Peixe serra (Scomberomorus brasiliensis), por exemplo, teve pico de desembarque em 1998, com 12,255 toneladas, e declínio para 4,684 toneladas em 2007. Foto: Zach Klein / Wikimedia Commons
Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) sobre a pesca no litoral do estado durante uma década mostra a redução na captura de grandes predadores e crescimento da presença de peixes menores no desembarque. Os resultados estão publicados em artigo na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências e apontam para uma maior pressão sobre os recursos pesqueiros e mudanças no equilíbrio do ecossistema costeiro.
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Para o levantamento, foram utilizados dados históricos de desembarque pesqueiro no Pará entre 1997 e 2007. A equipe avaliou dados como as mudanças nas espécies que compõem as capturas e a variação do nível trófico médio, que mostra a posição ocupada pelos organismos na cadeia alimentar.
A produção total de pescados teve um pico de cerca de 2400 toneladas médias anuais desembarcadas em 1998 e reduziu quase pela metade em 2007. Destaca-se a diminuição geral de grandes peixes carnívoros. A serra (Scomberomorus brasiliensis) teve pico de desembarque em 1998, com 12,255 toneladas, e declínio para 4,684 toneladas em 2007, enquanto a captura da pescada amarela (Cynoscion acoupa), a espécie mais visada, permaneceu estável no período.
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Já o nível trófico médio das capturas reduziu de 3,65 para 3,58. “Embora a produção total de pescados tenha tido picos e depois caído, houve uma queda progressiva e contínua no nível trófico médio das capturas. Isso significa que estamos capturando cada vez menos predadores do topo da cadeia e mais espécies de menor porte”, explica o biólogo Ítalo Lutz, autor principal do trabalho.
O artigo considera que a pressão pesqueira provavelmente foi o principal fator associado à mudança observada. Segundo os autores, durante o período analisado, houve expansão da frota na região e investimentos em embarcações com maior autonomia, incluindo motores mais potentes e câmaras frias. Embora condições ambientais também possam interferir na composição das capturas, a queda contínua dos grandes predadores reforça a hipótese de sobrepesca.
Os efeitos podem ser ecológicos e econômicos. A retirada de grandes carnívoros pode provocar desequilíbrios na teia alimentar e reduzir a biodiversidade. Ao mesmo tempo, a diminuição de espécies de maior valor comercial pode afetar a rentabilidade da atividade e a renda de comunidades que dependem da pesca, além de comprometer a oferta de pescado para populações costeiras.
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Recomendações para estudo da pesca
Entre as principais recomendações do estudo, está a retomada urgente de um sistema permanente de estatísticas pesqueiras, com identificação correta das espécies e coleta padronizada de informações. Os cientistas ainda defendem o uso de indicadores ecológicos, como o nível trófico médio, para acompanhar os efeitos da atividade pesqueira sobre o ecossistema.
Outra medida apontada é a adoção de estratégias de manejo baseadas no ecossistema, que considerem não apenas a espécie-alvo, mas também as relações entre os organismos, os habitats e os impactos provocados pela atividade extrativa. O grupo recomenda ainda medidas específicas para proteger predadores de níveis tróficos mais altos e mais vulneráveis.
Segundo Lutz, o próximo passo da pesquisa é buscar dados mais recentes e incorporar variáveis ambientais, como temperatura do mar e alterações relacionadas ao rio Amazonas, para avaliar se o padrão identificado permanece o mesmo.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori.
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