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“Arquiteto da floresta”: Projeto preserva legado de Severiano Mário Porto no Amazonas

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
“Arquiteto da floresta”: Projeto preserva legado de Severiano Mário Porto no Amazonas

Foto: Divulgação/Ufam

Conhecido como o “arquiteto da floresta”, Severiano Mário Vieira de Magalhães Porto (1930–2020) faz parte do dia a dia de cada estudante, trabalhador e visitante do Campus Sede da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Ladeados de aproximadamente 700 hectares de fauna e flora nativas, os prédios desenhados por Severiano Porto se misturam hoje àqueles construídos com vários pisos e elevadores, mas ainda continuam a ser a imagem arquitetônica mais representativa da antiga Universidade do Amazonas (UA).

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Isso porque, entre as décadas de 1970 e 1980, esse arquiteto foi o responsável por elaborar o plano diretor e o projeto original para a construção Campus da Ufam, inserido na maior área de floresta urbana do Brasil. Claro que ele aceitou o desafio de desenhar uma Universidade Amazônica no estado brasileiro que abriga a maior parte da floresta tropical do planeta. Os superlativos, porém, são um lugar comum na obra de Severiano Porto.

Além do Campus da Ufam, seu legado inclui ainda:

  • a sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), em 1974;
  • o Estádio Vivaldo Lima (em coautoria com Mário Emílio Ribeiro), em 1965, popularmente  chamado de “Vivaldão” e demolido para dar lugar à Arena da Amazônia;
  • o Centro de Preservação Ambiental de Balbina, em 1983;
  • a Pousada da Ilha de Silves, entre 1979 e 1983;
  • o Restaurante Chapéu de Palha, em 1967;
  • a própria residência, no ano de 1971;
  • o Fórum de Justiça Henoch Reis;
  • o Balneário do Clube do Trabalhador (Sesi)
  • e o edifício do Banco da Amazônia (Basa), em coautoria com Mário Emílio e inaugurado no ano de 1979 .

Este último, localizado na Avenida Sete de Setembro, Centro de Manaus, foi atingido por um incêndio de grandes proporções no dia 3 de setembro. O Basa era um dos projetos emblemáticos concebidos realizados em parceria com Mário Emílio Ribeiro, no qual eles conseguiram integrar concreto armado, treliças e troncos de madeira regional.

Leia também: Morre Severiano Porto, o Arquiteto da Amazônia; entre suas obras estão o Vivaldão, setor norte do campus da Ufam e a sede da Suframa

Acervo de Severiano Mário Porto preservado

Com o sinistro, ficou ainda mais evidente a importância das ações desenvolvidas pela Universidade Federal que, além de salvaguardar até hoje o projeto original elaborado para o seu Campus Universitário, tem liderado os esforços acadêmicos no sentido de resgatar, catalogar e divulgar a memória desse profissional.

Ainda que o poder público local tenha acenado publicamente que atuará para preservar e revitalizar o antigo prédio do Basa, já que é parte do Centro Histórico de Manaus, o Núcleo Arquitetura Moderna na Amazônia (Nama) já trabalha desde 2016 com na construção de um acervo digital com as obras criadas por Severiano Porto. 

Foto: Divulgação/Ufam

O Núcleo é coordenado pelo professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Ufam Marcos Cereto e abriga projetos voltados à arquitetura pensada no e para o contexto sociocultural amazônico. De modo particular, a estratégia de digitalização das obras de Severiano Porto assegura que o material esteja ao alcance de todos, e não só no Brasil.

Em relação a esse acervo, o docente esclarece que é uma alternativa para manter viva a contribuição daquele arquiteto para a paisagem urbana amazonense diante da possibilidade de perda das estruturas físicas, seja por motivos acidentais ou pela degradação causada pelo tempo.

Para garantir que esse legado intelectual não se perca, a Ufam consolidou uma parceria estratégica com a UFRJ. “A cooperação realiza a unificação e a padronização do catalogamento entre as coleções mantidas no Rio de Janeiro e o acervo em Manaus. A nossa numeração está seguindo a numeração do Rio de Janeiro, de tal maneira que a gente possibilite aos pesquisadores, quando tudo isso estiver digitalizado, um acesso contínuo, sem a pessoa precisar ir para o Rio de Janeiro e depois vir para Manaus. A união desses acervos é justamente com esse objetivo de guardar, preservar e difundir a obra do principal arquiteto da Amazônia“, explica o professor Marcos Cereto.

Reconhecimento internacional

O Nama atua ainda para impulsionar a projeção internacional das obras de Severiano Porto. “Nós temos realizado uma série de trabalhos desde 2016. Eu posso destacar, por exemplo, uma exposição realizada com apoio da Universidade, ‘Amazônia em Construção: Arquitetura dos Rios Voadores’, em Paris, em 2019, na Cité de l’Architecture et du Patrimoine, onde nós expusemos e fizemos uma homenagem a ele”, destaca o professor Cereto.

Durante o evento na França, a relevância do trabalho motivou a submissão de sua candidatura ao Global Award for Sustainable Architecture — prêmio de prestígio internacional chancelado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e pela União Internacional de Arquitetos (UIA).

“Elaboramos um dossiê com as nossas pesquisas, com todas as obras de Severiano Porto, e encaminhamos a um júri internacional. Então, ele se tornou o primeiro arquiteto brasileiro a receber essa homenagem (…), mostrando as nossas ações em prol de manter essa memória viva de suas obras”, orgulha-se o idealizador do projeto.

A visibilidade internacional atraiu a visita anual de mais de 20 pesquisadores estrangeiros vindos de países como Escócia, Itália, Suíça, Áustria, Alemanha, Dinamarca e Estados Unidos para visitar o acervo.

Severiano Mário Porto
Severiano Mário Porto. Foto: Divulgação

Por que “Arquiteto da Floresta”?

Natural de Uberlândia, cidade mineira, Severiano Porto mudou-se ainda na infância para o Rio de Janeiro, onde concluiu a graduação na antiga Faculdade Nacional de Arquitetura (FNA) da então Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1955.

Durante uma viagem turística ao Amazonas, no ano de 1963, ele recebeu o convite para criar projetos públicos para a capital do estado. Três anos depois, já era morador de Manaus. O vínculo com a Ufam foi também como docente, pois ele lecionou na Faculdade de Tecnologia entre 1972 e 1998, onde ajudou a formar gerações de engenheiros.

A idealização do setor Norte do Campus da Ufam está entre os projetos que mais dialogam com os elementos da sociobiodiversidade regional. A planta foi desenhada com o objetivo de harmonizar os prédios, a topografia do lugar e a floresta do entorno. Ele pensou no aproveitamento da ventilação natural, no sombreamento e em gerar o menor impacto ambiental. Ele se inspirou nas construções dos ribeirinhos, onde se adotam estruturas sobre palafitas.

*Com informações da Ufam

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