Izaias registrou imagens inéditas de aves no estado para a plataforma WikiAves. Atualmente, o jovem já teve contato com mais de 350 espécies na região. Foto: Thiago Willian
Aos 23 anos, Izaias Gomes da Silva, morador de Mâncio Lima, no interior do Acre, encontrou na observação de pássaros uma forma de conhecer mais profundamente a biodiversidade da Amazônia e passou a conduzir visitantes interessados em conhecer as espécies da região.
Izaias nasceu em Cruzeiro do Sul, também no interior do Acre, e foi criado em Mâncio Lima, passando grande parte da infância na região da Serra do Divisor. Mesmo crescendo próximo à floresta, foi somente em 2024 que teve o primeiro contato com a observação de aves, durante uma oficina de observação e interpretação ambiental feita em uma comunidade.
“Caí de paraquedas e não conhecia nada sobre o assunto, nunca tinha ouvido falar, na verdade. Durante as atividades práticas fui me identificando e gostando”, contou.
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A observação de aves, ou birdwatching, é uma atividade baseada no interesse por aves livres. No Brasil, o interesse pela prática também explodiu, especialmente durante e após a pandemia. Segundo o 3º Censo Brasileiro de Observação de Aves, 38% dos praticantes afirmaram ter começado a atividade nos últimos quatro anos.
A mudança, segundo Izaias, ocorreu durante uma atividade de campo, em 3 de junho daquele ano, quando ele acompanhou o biólogo e ornitólogo Ricardo Plácido. A experiência fez com que ele passasse a prestar atenção em algo que antes poderia passar despercebido: os sons, cores e comportamentos das aves presentes na floresta.
Foi nesse momento que, conforme o jovem, “a chave virou”. Izaias detalha ainda que a cada espécie observada aumentava sua curiosidade. Entre os momentos que mais marcaram o início de sua trajetória estão a observação do surucuá-pavão (Pharomachrus pavoninus) e o capitão-de-bigode-limão (Eubucco richardsoni).
“Poder ver a beleza e detalhes das aves com mais atenção foi acendendo ainda mais o desejo de dar continuidade às observações depois que o curso acabasse”, relatou.
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Nos meses seguintes, as saídas de Izaias para observar aves continuaram. Na maioria das vezes, ele percorria a floresta sozinho e utilizava um aplicativo de celular para ajudar na identificação das espécies.
“E a ajuda do amigo Ricardo Plácido, que é um grande estimulador de minha trajetória. Em junho de 2025 fomos contemplados com kits para auxiliar nas observações, o que ajudou muito”, disse.

Novos desafios
Com aproximadamente um ano de experiência, veio também um novo desafio: começar a conduzir outras pessoas pelas áreas onde havia aprendido a identificar e observar as aves. Segundo ele, a primeira condução ocorreu em setembro do ano passado.
“E em 2026 a procura aumentou. Conduzo regularmente para a Serra do Divisor e na área urbana de Mâncio Lima até o momento”, explicou.
A procura também cresceu após a repercussão de expedições e vídeos publicados por canais no Youtube. Além disso, Izaias também participou de uma expedição ao ponto extremo Oeste do Brasil e na região do Marco 76, na fronteira com o Peru, onde fazia parte da equipe com outros dois condutores.
O jovem também conduziu uma equipe na Serra do Divisor em uma produção que mostrou a observação de aves como um dos atrativos turísticos do parque.
“Ainda em 2025 participei da Feira Internacional de Turismo (Festuris), em Gramado, no Rio Grande do Sul, onde junto com a Secretaria de Turismo do Acre pude mostrar um pouco da Serra do Divisor como atrativo turístico”, detalhou.
Registros de espécies
Além de conduzir os visitantes, as observações também contribuíram para ampliar os registros de aves no estado. Durante as atividades, Izaias fez a primeira fotografia para a plataforma WikiAves, utilizada como fonte para diversos tipos de levantamento, da choca-preta (Neoctantes niger) no Acre.
O jovem também registrou as primeiras fotografias da espécie socoí-vermelho (Ixobrychus exilis) para o estado na plataforma, contribuindo para confirmar a presença da ave no território acreano.

“A atividade de observação de aves é uma atividade de conservação de baixo impacto. Ela ajuda no levantamento de informações sobre a avifauna da região, descobrimento de novas espécies, informações sobre os movimentos migratórios das aves e consequentemente de outros animais, já que quando se está no mato, se fotografa tudo que aparece”, afirmou.
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Para ele, a atividade também pode ajudar a aproximar as pessoas da necessidade de preservar os ambientes onde essas espécies vivem.
“Esse deve ser o maior intuito da observação, a conservação e a preservação das espécies e dos ambientes onde elas ocorrem. E a observação de aves, mais especificamente o Turismo de Observação de aves, tem esse propósito, poder observar as aves no seu habitat natural, com ética e respeito”, defendeu.

Terapia
Atualmente, Izaias estima já ter tido contato com mais de 350 espécies que, segundo ele, podem ser encontradas na região onde trabalha. Para o jovem, conduzir grupos exige atenção não apenas às aves, mas também às características de cada visitante.
“É um desafio conduzir esse tipo de atividade, pois olhos e ouvidos devem estar sempre atentos. Além do cuidado com os visitantes nas trilhas que deve ser prioridade total”, afirmou.
De acordo com ele, cada grupo apresenta uma dinâmica diferente. Há quem esteja interessado principalmente em fotografar, quem queira registrar os sons ou aqueles que preferem apenas observar com binóculos.

Para o guia, é necessário adaptar o ritmo e a condução a cada perfil. Apesar dos desafios, a atividade também se tornou uma forma de bem-estar.
“Mas, além disso, é uma terapia poder observar as aves. Ainda mais se for acompanhado de pessoas apaixonadas pelas aves como eu”, comentou.
A intenção, segundo Izaias, é continuar mostrando a biodiversidade amazônica para mais pessoas, além de incentivar uma relação de respeito com a fauna.
“Essa é minha missão, mostrar as aves para as pessoas e influenciar para que elas gostem tanto das aves quanto eu. Tive o privilégio de passarinhar com muita gente que são apaixonados pelas aves, e me inspiraram até aqui e os agradeço imensamente”, resumiu.
Para quem não conhece a atividade, o jovem convida a experimentar a observação de aves na natureza e descobrir espécies que muitas vezes estão próximas, mas passam despercebidas.
“Poder observar aves livres nos seus ambientes é algo que não tem preço, e tenho certeza que quem se aventurar nessa atividade vai se encantar pelas nossas joias de penas do Acre”, finalizou.
*Por Pâmela Celina, da Rede Amazônica AC
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