De La Niña a um possível El Niño muito forte: Imagem de 3 de agosto de 2026, feita com dados do satélite Sentinel-6 Michael Freilich, mostra mudanças no nível do Oceano Pacífico associadas ao El Niño. Foto: Sentinel-6 Michael Freilich/NASA/NOAA
De acordo com a última atualização do NOAA/CPC (agência oficial dos Estados Unidos que fornece previsões climáticas, monitoramento em tempo real e alertas sobre o clima global e o ciclo El Niño-Oscilação Sul (ENOS)), em agosto, as anomalias da temperatura da superfície do mar (TSM) ultrapassaram os 3°C no Pacífico Equatorial Leste. Esse aumento da TSM, juntamente com os outros índices de medição, indicam uma intensificação constante do El Niño até o final de 2026.
Além disso, a probabilidade, no Hemisfério Sul, de um evento muito forte durante a primavera e o verão de 2026–2027, supera os 90%, enquanto há probabilidade de 75% de ser o evento mais forte registrado desde 1950, durante o trimestre outubro–novembro-dezembro de 2026.
📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp
Os boletins mensais do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (CPC/NOAA), órgão meteorológico norte-americano, permitem verificar como as projeções para o El Niño–Oscilação Sul (ENOS) se modificaram ao longo de 2026, evidenciando a necessidade de atualização contínua das previsões climáticas. A sequência dos boletins permite acompanhar a transição de uma condição de La Niña para a fase de neutralidade e, posteriormente, o desenvolvimento e a intensificação de uma condição de El Niño, além das mudanças nas previsões para os meses seguintes.
As condições de La Niña e El Niño se alternam ao longo do tempo, intercaladas por períodos de neutralidade, em um ciclo associado ao ENOS. Dessa forma, à medida que novas informações sobre o estado do oceano e da atmosfera são incorporadas aos modelos, as projeções são atualizadas e podem apresentar mudanças significativas ao longo dos meses.
O ENOS é um fenômeno natural associado à interação entre o oceano e a atmosfera no Pacífico equatorial. O fenômeno apresenta três fases: El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais do Pacífico equatorial central e leste; La Niña, marcada pelo resfriamento dessas águas; e a fase de neutralidade, quando não são observadas condições características de El Niño/La Niña. Essas fases não ocorrem de maneira regular, mas se alternam de forma irregular, geralmente em intervalos de dois a sete anos.
Leia também: Portal Amazônia responde: como El Niño e La Niña afetam a região amazônica?

As alterações associadas ao ENOS modificam os padrões de circulação atmosférica, temperatura e precipitação em diferentes partes do planeta. Por essa razão, embora seja um fenômeno natural, suas diferentes fases podem exercer influência significativa sobre o clima de diversas regiões, inclusive do Brasil.
A caracterização do ENOS, portanto, depende da análise conjunta das condições oceânicas e atmosféricas. Como essas condições evoluem ao longo do tempo, o acompanhamento do fenômeno também requer a avaliação contínua das projeções climáticas, que permitem estimar a probabilidade de manutenção, transição ou estabelecimento de determinada fase do ENOS nos meses seguintes. Essas projeções são atualizadas regularmente à medida que novas observações são incorporadas aos modelos, podendo apresentar mudanças tanto na intensidade quanto na probabilidade de ocorrência de El Niño, La Niña ou condições neutras. A evolução dessas previsões ao longo de 2026 permite compreender como as expectativas para o comportamento do ENOS foram sendo modificadas.
Leia também: Mais de duas mil localidades da Amazônia estiveram altamente expostas à seca durante o El Niño em 2024
Evolução das projeções do ENOS em 2026
8 de janeiro de 2026 — La Niña ainda estava presente
Em janeiro, a condição observada ainda era de La Niña, e a NOAA mantinha o status de Aviso de La Niña. A previsão indicava 75% de probabilidade de transição para condições neutras entre janeiro e março. Naquele momento, a neutralidade era considerada o cenário mais provável até pelo menos o final do outono do Hemisfério Sul. A NOAA já identificava um aumento das chances de ocorrência de El Niño em horizontes mais longos, mas destacava a elevada incerteza associada a essas projeções.
12 de fevereiro — cenário ainda favorecia neutralidade
Em fevereiro, a fase La Niña ainda permanecia como condição observada, mas os sinais indicavam que esse episódio se aproximava do fim. A NOAA apontava 60% de probabilidade de transição para condições neutras entre fevereiro e abril, enquanto a probabilidade de manutenção da neutralidade entre junho e agosto chegava a 56%. Naquele momento, portanto, o cenário ainda favorecia a neutralidade, sem indicação de alta confiança para o estabelecimento do El Niño.
12 de março — NOAA inicia Vigilância de El Niño
Em março, a La Niña ainda permanecia como condição observada, mas já apresentava sinais de enfraquecimento. Ao mesmo tempo, as perspectivas para os meses seguintes começaram a mudar de forma mais significativa. Apesar de manter o Aviso de La Niña, a NOAA entrou em estado de Vigilância de El Niño (El Niño Watch). A probabilidade de formação do El Niño entre junho e agosto aumentou para 62%, e as projeções indicavam a possibilidade de que o fenômeno persistisse pelo menos até o final de 2026.
