Foto: Carlos Machado/Arquivo pessoal
No meio do Tocantins, estado da Amazônia Legal, uma formação conhecida como Serra da Cangalha esconde uma história de 200 milhões de anos. O que parece ser uma serra comum é, na verdade, uma gigantesca estrutura formada pelo impacto de um meteoro contra a superfície da Terra.
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Localizada no município de Campos Lindos, no norte do estado, a estrutura possui cerca de 13,5 quilômetros de diâmetro e é considerada um dos registros mais bem preservados desse tipo de impacto na região. Para pesquisadores, o local funciona como uma espécie de ‘arquivo’ geológico, capaz de revelar marcas de um acontecimento ocorrido entre 220 milhões e 250 milhões de anos atrás.
O professor e mestre em Geografia Carlos Augusto Machado, da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), explica que o próprio nome popular da formação pode causar uma interpretação equivocada.
“A Serra da Cangalha, na verdade, não é uma serra do ponto de vista geológico. Ela é uma formação criada por um meteoro. Porque uma serra é formada por ação das placas tectônicas das regiões que têm áreas de terremotos, como, por exemplo, a Cordilheira dos Andes. Então, não configura uma serra. Ela é, na verdade, um astroblema”, afirma.
Um astroblema é o termo utilizado para identificar marcas deixadas pelo impacto de meteoritos e asteroides. Popularmente, essas formações são conhecidas como crateras de impacto ou crateras de meteoros.
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A estrutura está inserida em uma área de Cerrado e apresenta características que a diferenciam da paisagem em volta. Segundo Machado, durante o período de seca, por exemplo, a área interna da cratera tende a concentrar água, enquanto as regiões próximas ficam mais secas, interferindo diretamente na dinâmica da vegetação e na presença de animais.
Marca de um impacto gigantesco
A formação teria surgido quando um corpo celeste, estimado em aproximadamente 20 mil toneladas, atingiu a região. De acordo com Carlos Augusto, o calor e a pressão produzidos pela colisão modificaram as rochas existentes na região, e entre as evidências estão formações como quartzitos e outras estruturas que apresentam características associadas a eventos de impacto.
“São rochas formadas por restos de outras rochas que foram transformadas pelo calor e pelo impacto, pela pressão da queda do asteroide”, explica.
A dimensão da estrutura é difícil de ser percebida por quem está no chão. É nas imagens aéreas e de satélite que o desenho da cratera ganha força.

Não é mais considerada apenas uma hipótese
Segundo o professor, a origem da Serra da Cangalha como estrutura de impacto já está comprovada cientificamente. Estudos realizados na área identificaram elementos suficientes para caracterizar a formação como uma cratera de meteoro.
A pesquisa científica sobre a região inclui levantamentos relacionados à idade das estruturas, aos tipos de materiais presentes e às transformações provocadas pelo impacto. Machado explica que, também foram realizados estudos acadêmicos sobre a influência da formação na paisagem, nos solos e na vegetação.
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De acordo com ele, pesquisadores de diferentes países já estiveram na região para estudar a formação, além de cientistas ligados à NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço, a agência do governo dos Estados Unidos responsável por pesquisar o espaço) e pesquisadores franceses que já realizaram trabalhos no local.
A descoberta tem relevância científica principalmente porque a estrutura permanece relativamente bem preservada. Para Machado, o interesse está menos em comprovar novamente a origem da formação e mais em aprofundar o conhecimento sobre os efeitos que o impacto provocou na paisagem ao longo do tempo.
Estrutura pode ser observada por satélites e drones
A dimensão da Serra da Cangalha faz com que as imagens de satélite sejam uma das principais ferramentas para a análise da formação. A estrutura também pode ser estudada com drones e tecnologias de maior precisão, como o LiDAR, equipamento que utiliza pulsos de laser para produzir informações detalhadas sobre o relevo.

