos conhecimentos tradicionais. A exposição para nós é isso: mostrar para a algumas pessoas, para a sociedade brasileira ou até mesmo para o mundo todo, a importância do nosso conhecimento e da nossa floresta. Porque a natureza é importante para nós”, diz.

Formado em Gestão Territorial e pesquisador do artesanato Ye’Kwana, Julio dedicou seus estudos à relação das cestarias, conhecimentos e preservação dos saberes Ye’kwana, fazeres indissociáveis – o que ele denomina de fazeres sábios. 

Ele explica que as pessoas que se destacam por tal habilidade dominam não apenas a técnica de produção, mas todas as relações, os espíritos/donos dos recursos utilizados e os seres invisíveis com os quais os Ye’kwana esperam se comunicar ao utilizar as produções.

“Por isso somos sábios, ainda temos os sábios para cantar, rezar, fazer ritual, sonhar. Ainda tem natureza. A natureza é bem importante pra nós. Sem a natureza, a gente não vive”, defende.

Leia também: Dicionário multimídia preserva identidade linguística e cultural do povo Ye’kwana

Cesta do povo indígena Ye'kwana, de Roraima, vence 10º Prêmio Objeto Brasileiro
O cipó retirado da floresta vai dar vida à tradicional peça do artesanato do povo Ye’kwana. Foto: Juliana Carla/ISA

“Eu optei por fazer essa pesquisa para não esquecer de vez, mas hoje em dia a gente pratica muitas coisas ainda nos conhecimentos tradicionais. É forte ainda porque a nossa fala aqui é língua Yequã. Na comunidade a gente se comunica com a Yequã, língua indígena, e não em português”, completa.

Conheça mais da arte Ye’kwana na Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil AQUI.

Fishau, a cesta artesanal dos Ye’kwana

O Fishau é uma cesta artesanal, com tampa e de formato cilíndrico tradicionalmente confeccionada por homens do povo Ye’kwana da região de Awaris, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. A peça é trançada manualmente com diferentes desenhos e grafismos tradicionais e apresentam imagens como a do Yaddakadu (macaco) e de outras diferentes gravuras culturais Ye’kwana.

Após serem coletadas, as folhas do cipó usadas na composição são descascadas, limpas, fiadas e tingidas e, só então, trançadas. O tingimento é feito com corantes naturais retirados de cipós, cascas de árvores e raízes. Alguns dos pigmentos ficam na lama por até duas semanas até que atinja a cor desejada pelo artesão. Com os fios já pintados de amarelo, vermelho e preto, o cipó é trançado e os grafismos e desenhos de animais vão aparecendo.

Os indígenas que confeccionam a peça domina a técnica, mas também a conexão com os espíritos. Foto: Juliana Carla/ISA

O reconhecimento do Fishau no 10º Prêmio Objeto Brasileiro evidencia a relevância das tradições indígenas e do fazer coletivo na valorização do patrimônio cultural brasileiro perante o design e a arte contemporânea.

Além de preservar a cultura ancestral dos Ye’kwana e fortalecer os conhecimentos tradicionais, o artesanato tem importante papel na geração de renda e na proteção territorial, pois, ao coletarem a matéria-prima na floresta, os indígenas percorrem longas distâncias a partir de suas malocas e, durante esse percurso, também realizam a vigilância. 

Essas são ações previstas no Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da Terra Indígena Yanomami, que busca valorizar e preservar o patrimônio material e imaterial indígena, protegendo os recursos naturais e a qualidade de vida nos territórios indígenas.

A Associação Ye’kwana Seduume conta com 72 associados e representa, em média, 1.500 pessoas dos povos Ye’kwana do Brasil, desempenhando papel fundamental no fortalecimento do artesanato por meio do apoio técnico às comunidades, da valorização da produção tradicional e do auxílio na comercialização das peças. 

O ISA atua em parceria com a Sedumme para fortalecimento das Economias da Sociobiodiversidade por meio da valorização do artesanato Ye’kwana e da mobilização por políticas públicas adequadas aos territórios, entre outras frentes. 

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Socioambiental, assinado por Ana Amélia Hamdan, Wuara Antezana e Juliana Carla

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