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Faz escuro, mas cantamos

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Faz escuro, mas cantamos

Foto: Rodrigo Sombra

Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com

Quando pensamos em literatura no Estado do Amazonas, é difícil Thiago de Mello não vir à mente. Uma pena que o aspecto político de suas obras não parece impactar a maioria dos manauaras.

Dentro do Clube da Madrugada, outro marco de destaque na cultura local, Thiago de Mello (1926-2022) se destaca principalmente pela notável oposição à Ditadura instaurada em 1964, quando o célebre coletivo de artistas já havia se estabelecido como um dos principais movimentos de contracultura no Amazonas ao longo de mais de dez anos de existência.

Permita-me refletir um pouco e de forma bem simplificada sobre o que essa palavra quer dizer, contracultura. A contracultura é um termo abrangente que se refere à reformulação de formas tradicionais de perceber e produzir, por exemplo, a arte, a cultura e a própria sociedade, frequentemente trazendo inovações e provocações que permitem que essas três forças continuem em movimento, impedindo que sejam eternamente a mesma coisa.

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Para que esse movimento se realize, é necessário que haja conflito, de modo que a contracultura se opõe a valores estabelecidos por uma sociedade, confrontando-os. Nesse sentido, a arte e a cultura tangem a democracia, uma vez que a pluralidade de visões e posicionamentos políticos é indispensável para que a liberdade em uma sociedade seja plenamente exercida, em um constante fluxo não diferente daquele que vemos em nossas margens. Se os valores se estabelecem, a contracultura os confronta.

O que nos traz de volta a Thiago de Mello, que foi, em poucas palavras, um progressista:

“Faz escuro mas eu canto,
porque a manhã vai chegar”.

Talvez os versos mais famosos do poeta, encerram o poema “Madrugada camponesa”, publicado em 1965, ano posterior à instauração da Ditadura Militar. Sua construção, feita de rimas simples na maioria das vezes, traz imagens de uma esperança também simples, também “camponesa”, da felicidade não de gente que bebe champagne ou vive do sacrifício dos outros seis dias por semana, mas de pessoas cujo trabalho é sinônimo de sobreviver a cada dia. Atravessar a noite, viver do seu trabalho e se alimentar bem viram sinônimos diretos de prosperidade e sucesso, uma plenitude que só quem planta com as mãos no chão conhece.

Quem vê o conjunto dessas imagens e enxerga apenas o banal não entende a rebeldia que o poeta de Barreirinha-AM imprime em seus versos, especialmente em um mundo que valoriza a abundância excessiva como prova de que algo deu certo. Mais uma vez: um dos maiores poetas do Amazonas foi, até seu último suspiro, um progressista:

“Agora vale a verdade
cantada simples e sempre,
agora vale a alegria
que se constrói dia-a-dia
feita de canto e de pão”.

Mais ainda, sua rebeldia se revela na voz de quem teima ter esperança, de quem acredita que, mesmo no coração escuro da noite, o dia virá em breve. Thiago de Mello, ainda que tenha escrito o poema no início da Ditadura no Brasil, já antevira seu fim, não porque tivesse certeza de coisa alguma (como poderia?), mas porque plantou em versos uma esperança que, durante as duas décadas do regime, se enraizou, afinal:

“A noite já foi mais noite,
a manhã já vai chegar.
Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão”.

E não é como se não tivesse motivos para o desespero. O fim do Clube da Madrugada se deu principalmente pela repressão realizada pela Ditadura na década de 1970, ao terem seu principal veículo de comunicação, o Suplemento Madrugada, sufocado pelo regime militar, pois se os movimentos de contracultura surgem justamente para desestabilizar as estruturas viciosamente apegadas à norma e ao controle, logo a arte se torna uma ameaça ao regime.

Assim, o movimento cultural mais expressivo da cultura do Amazonas é vítima da repressão militar e conservadora de um tempo sombrio, a Noite descrita por Thiago de Mello, ele mesmo preso e obrigado a exilar-se no Chile (que hoje também não se mostra um espaço seguro para quem tem esperança, carcomido como está pela extrema-direita), na companhia do famoso poeta Pablo Neruda.

Mais uma vez enfatizo, sem qualquer tipo de metáfora: o Clube da Madrugada foi fatalmente golpeado pela Ditadura Militar. Qualquer amazonense, especialmente os manauaras, que alguma vez já ouviu falar do movimento ou de seus escritores e sentem orgulho disso, precisa estar ciente desse fato, repetido aqui mais uma vez: a nossa maior e mais inovadora manifestação cultural foi condenada por um governo opressivo e conservador.

Ainda assim, Thiago de Mello planta sua semente mais fértil: surge, no Chile, o poema Os Estatutos do Homem, uma verdadeira ode à liberdade, declarado em 2019 como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Amazonas. Quando falo de liberdade, não me refiro à noção estadunidense de uma liberdade irrestrita que me permite exercer poder sobre os outros, inclusive para cometer a violência que eu quiser, mas à liberdade de ter esperança, de sonhar com um mundo em que a pessoa ao meu lado também pode cultivar esperanças e edificar sua prosperidade camponesa.

Faz escuro, mas cantamos
Foto: Edmar Perrone

Mais uma vez, é profetizado o fim das mordaças que a Ditadura tanto gostava (e gosta), mordaça de quem fala em sonhar e esperançar:

“Nunca mais será preciso usar 
a couraça do silêncio 
nem a armadura de palavras”.

Infelizmente, a visão de Mello não contava com a habilidade das pessoas de esquecer. O poeta não previu que a população perderia a memória e viveria com a cabeça na Nuvem, separando-se das lembranças e relegando-as a espaços abstratos, digitais, distantes, onde a verdade pode ser facilmente transformada em narrativa, e as pessoas, já desacostumadas a serem confrontadas, transformam em fato aquilo que lhes é confortável: se eu acredito, é verdade, se não, é fake news.

Mais do que nunca, o que precisamos é de uma contracultura radicalmente esperançosa, precisamos daqueles que ousam ter esperança, afinal, em tempos de fake news, da negação voluntária da realidade e da entusiasmada aceitação de uma cultura de morte, as visões de Thiago de Mello, tidas durante uma noite igualmente sombria, talvez nos sussurrem uma verdade muito simples, e ainda assim, revolucionária:

“Fica decretado que agora vale a verdade,
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira”.

Em um tempo em que a ameaça da Noite surge uma vez mais, regurgitando as promessas ilusórias de uma liberdade violenta que parece tão popular entre os brasileiros, também declaro uma verdade simples: fiquem com seus líderes de rebanho, soldados e carcereiros. Eu fico com os poetas.

Foto: André Argolo

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Sobre o autor

Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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