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Amazônia costeira: Atlântico avança sobre a costa e muda a vida na foz do Amazonas

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Amazônia costeira: Atlântico avança sobre a costa e muda a vida na foz do Amazonas

A praia do Goiabal, no Amapá, sofre os impactos das marés altas. Foto: Luis Ushirobira/InfoAmazonia

A foz. Estamos no palco de um encontro de duas grandes forças da natureza: o rio Amazonas e o Oceano Atlântico. Na estação chuvosa, é o rio quem avança mais para dentro do mar. Depois, na seca, é “o salgado” que começa a ganhar a batalha.

O rastro do maior rio do planeta alcança, em seu período de máximo deságue, entre fevereiro e abril, até 1000 km dentro do Atlântico. Quando esta pluma do rio chega ao mar, leva grande quantidade de nutrientes. Influenciada pela Corrente Marítima Norte Brasileira, ela se desloca em direção ao Caribe levando alimento para a profusa biodiversidade dos ambientes coralinos desta parte do Atlântico.

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Neste banquete de micro-organismos e sedimentos que carrega o rio Amazonas vivem milhares de espécies e delas dependem toda uma sociedade e economia. A mistura das águas do Amazonas e do Atlântico gestou uma das mais belas regiões do planeta e uma cultura costeira que é pouco conhecida pelo mundo. Quando se fala de Amazônia, pensamos na floresta, mas não na diversidade de paisagens de seu litoral. Muito menos em seu mar de águas lamacentas.

Nesta sociedade ligada aos peixes, aos mangues e ao ritmo da maré, os pescadores, os catadores de crustáceos e a indústria da pesca são protagonistas. Mais próximos à costa estão os pescadores artesanais e aqueles que atuam na captura de camarões e caranguejos de água salobra. Um pouco mais avançadas no mar estão as embarcações industriais, que arrastam as redes para buscar o camarão rosa, a pescada amarela e os bagres migradores.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é a Foz do Amazonas?

Entretanto, este balanço entre o rio, o mar, o homem e a natureza está em rápida transformação. O aquecimento global intensifica o ciclo hidrológico na Amazônia, causando chuvas e secas mais extremas. O momento e a quantidade de água do Amazonas chegando ao Atlântico já não são tão regulares.

Arte: Reprodução/InfoAmazonia

Onde a Amazônia encontra o Atlântico

Pescador na praia do Goiabal, Osiel Barbosa Balieiro, o Bicudinho, sabe que, quando encontra na rede a pescada amarela, a sarda, a tainha e outros peixes do mar, a água salgada, de cor mais clara, está ganhando terreno. Mas quando ele e seus colegas voltam da pescaria com peixes de água doce, aqueles que se reproduzem na foz do Amazonas, como a gurijuba, a dourada ou a piramutaba, é sinal de que o rio está prevalecendo com sua coloração barrenta.

Bicudinho tem 49 anos e vive há 32 no Goiabal, uma praia no Amapá, o estado mais ao Norte do Brasil. Ele conta ter testemunhado grandes transformações ao longo desses anos: a principal foi o avanço das marés. A partir de 2013, diz, começaram, com maior frequência, as “marés lançantes”. São as marés de “água grande” que avançam sobre a costa. Casas, pousadas e outros atrativos para os turistas foram destruídos pelo mar. Muitos moradores já deixaram Goiabal, e sobraram quase só pescadores.

“O salgado vai empurrando”, diz Bicudinho.

Neste ponto da costa, os pescadores não precisam de barco para lançar redes no mar. O terreno é tão plano, que a maré faz o trabalho. Estacas de madeira com uma rede presa são fixadas na areia em pontos bem distantes da praia. Os peixes trazidos pela maré são enredados quando o mar começa a vazar. 

A maré pode recuar e avançar, diariamente, de três a quatro quilômetros no Goiabal. Com 40 km de extensão, a praia é uma das poucas faixas de areia em todo Amapá. O resto da costa está praticamente coberto por manguezais.

Exatamente por sua topografia extremamente plana e por estar na foz do Amazonas, a costa do Amapá é uma das mais afetadas pelo aumento do nível do mar no Brasil. Na média global, de acordo com dados do Serviço do Ambiente Marinho Copernicus, da União Européia, o mar já se encontra cerca de 20 cm mais alto do que no início do século XX e até o final deste século as projeções indicam que pode estar até 1 metro mais alto. Na região da desembocadura do grande rio, uma análise inédita realizada para esta reportagem revela que apenas em três décadas o aumento foi de 12,4 cm.

As principais razões para a elevação, segundo o Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC), são o aumento da temperatura do mar e o derretimento das calotas polares, fenômenos ligados às mudanças climáticas em curso.

A erosão acelerada é um dos sinais mais visíveis da subida do mar, mas a salinização de terrenos e igarapés próximos à costa também é sentida pelos ribeirinhos e pescadores. Áreas alagadas por mais tempo e mais sal na água alteram a economia local baseada na pesca e no extrativismo.

No Goiabal vivem apenas sete famílias, 18 pessoas, a maioria homens. As esposas e filhos estão na cidade mais próxima — Calçoene —, onde há escolas e postos de saúde. Enquanto isso, os pescadores vivem em casas simples e pequenas, equipadas apenas com o suficiente para trabalhar, comer e dormir.

Dormir, na verdade, nem tanto. Como observou uma das moradoras, Elita Santos, que nos hospedou em sua pousada no Goiabal: “esse pessoal mal dorme pois acompanha as marés”. Se começar a vazar a maré no meio da madrugada, os homens saem caminhando acompanhando o mar baixando até as estacas. Chegando a elas, recolhem os peixes enredados e caminham de volta com o mar subindo no encalço.

Nas primeiras horas de uma manhã de maio, um grupo de pescadores surgia no horizonte, suas silhuetas negras quase imperceptíveis. Assim como em qualquer outro dia, eles tinham acompanhado o vai-vem da maré e caminhado seis quilômetros. O filho de Bicudinho, Antônio, e um colega, Pedro, tinham saído às quatro horas da manhã enquanto a maré recuava. Voltaram principalmente com peixes do rio: gurijuba e piramutaba.

Além da pousada de Dona Elita, um dos poucos comércios que ainda funciona na praia do Goiabal é o restaurante da família de Thiago Monteiro de Lima, 34 anos. Ele e seus pais se mudaram do garimpo do Lourenço, em Calçoene, há 12 anos com a esperança de aproveitar o turismo em uma das poucas praias do Amapá. Mas a esperança no novo negócio não se confirmou. Na frente do terraço onde são servidas as refeições, ele nos mostra o piso de sua casa. “Esse aqui nós refizemos há um ano!”. Logo à frente do pavimento de cimento estão os escombros do terraço anterior que foi destruído pelo mar .

Para esta reportagem, elaborada pela InfoAmazonia para a investigação “Águas Partidas”, coordenada pelo Centro Latino Americano de Investigación Periodística (CLIP) em parceria com o Instituto Serrapilheira e oito veículos da região, visitamos comunidades pesqueiras ao longo da costa do Pará e do Amapá. Escutamos como estas transformações são registradas pelo olhar do conhecimento tradicional. Também entrevistamos pesquisadores que estão dedicados a entender como estas mudanças em grande escala estão alterando a foz do rio com a maior vazão no mundo. (…)

*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Gustavo Faleiros. Para ler o material completo, clique AQUI.

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