Foto: Alexandre de Moraes
Nos semáforos da Travessa Nove de Janeiro, em Belém, ou nas salas de aula da Universidade Federal do Pará (UFPA), o malabarista e pesquisador Yure Martins costura memórias, apagamentos e resistências. Em sua dissertação Memórias das artes circenses de rua em Belém, optou por um gesto ousado: organizá-la como se fosse um espetáculo.
A ideia partiu da orientadora, professora Bene Martins: convocar o leitor como convoca o público na rua a prestar atenção à arte que insiste em sobreviver à margem. Yure utilizou essa liberdade criativa permitida na área das Artes para fugir do formato tradicional.
A pesquisa se baseia em um hábito pessoal de registrar, por meio de fotos, desde 2008, seus treinos e ensaios com malabares. Yure aborda a memória por diversas mídias, como vídeo, cinema e documentários (alguns que ele ajudou a produzir) e, principalmente, fotografias, que ele descreve como “retrato congelado de uma realidade”. O pesquisador ressalta a complexidade de trabalhar com a própria memória, e não com a história, já que poucos pesquisadores trabalham com suas próprias lembranças.
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A interconexão entre as memórias individual e coletiva na prática cotidiana dos artistas circenses de rua é um ponto importante da tese. Yure buscou construir uma metodologia que fizesse conversar métodos de discussão sobre memória, mesmo que contraditórios ou antagônicos, utilizando referências da História, da Antropologia e das Ciências Sociais.
Seu projeto original previa entrevistas com pessoas com quem convivia, para que a memória-guia do relato, a sua própria, não fosse a única. No entanto a pandemia impossibilitou grande parte dessas entrevistas presenciais, especialmente com artistas de rua, que nem sempre possuem acesso à internet.

Para contornar essa dificuldade, Yure optou por transcrever textos de documentários que havia produzido com outros colegas e utilizar entrevistas que já havia realizado em outros momentos, inclusive algumas transcritas por colegas em teses sobre arte de rua. O objetivo era que sua memória servisse como um fio condutor, entrelaçando-se com várias outras, estando nessa relação com algo grupal, a arte de rua, que tem várias manifestações. Essa abordagem busca a partilha coletiva e afetiva.
Yure destaca a importância dos encontros semanais de malabares e circo, que surgiram da necessidade dos artistas de rua de se reunirem em seus dias de descanso, geralmente às segundas-feiras, após faturarem nos fins de semana. Esses encontros, que ocorreram regularmente em Belém, na Praça da República e na Praça de São Brás, até 2017, e de forma itinerante, até 2023, foram cruciais para a formação e resistência dos artistas circenses.
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A construção da identidade circense em Belém
A tese também aborda a memória da Escola Circo, uma instituição que, embora tenha uma forte presença na cidade de Belém, não formou a maioria dos artistas circenses de rua que atua localmente. A escola atendia um grupo bem específico de crianças em situação de vulnerabilidade e de áreas carentes, e muitos artistas de rua hoje vêm de outros municípios ou regiões que não eram abrangidos pela escola.
Yure ressalta que, durante algumas gestões municipais, a instituição foi alvo de críticas, sendo associada à ideia de que as crianças eram incentivadas a pedir dinheiro nos semáforos. Ele contrapõe essa visão explicando que, para o artista de rua, o semáforo é o palco em que ele oferece sua arte, e o pagamento é voluntário.
Essa discussão reflete o preconceito enfrentado pelos artistas de rua.
“Para o artista que está na rua, aquele é o palco dele. Então você oferece a sua arte e quem quiser paga, se quiser, e o quanto puder. É diferente de uma situação de formação. A gente discute muito com o preconceito da nossa prática, nesse sentido. O circo, assim como o teatro, sempre foi marginalizado”, afirma Yure.
O artista aponta que a relação histórica dos circenses com os ciganos, povos perseguidos por séculos, contribuiu para essa visão. Apesar de o circo no Brasil ter suas raízes na rua, com anfiteatros e apresentações de praça, as apresentações na rua passaram a ser consideradas inferiores, e esse estigma permanece até hoje.
O termo “artista de rua” é uma autoidentificação para aqueles que não nasceram no circo tradicional, mas praticam as artes circenses em espaços públicos. A privatização do espaço público e a proibição da arte circense de rua em diversas prefeituras do Brasil, especialmente malabaristas com fogo ou com espadas cenográficas, contribuem para a marginalização.
A falta de institucionalidade é outro fator significativo. O circo possui pouquíssimos cursos técnicos e de graduação, fora a Escola Nacional de Circo no Rio de Janeiro, que se tornou curso técnico há poucos anos. Isso leva muitos artistas circenses a serem autodidatas ou a buscarem formações em áreas como a Educação Física, como é o caso de Yure, por trazerem práticas que se assemelham às das artes circenses.

Regionalidade e identidade amazônica no circo de rua
Yure destaca que o circo de rua na região amazônica possui características peculiares, muitas vezes não percebidas pelos próprios artistas. Bordões e expressões regionais, como “ito ito ito, açaí com peixe frito”, são exemplos da forte identidade paraense e amazônica presente na arte circense local.
Apesar da influência europeia e da tradição do circo moderno, que remete aos séculos XVIII e XIX, os artistas de Belém buscam elementos regionais em suas apresentações, utilizando roupas de chita, incorporando a alimentação e as formas locais de falar. “Nós temos que dizer: ‘somos de Belém’. Aí eu falo do açaí, eu falo diferente, eu tenho um chiado diferente. Então a gente acaba tendo essa identidade e, muitas vezes, nós não somos totalmente conscientes dela”.
Memórias das artes circenses de rua em Belém oferece um cenário rico e complexo da arte circense de rua na cidade, revelando as camadas de memória, os desafios da marginalização e a força da resistência por meio da identidade regional. É um trabalho que não apenas documenta, mas também celebra a resiliência de uma arte que, ao apresentar convocatória ao público, encanta com o cortejo nas ruas e semáforos, transformando cada intervenção em um ato de reafirmação cultural e social.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 177, escrito por Luiza Amâncio.
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