Foto: Reprodução/arquivo do Instituto BioMA
Quem vive na região amazônica provavelmente já ouviu sobre um charmoso homem vestido de branco, que seduz jovens ribeirinhas e depois desaparece nas águas, se transformando em um animal, o boto. Com isso, crianças sem a figura paterna conhecida foram então associadas a serem “filhos de boto”, alimentando uma série de histórias que permeiam o imaginário popular.
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“Essa cosmologia ainda é comum. No Pará, isso ocorre principalmente nas regiões do arquipélago do Marajó, baixo Amazonas e Baixo Tocantins, onde a presença desses animais é mais frequente”, explica a pesquisadora Angélica Rodrigues, bióloga e uma das diretoras do Instituto de Biologia e Conservação de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (BioMA), da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA).
O grupo atua tanto com educação ambiental e resgate de animais encalhados, quanto nas pesquisas conservação e preservação de várias espécies marinhas, entre elas os botos.
“Por isso, quando pensamos em um programa de educação ambiental e de conservação das espécies, a primeira providência foi entender as relações das comunidades com essas espécies, para que junto com elas construíssemos um programa de conservação”, disse.

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“Em alguns lugares percebemos que existe uma resistência a falar sobre esses conhecimentos locais, mas existe também um grande respeito, tanto em comer a carne do animal, quando de manter a distância, especialmente entre mulheres, que evitam o animal por conta da lenda sobre esse ser que pode “mundiá-las”, que pode convocá-las para uma situação em que elas percam a cabeça, que elas sejam levadas para o rio, que elas engravidem e tenham um filho do boto”, explica a pesquisadora.
Segundo a pesquisadora, os botos também são foco do comércio de subprodutos místicos. “A mística que paira no universo dos botos ainda influencia muito, ainda tem muita demanda pela compra de produtos. Tanto na capital quanto no interior do estado é possível encontrar venda de partes dos animais, unguentos pra fins medicinais, amuletos. São produtos que não ficam tão à mostra, para evitar fiscalização, mas ainda existe muita procura. Os botos acabam ficando sempre muito vulneráveis”, diz.
Perigo de extinção
Desde 2018 o boto cor-de-rosa (Inia geoffrensis) foi incluído na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês). A espécie já é considerada “Em perigo” tanto na categorização da IUCN quanto nas Listas Nacionais Oficiais de Espécies Ameaçadas de Extinção do Brasil, atualizadas pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos do ICMBio (CMA).
Na lista brasileira, o boto Tucuxi (Sotalia fluviatilis) também está na categoria “em perigo de extinção”, enquanto o boto do Araguaia (Inia araguaiaensis), que foi registrado por pesquisadores pela primeira vez em 2014, já nasceu considerada uma espécie vulnerável.

Os motivos são vários. Perda de habitat, dragagem dos rios, interação acidental em redes de pesca, captura para servir como isca, poluição e alterações climáticas são fatores que tem contribuído para esse declínio da população de botos na natureza, afirma a pesquisadora. “Nós precisaremos passar por treinamentos constantes diante do cenário de mudanças climáticas. Estamos realizando pesquisas para entender como essas mudanças afetam os botos, que já estão sentindo o impacto”, disse.
Angélica Rodrigues explica que os botos são considerados sentinelas da natureza, ou seja, a presença desses animais pode dar respostas sobre aquele ambiente.
“Ele está no topo da cadeia alimentar. É um animal que acumula as informações e funciona como um grande farol ambiental para nos dar pistas de como o ambiente está respondendo às emergências e aos impactos antrópicos. Toda vez que um animal encalha, vivo ou morto, é fonte de muita informação científica”, disse.
A reprodução da espécie é outro desafio. A gestação de um boto é longa, pode durar até ano e somente um filhote por vez. “Após o nascimento a mãe leva cerca de dois a três anos para ter um outro filhote, por conta do cuidado parental intenso com filhote”, disse.
Boto rosa no canal
Outra questão apontada pela pesquisadora para o declínio da população desses animais é a poluição dos rios. Isso se tornou mais evidente quando um boto rosa adulto foi encontrado no início do ano em um canal do centro da cidade de Belém, movimentando várias instituições para o resgate, incluindo o Instituto BioMA.
“Foi a situação mais atípica que já atendemos no Pará, um boto vindo por dentro dos canais a partir das águas pluviais. Infelizmente esse animal não resistiu, era um boto macho, adulto, e que estava com o trato intestinal cheio de lixo”, disse.
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Interação com humanos
A pesquisadora explica que os botos são animais selvagens em vida livre, mas em alguns locais foram habituados a receberem alimentação. “Infelizmente, essa interação e alimentação aumenta o fluxo de zoonoses, que são doenças transmitidas entre animais e humanos. Já existem evidências da transmissão de patógenos, como fungos, vírus e bactérias, inclusive resistentes a antibióticos, dos botos para as pessoas que os alimentam e vice-versa. Isso é uma questão de saúde pública”, alerta.

Na região de Mocajuba (PA), há anos a equipe acompanha entre 10 e 12 animais. As pesquisas são, atualmente, desenvolvidas a partir do projeto “Parâmetros fisiológicos e análise de risco para patógenos zoonóficos em botos-do-Araguaia (Inia araguaiaensis) sob impactos ambientais no contexto One Health”, realizado por meio da Iniciativa Amazônia +10.
Segundo Angélica Rodrigues, a proposta do grupo não é acabar com o turismo relacionado a animais de vida livre, mas subsidiar planos de gestão desse turismo, a partir das pesquisas. “Atualmente temos contato direto com sete animais e um filhotinho recente que ficam no entorno do Mercado. O boto é um símbolo, um patrimônio natural para aquela região, mas é preciso estabelecer como pode ser essa interação de forma correta, sem prejuízo aos animais e aos visitantes”, diz.
Disque-Encalhe
O Instituto BioMA é formado por biólogos, veterinários, sociólogos/arteeducadores, que se dedicam à atuação e monitoramento de praias, atendimento a encalhes e educação ambiental.
Caso os encalhes aconteçam em locais mais afastados da capital, o grupo aciona outras instituições parceiras, atuando em rede, incluindo os próprios monitores ambientais em formação nas comunidades, um canal que funciona em conjunto com os órgãos ambientais, bombeiros e polícia, mas que também exige checagem contra fake News.

“Às vezes precisamos primeiro verificar se aquela informação tem veracidade, especialmente vídeos; recebemos recentemente um vídeo de um lobo-marinho no Pará, o que já seria estranho, mas verificamos e o vídeo era no Rio Grande do Sul”, disse.
O Disque-encalhe pode ser acionado pelos números (91) 992503113 e (91) 98032-4957, e funciona tanto para resgate de botos quanto de tartarugas, baleias, peixe-boi ou aves marinhas, vivos ou mortos.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Ufra, escrito por Vanessa Monteiro
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