Foto: Reprodução/Mundo Educação
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial central e leste. Essa mudança na temperatura do oceano interfere na circulação da atmosfera e pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do país.
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Para os próximos meses, o cenário exige atenção. De acordo com o Boletim nº 3 do Painel El Niño 2026–2027, divulgado em 1º de setembro pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), em conjunto com outros órgãos de monitoramento climático e ambiental, há maior probabilidade de chuva acima da média em parte da Região Sul, enquanto as regiões Norte e Nordeste apresentam maior probabilidade de volumes de chuva abaixo da média.
Mas por que o mesmo fenômeno pode estar associado à seca em uma parte do país e ao aumento das chuvas em outra?
O que acontece na atmosfera?
Segundo o meteorologista Leonardo Vergasta, o aquecimento do Pacífico altera a chamada “circulação de Walker”, um sistema de circulação atmosférica que conecta o Pacífico à América do Sul.
“O El Niño é o aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico equatorial central e leste. Esse aquecimento desloca para leste a região onde o ar ascende e se formam as chuvas, reorganizando a circulação de Walker, a circulação atmosférica que conecta o Pacífico à América do Sul”, explica.
De acordo com ele, essa reorganização faz com que o ar descendente da circulação atmosférica se posicione sobre a Amazônia e outras áreas do Norte do país.

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O meteorologista explica que o movimento de descida do ar, chamado de subsidência, dificulta a formação de nuvens. “O ar em subsidência (de cima para baixo) aquece e perde umidade relativa, inibindo a formação de nuvens. O resultado é menos chuva, mais radiação solar incidente chegando à superfície e temperaturas mais elevadas”.
O solo mais seco também interfere no ciclo da água
Vergasta explica também que, com o solo seco a floresta reduz a evapotranspiração, perda de água da superfície da Terra para a atmosfera por meio da evaporação do solo e da transpiração das plantas, e devolve menos vapor d’água à atmosfera. Sem essa reciclagem de umidade, a precipitação reduz ainda mais.
Esse processo pode criar um ciclo de retroalimentação: menos chuva deixa o solo mais seco, a vegetação libera menos umidade para a atmosfera e, consequentemente, há menos vapor disponível para a formação de novas chuvas.
Segundo o meteorologista, esse encadeamento esteve associado ao agravamento das secas de 2015 e 2023 na bacia amazônica.
E por que chove mais no Sul?
Enquanto a região Norte pode experimentar essa redução das chuvas, o Sul do Brasil tende a apresentar um comportamento diferente durante episódios de El Niño. De acordo com Vergasta, o fenômeno pode intensificar e deslocar o jato subtropical, uma corrente de ventos fortes localizada a cerca de 10 quilômetros de altitude.
“O jato favorece sistemas frontais (frentes frias) mais organizados e retarda seu deslocamento, prolongando a permanência das frentes frias sobre a região Sul”, explica.

A combinação desses fatores com o transporte de calor e umidade proveniente da Amazônia e as mudanças na intensidade e direção dos ventos com a altitude pode favorecer condições para tempestades severas, granizo e, eventualmente, tornados.
A maior frequência de frentes frias também pode contribuir para a ocorrência de avanços de ar polar e de períodos mais encobertos.
“Trata-se, portanto, de um único fenômeno: dois ramos opostos da mesma circulação”, resume o meteorologista.
O que o El Niño pode provocar no Brasil?
É por esses fatores que Boletim nº 3 do Painel El Niño 2026–2027 aponta que, para o trimestre de setembro, outubro e novembro, os efeitos não devem ser iguais em todo o território brasileiro.
Na Região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, além de áreas de São Paulo e Mato Grosso do Sul, existe maior probabilidade de volumes de chuva acima da média histórica. Esse cenário exige atenção para a possibilidade de episódios de chuva intensa, cheias e inundações, principalmente no Rio Grande do Sul.
No sentido oposto, Norte e Nordeste apresentam maior probabilidade de chuva abaixo da média. Também há áreas do Brasil Central e do Sudeste, como partes de Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo, com maior probabilidade de chuvas abaixo da média.
As temperaturas, por sua vez, tendem a permanecer acima da média em grande parte do território nacional.
Isso não significa, porém, que o frio deixará de ocorrer. A passagem de massas de ar frio ainda pode provocar episódios pontuais de queda de temperatura, especialmente durante a transição entre o inverno e a primavera (no segundo semestre do ano).
Estiagem pode aumentar risco de incêndios
Nas regiões Norte e Central do Brasil, a combinação entre temperaturas elevadas e períodos prolongados de estiagem pode aumentar as condições favoráveis à propagação de incêndios.

De acordo com o INMET, na Amazônia Legal e no Pantanal, o período entre setembro e novembro normalmente marca a transição entre a estação seca e a chuvosa, mas com a possibilidade de prolongamento das condições de estiagem, algumas áreas podem ter redução da disponibilidade de água e maior vulnerabilidade aos incêndios florestais.
El Niño forte significa eventos extremos mais severos?
Não necessariamente.
De acordo com o INMET, a intensidade do El Niño, por si só, não determina a intensidade dos impactos em todas as regiões do Brasil. Um episódio mais intenso pode aumentar a probabilidade de determinados padrões de chuva e temperatura, mas os eventos específicos dependem da interação entre diferentes fatores atmosféricos e oceânicos.
Isso significa que nem toda chuva intensa, seca, tempestade ou outro evento extremo registrado durante um El Niño é necessariamente causado diretamente pelo fenômeno. Frentes frias, ciclones, sistemas convectivos, massas de ar e outros mecanismos atmosféricos também influenciam as condições observadas em cada região.
O post Portal Amazônia responde: por que o El Niño provoca seca na região Norte e chuvas na região Sul? apareceu primeiro em Portal Amazônia.