Machado explica que esses recursos permitem analisar características que nem sempre são facilmente identificadas durante uma visita ao local, já que o formato geral da cratera, por exemplo, pode ser compreendido com maior precisão a partir de imagens aéreas.
“Hoje o acesso é facilitado, porque a estrada é pavimentada, passa mais ou menos 5 quilômetros dela. Só que é uma área que precisa de licença do NaturaTins para ser visitada. E também é porque a vegetação ali ainda é bem fechada. Se você não tiver um guia ou um representante do NaturaTins, é muito fácil se perder, sofrer um acidente devido à inclinação do relevo. E também ali a região tem animais selvagens, como onças”, explicou Machado.
Uma paisagem diferente durante a seca
De acordo com o professor, na parte interna da estrutura, a maior disponibilidade de água contribui para condições diferentes das encontradas no entorno. Algumas espécies de palmeiras podem ser observadas nessas áreas, enquanto a vegetação continua sendo predominantemente formada por espécies características do Cerrado.
A concentração de água também influencia a fauna. Machado explica que durante a estação seca, quando o entorno apresenta condições mais secas, a área interna da cratera pode funcionar como ponto de concentração de animais.
Essa diferença ambiental faz da estrutura não apenas um objeto de interesse geológico, mas também uma área relevante para estudos de geodiversidade, fauna, flora e mudanças na paisagem.
Principais atividades no entorno
A Serra da Cangalha está localizada em uma região marcada pela expansão de atividades agrícolas, especialmente pelo cultivo de soja e milho. Para o pesquisador, os principais riscos ambientais relacionados à área estão associados ao desmatamento e às queimadas. A retirada da cobertura vegetal pode favorecer processos erosivos e provocar impactos sobre os ambientes naturais existentes na região.

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A ausência de atividades de mineração na área também reduz um tipo de pressão direta sobre a estrutura. Ainda assim, a ocupação do entorno exige monitoramento para evitar alterações ambientais que possam comprometer a biodiversidade e os estudos científicos realizados no local.
“Na área não existe nenhum tipo de mineração, basicamente o mais ameaçado seria a fauna e a flora. A estrutura em si é bem rígida e não teria grandes alterações”, destacou Machado.
Monitoramento e proteção ambiental
A área é acompanhada pelo Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins). A visitação, segundo Machado, precisa ser realizada de maneira controlada e planejada.
A dificuldade de acesso e as características do ambiente são alguns dos fatores que limitam a presença de visitantes. Além da vegetação fechada e do relevo irregular, existem riscos relacionados à presença dos animais silvestres.
“É muito fácil a ocorrência de cobras na região. Inclusive a gente não leva alunos lá, porque é uma área de difícil acesso. Ela tem que ser preparada para visitação”, explicou o professor.
Geoturismo depende de planejamento
Assim, a Serra da Cangalha apresenta potencial para se tornar uma área de interesse turístico, principalmente pela sua importância geológica e pelo formato singular da estrutura. Entretanto, a exploração turística depende de estudos e medidas de segurança.
“A área tem proteção para o geoturismo desde que seja feito um diagnóstico ambiental, ou seja, estudo de impacto ambiental e desenvolvido um plano de manejo, com as diretrizes para ocupação local. Então, isso é um processo ainda longo, depois que a área foi transformada em área de proteção ambiental, um mapa, aí pode dar início à questão do geoturismo”, explicou o professor.
Entre as estruturas necessárias estariam caminhos adequados, passarelas, sinalização, pontos de orientação e preparação de guias para acompanhar os visitantes. O desenvolvimento do geoturismo também precisaria considerar a conservação da fauna e da flora, além das características do relevo.
Origem do nome está relacionada ao formato
Apesar de o nome ‘Serra da Cangalha’ não representar a classificação geológica da formação, ele permaneceu associado ao local.

Segundo o pesquisador, o termo ‘cangalha’ faz referência a um equipamento utilizado tradicionalmente em jumentos e mulas para transportar cargas. “Provavelmente devido ao formato oval da cratera a população associou ao cesto de mercadorias”, destacou.
Não há, porém, uma informação precisa sobre quando o nome começou a ser utilizado ou quem foi responsável por adotá-lo.
O que ainda pode ser descoberto?
A origem da Serra da Cangalha já está estabelecida, mas isso não significa que as pesquisas tenham terminado. O foco atual, segundo Carlos Augusto Machado, está cada vez mais relacionado à geodiversidade e à maneira como a estrutura influencia o ambiente.
“A pesquisa da Serra da Cangalha não está indo no sentido de aprofundar a parte geológica de pesquisa das rochas, isso já foi feito, datação, o que mais está sendo realizado nesse momento é isso sobre geodiversidade”, destaca.
Pesquisadores podem investigar, por exemplo, como o impacto contribuiu para modificar o relevo, os solos e a distribuição da vegetação, além de compreender melhor sua relação com a fauna.
A Serra da Cangalha é mais do que uma formação curiosa do relevo tocantinense. Ela reúne ciência, biodiversidade, história geológica e potencial turístico em uma mesma paisagem.
Um corpo de aproximadamente 20 mil toneladas atravessou a atmosfera e atingiu a Terra há mais de 200 milhões de anos. O impacto durou apenas alguns instantes, a marca, porém, permanece.
O post Serra da Cangalha: a cratera de meteoro que é uma das estruturas mais preservadas do Brasil apareceu primeiro em Portal Amazônia.
