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Antes que a seca chegue

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Antes que a seca chegue

Rio Negro, em Manaus (AM), na seca de 2023. Foto: William Duarte/Rede Amazônica AM

Por Olímpio Guarany

A seca ainda não chegou ao seu momento mais crítico. E talvez seja exatamente por isso que este seja o momento mais importante para falar sobre ela.

O terceiro boletim do Painel El Niño 2026–2027 elevou o sinal de alerta. Os modelos indicam alta probabilidade de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027, com possibilidade de um episódio muito forte. Para o trimestre setembro-outubro-novembro, a previsão aponta chuvas abaixo da média em parte do centro-norte do país, associadas a temperaturas elevadas e maior déficit hídrico.

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Para a Amazônia, a preocupação é objetiva.

Um El Niño intenso e prolongado pode significar menos chuva, temperaturas mais altas, menor disponibilidade de água e aumento da vulnerabilidade da floresta ao fogo.

Mas previsão não é sentença. Os impactos não acontecem da mesma forma em todos os territórios.

A ciência está nos avisando. A pergunta agora é: o que faremos com essa informação?

Quando a previsão chega à porteira

Para o pequeno produtor amazônico, El Niño não é apenas uma linha em um gráfico.

É menos chuva ou chuva fora de hora.

É menos água disponível.

É solo mais seco.

É incerteza sobre quando plantar.

É menos pastagem para os animais.

É risco para a produção e para a renda.

O desafio é transformar informação climática em prevenção.

Assistência técnica antes da perda.

Segurança hídrica antes da falta d’água.

Crédito para adaptação antes do prejuízo.

Informação antes da decisão de plantar.

Porque prevenir custa.

Mas reconstruir quase sempre custa mais.

O produtor não pode fazer tudo sozinho

Há providências que começam dentro da propriedade.

Conservar o solo, proteger fontes de água, armazenar água, diversificar a produção e ajustar o calendário agrícola podem reduzir riscos.

Mas existe um limite.

Não podemos colocar sobre o pequeno agricultor toda a responsabilidade pela adaptação climática.

Informação meteorológica precisa virar orientação técnica.

Tecnologia precisa ser acessível.

Crédito precisa chegar no momento adequado.

Segurança hídrica exige infraestrutura.

Antes que a seca chegue
Seca provoca desafios na área rural. Com a previsão de um El Niño muito forte, a preocupação vai além da seca: falta de chuvas, desmatamento e outros fatores também geram alerta. Foto: Reprodução/Agência Amazonas

Talvez esteja aí um dos maiores desafios da Amazônia rural: fazer uma previsão produzida por satélites e centros de pesquisa chegar à pequena propriedade na forma de uma decisão simples:

quando plantar, o que plantar, como proteger a água e como reduzir o risco de perder a produção?

A distância entre a ciência e a porteira precisa diminuir.

A preparação começou; agora precisa chegar à ponta

Neste mês, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico apresentou um plano específico de preparação para os impactos do El Niño 2026–2027 sobre os recursos hídricos brasileiros.

Entre as medidas estão salas de crise regionalizadas, acompanhamento das condições de seca, instrumentos regulatórios e articulação com ações voltadas à estiagem na Amazônia e no Pantanal.

É um passo importante porque muda a lógica.

Em vez de esperar o problema se transformar em emergência, busca-se acompanhar os sinais antes da fase mais crítica.

O Governo Federal também anunciou um planejamento de R$ 1,335 bilhão para preparação e resposta a possíveis impactos do El Niño, envolvendo abastecimento de alimentos, segurança alimentar, saúde, monitoramento hidrológico, fiscalização ambiental e prevenção e combate a incêndios.

As ações são coordenadas por uma sala de situação que reúne 24 ministérios e instituições.

São números expressivos.

Mas existe uma pergunta que os números, sozinhos, não respondem:

quanto disso chegará à Amazônia antes que o problema se transforme em emergência?

Esse será o verdadeiro teste da prevenção.

Preparar a agricultura para um novo clima

Também existem instrumentos permanentes que podem fazer parte dessa resposta.

O Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027 prevê R$ 85,2 bilhões em operações do Pronaf, além de ações envolvendo assistência técnica, compras públicas, irrigação, bioeconomia e adaptação climática.

Leia também: Seca e estiagem: entenda as diferenças entre os fenômenos que ocorrem na Amazônia

Seca lembra que é necessário preparação. Foto: Reprodução/Agência Amazonas

O desafio não é apenas criar políticas.

É fazê-las conversar entre si.

Monitoramento climático precisa conversar com assistência técnica.

Assistência técnica precisa conversar com crédito.

Crédito precisa conversar com adaptação.

E tudo isso precisa conversar com o produtor.

A bioeconomia também precisa ser resiliente

Nos últimos anos, a bioeconomia ganhou espaço como alternativa para conciliar floresta em pé, produção e geração de renda.

Esse caminho precisa continuar.

Mas devemos acrescentar uma palavra: resiliência.

Açaí, castanha, cacau, mel, frutos, óleos, pesca, extrativismo e sistemas agroflorestais dependem diretamente dos ciclos da natureza.

Não basta construir uma economia capaz de manter a floresta em pé.

Precisamos construir uma economia capaz de continuar gerando renda quando o clima colocar essa floresta — e quem vive dela — sob pressão.

Uma bioeconomia sustentável também precisa estar preparada para os extremos climáticos.

Ainda temos tempo

Talvez esta seja a informação mais importante.

Ainda temos tempo.

Não podemos controlar a temperatura do Pacífico.

Não podemos determinar quanto vai chover.

Mas podemos decidir o que fazer com o conhecimento que já temos.

Podemos identificar os territórios mais vulneráveis.

Levar informação ao produtor.

Fortalecer a assistência técnica.

Proteger fontes de água.

Financiar adaptação.

Preparar estoques e sistemas de abastecimento.

E colocar as próprias comunidades dentro das decisões.

A preparação começou em algumas frentes.

O desafio agora é fazer com que ela saia dos planos, atravesse as instituições e chegue aos territórios antes da emergência.

No meu artigo anterior fiz uma pergunta:

Quem vai pagar a conta da grande seca?

Agora acrescento outra:

quanto dessa conta ainda podemos evitar?

A resposta começa hoje.

Porque prevenção não começa quando o rio seca.

Não começa quando a lavoura morre.

Não começa quando a comunidade fica isolada.

Começa antes que a seca chegue.

Sobre o autor

Olímpio Guarany é jornalista, documentarista, economista e professor universitário. Durante dois anos navegou o rio Amazonas e diversos afluentes, desde sua foz até o rio Napo, no Equador. De barco, seguiu pelo rio Napo até o sopé da Cordilheira dos Andes. A partir dali, subiu a cordilheira até chegar a Quito, refazendo os caminhos de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia.

*O conteúdo é responsabilidade do colunista

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