Documento sobre OVNI chegou a ser recebido em Manaus. Foto: Acervo pessoal/Júlio Olivar
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
Em 24 de março de 1990, Vilhena tinha pouco mais de 30 mil habitantes e um céu ainda sem poluição luminosa. Foi nesse céu, em pleno pôr do sol, que um comerciante do centro da cidade jurou ter visto um segundo sol. O relato, que por mais de 30 anos ficou carimbado como confidencial nos arquivos da Aeronáutica, agora vem à tona no Arquivo Nacional.
Às 18h30 daquele sábado, Wilson Volver Fermaier, 45 anos, dono de um supermercado na Avenida Major Amarante, 4177, saiu na porta do comércio e olhou para o horizonte. O que viu, segundo seu depoimento oficial, era “uma luz forte, maior que o tamanho do sol, cor amarelo para vermelho, com grande velocidade em sentido reto com o horizonte, deixando um rastro de fumaça que permaneceu por 1 min no céu após o choque com o solo”.
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Espantado, Fermaier procurou a TASA – Telecomunicações Aeronáuticas S/A, estatal que controlava as comunicações de voo no aeroporto local. O caso foi considerado grave o suficiente para subir na cadeia de comando. O Serviço de Proteção ao Voo de Porto Velho abriu procedimento de investigação de OVNI e aplicou ao comerciante o questionário padrão da Força Aérea Brasileira, com 24 perguntas.

Nas respostas, Fermaier foi direto: o objeto era único, não voava em formação e não emitia som. Parecia “uma estrela descendo e quando se aproximava ficava mais forte”. Tinha “forma de luz forte”, “maior do que o sol que se apresentava próximo do horizonte”, “amarelo cor de fogo tendendo para o vermelho”. Deixou “rastro de fumaça igual dos aviões a jato”, mas numa “velocidade maior que a de um jato umas 100 vezes”, em linha reta.
A observação durou cerca de 30 segundos. A luz sumiu, mas a fumaça ficou por mais 60 segundos no céu limpo. Foi a olho nu. Fermaier disse que teve tempo de chamar duas testemunhas: a própria esposa e a esposa do promotor público da cidade. Calculou que a queda teria ocorrido a uns 50 km dali, na direção da Fazenda Chupinguaia.
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A Aeronáutica não arquivou o caso como delírio. O tenente Nena Mendes, da Polícia Militar de Rondônia, foi verificar in loco. Segundo o relatório, ele “esteve até bem próximo do local da suposta queda e não conseguiu prosseguir devido a mata ser de difícil penetração, porém colheu informação dos moradores que confirmaram as informações do Sr. Wilson”.
O caso subiu para Manaus. Em 21 de maio de 1990, o tenente-coronel Armando Antônio Rodrigues, do Serviço Regional de Proteção ao Voo de Manaus, órgão ligado ao Ministério da Aeronáutica, enviou ofício ao chefe nacional do serviço relatando episódios “estranhos” no céu de Vilhena.
O documento original, com o cabeçalho “RCC FV – Recebimento do Serviço”, foi assinado pelo 2º Sargento França em 2 de maio de 1990, em Porto Velho, com anotação de que os majores Ecildon e Edson foram informados e que o setor permaneceria de sobreaviso.
Como todos os casos de OVNI da época, o dossiê foi classificado e enviado ao acervo confidencial do Governo Federal. Só agora, com a política de abertura dos arquivos de objetos voadores não identificados, o “segundo sol de Vilhena” voltou a brilhar.
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Relembre outro caso
Um ET para chamar de nosso: há 52 anos, Vilhena teria sido visitada por OVNI
Janeiro de 2026 marcou os 30 anos do episódio que entrou para o imaginário popular como o “ET de Varginha”. Em 1996, o suposto aparecimento de uma criatura em Minas Gerais dominou o noticiário nacional. De jornais sensacionalistas como o Notícias Populares à Rede Globo, o caso virou pauta obrigatória.
Para celebrar a data, a Globo lançou a série “O Mistério de Varginha”, reunindo depoimentos de testemunhas, ufólogos e militares. Disponível no Globoplay, o documentário trouxe tanto confirmações quanto desmentidos: o ufólogo Ubirajara Rodrigues declarou não acreditar mais no caso, enquanto as mulheres que afirmam ter visto a criatura mantêm sua versão. Varginha nunca mais foi a mesma — o turismo e a identidade da cidade se moldaram em torno do episódio.
Professor abduzido em São Paulo e abandonado em Vilhena
Mas 22 anos antes de Varginha, Rondônia já havia vivido seu próprio enigma. Em 1974, Vilhena ainda era uma vila de pouco mais de 300 habitantes, marcada por estradas precárias e noites sem energia elétrica.
Na manhã de um sábado, às 6h, o jovem professor de química paulista Fábio [sobrenome não divulgado] foi encontrado desacordado na Avenida Major Amarante. O detalhe intrigante: ele havia sido visto em São Bernardo do Campo (SP), a mais de 2.100 km dali, na noite anterior. De carro, a viagem levaria ao menos dez dias.
“Na noite anterior, nenhum avião aterrissou no município, segundo pesquisamos na base da Aeronáutica”, disse Gilberto de Barros Lima, que resgatou Fábio. O fato alimentou rumores de abdução. Com 28 anos e sem memória do ocorrido, Fábio virou personagem central de um mistério de repercussão nacional. Seu Fusca foi localizado em São Bernardo, estacionado diante de um banco, e os 320 cruzeiros que havia sacado permaneciam intactos no bolso.
Mistério sem explicação
O caso foi destaque na Folha de S. Paulo, na revista O Cruzeiro e até no Fantástico. Em plena era de fascínio pela ufologia, impulsionada pela chegada do homem à Lua em 1969, o episódio nunca foi esclarecido e acabou caindo no esquecimento. O repórter João Leite Neto, morto em 2023, trabalhava no Fantástico e chegou a gravar matéria sobre o caso, mas o professor não quis se manifestar. O arquivo da reportagem não foi encontrado.
O jornalista Lúcio Albuquerque, correspondente da Folha em Rondônia e um dos nomes mais respeitados da imprensa rondoniense, foi o primeiro a relatar o episódio nacionalmente, projetando Vilhena no mapa da ufologia.
Em 1998, o ex-administrador de Vilhena, Gilberto de Barros Lima, conhecido como “Prefeito Gilberto”, reacendeu o mistério em entrevista à Folha do Sul. Contou como encontrou Fábio caído, desorientado. O rapaz estava em plena avenida, tomada pela poeira, “mas com a camisa branca absolutamente limpa”.
Levado a uma farmácia, Fábio apresentava tontura e náuseas. No bolso, um número de telefone levou ao contato com a família, atônita com sua localização. No mesmo dia, foi levado de volta a São Paulo de avião, acompanhado pelos pais.
Gilberto morreu em 2018, levando consigo a dúvida que ainda paira sobre Vilhena: teria sido a cidade visitada por um extraterrestre?
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
*O conteúdo é de responsabilidade do colunista.
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