9 de abril — La Niña termina e possibilidade de El Niño aumenta
Em abril, as condições observadas passaram para neutralidade, caracterizando um período de ENOS-neutro. Com o encerramento da La Niña, a NOAA retirou o Aviso de La Niña, mas manteve o estado de Vigilância de El Niño. A probabilidade de formação do El Niño entre maio e julho chegou a 61%, e as projeções indicavam a possibilidade de continuidade do fenômeno pelo menos até o final do ano.
14 de maio — probabilidade de El Niño sobe para 82%
Em maio, as condições observadas ainda eram classificadas como ENOS-neutro, mas o aquecimento do Pacífico Equatorial já se tornava mais evidente. O índice semanal Niño 3.4 atingiu +0,4 °C, aproximando-se do limiar utilizado como referência para condições de El Niño. Diante da evolução das condições oceânicas e atmosféricas, a NOAA passou a indicar 82% de probabilidade de estabelecimento do El Niño entre maio e julho. Para dezembro de 2026 a fevereiro de 2027, a probabilidade de permanência do fenômeno chegou a 96%.
11 de junho — El Niño é oficialmente declarado
Em junho, o El Niño já era a condição observada, ainda em estágio inicial de desenvolvimento. Após confirmar o estabelecimento das condições do fenômeno, a NOAA alterou o status para Aviso de El Niño (El Niño Advisory). O índice semanal Niño 3.4 atingiu +0,7 °C, valor que, considerando a magnitude da anomalia naquele momento, situava-se na faixa associada a um El Niño fraco. Apesar disso, as projeções já indicavam um rápido fortalecimento do fenômeno em direção ao final de 2026 e ao verão 2026/2027 do Hemisfério Sul.
Leia também: “El Niño não coloca fogo na vegetação; no Brasil, a ignição é humana”, declara diretora de Ciência do IPAM

9 de julho — El Niño continua se fortalecendo
Em julho, o El Niño já apresentava intensidade moderada e continuava em processo de fortalecimento. O índice semanal Niño 3.4 alcançou +1,2 °C, valor associado a um episódio de intensidade moderada. A NOAA informou que o fenômeno continuaria se intensificando até o final do ano e estimou em 97% a probabilidade de sua permanência até o início do outono de 2027 no Hemisfério Sul. Embora a tendência de intensificação já estivesse claramente estabelecida, naquele momento o fenômeno observado ainda não havia alcançado a faixa de forte intensidade.
13 de agosto — Probabilidade superior a 90% de El Niño muito forte
Em agosto, o El Niño seguia em rápida intensificação, com os valores observados na região Niño 3.4 próximos da transição entre as faixas de intensidade moderada e forte. A média mensal do Niño 3.4 referente a julho chegou a +1,4 °C, enquanto outras regiões do Pacífico apresentavam aquecimento ainda mais expressivo, com o Niño 1+2 atingindo +2,9 °C.
A anomalia de +1,4 °C na região Niño 3.4 encontrava-se no limite superior da faixa normalmente associada a um El Niño moderado e próxima do patamar de forte intensidade. Ao mesmo tempo, as projeções indicavam o rápido fortalecimento do fenômeno. A NOAA passou a indicar probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte durante o a primavera de 2026 e o verão de 2026/2027 no Hemisfério Sul.
10 de setembro — Probabilidade de 75% de ser o evento mais forte registrado desde 1950
O El Niño se intensificou ainda mais em agosto, com as anomalias da temperatura da superfície do mar excedendo +3,0 °C no Pacífico Equatorial Leste. Com exceção do índice Niño 4, que diminuiu para +0,1 °C, os valores dos demais índices Niño aumentaram, atingindo +1,8 °C na região Niño 3.4, +2,5 °C na região Niño 3 e +3,4 °C na região Niño 1+2.
O El Niño continuará se intensificando até o final de 2026. A NOAA indicou probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte durante a primavera e o verão de 2026–2027 no Hemisfério Sul e probabilidade de 75% de ser o evento mais forte registrado desde 1950, durante o trimestre outubro–novembro-dezembro (OND) de 2026. Com um evento dessa magnitude, aumentam as chances de ocorrência de impactos consistentes com o El Niño.
Por que o cenário projetado se altera ao longo do tempo?
A evolução das previsões ao longo de 2026 não representa uma contradição, mas reflete o processo natural de atualização das informações disponíveis. Essa é uma característica fundamental da ciência meteorológica e climática: as previsões são atualizadas à medida que novas informações são incorporadas.
No início do ano, havia maior incerteza sobre a evolução das condições do Pacífico Equatorial do que nos meses seguintes. Além das limitações naturais dos modelos em representar a complexa interação oceano-atmosfera, as condições observadas ainda não forneciam sinais suficientemente claros sobre a evolução do fenômeno.
Com o avanço de 2026, o aquecimento das águas superficiais e subsuperficiais se intensificou, enquanto a atmosfera passou a responder a esse aquecimento de forma cada vez mais consistente com o desenvolvimento do El Niño. Com a incorporação de novas observações, os modelos também passaram a apresentar maior concordância, permitindo ajustes nas projeções e aumentando gradualmente a confiança nos cenários indicados.
É por isso que previsões realizadas com muitos meses de antecedência devem ser interpretadas em termos de probabilidades e tendências, e não como indicações de algo que necessariamente irá acontecer. À medida que novas observações são incorporadas e a evolução do sistema se torna mais clara, as projeções podem ser ajustadas, com aumento ou redução das probabilidades inicialmente estimadas.
*Com informações do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET)
O post De La Niña a um possível El Niño muito forte: veja a evolução das projeções em 2026 apareceu primeiro em Portal Amazônia.

