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Pesquisa identifica resíduos da atividade pesqueira na Ilha de Algodoal no Pará

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Pesquisa identifica resíduos da atividade pesqueira na Ilha de Algodoal no Pará

Pesquisa foi realizada na Ilha de Algodoal. Foto: Gildo Júnior/Bora de Trip

O verão amazônico começou e, com ele, a temporada mais movimentada nas praias do litoral paraense. Principalmente no mês de julho, famílias, turistas e moradores são atraídos pela paisagem que faz do mês das férias escolares um dos períodos mais aguardados do ano. Mas, quem caminha por essas praias no início do dia, antes da movimentação começar, costuma esbarrar em um curioso tipo de vestígio: pedaços de corda, redes de nylon rasgadas, boias de isopor e fios que a maré deposita na areia.

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Esses materiais têm nome técnico: ALDFG, sigla em inglês para Abandoned, Lost or otherwise Discarded Fishing Gear, os petrechos de pesca abandonados, perdidos ou descartados. O fenômeno não é exclusivo de uma única praia. Ele se repete ao longo de boa parte da costa amazônica, em locais onde a pesca artesanal convive, lado a lado, com o turismo de verão.

A dissertação Petrechos de pesca como resíduo praial em uma área de proteção ambiental na costa paraense da bióloga Elaine Simone da Cruz Silva Silva ajuda a entender esse fato. A pesquisa teve como área de estudo a Ilha de Algodoal, no município de Maracanã, que reúne, como muitas praias amazônicas, forte tradição pesqueira e um turismo frequente.

Poderia parecer que o aumento de visitantes no verão explica o acúmulo de resíduos pesqueiros nas praias, mas os dados da pesquisa mostram outra história. Segundo Elaine, os petrechos de pesca abandonados, perdidos ou descartados têm origem, sobretudo, na atividade pesqueira já intensa nessas regiões e não no fluxo turístico.

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A prova está na comparação entre as quatro praias estudadas na ilha: Caixa d’Água, Farol, Princesa e Cação. A Caixa d’Água, mais próxima do porto e das embarcações, e que reúne rochas e vegetação de mangue juvenil, foi de longe a mais afetada: 274 dos 459 itens recolhidos na pesquisa vieram de lá, totalizando 6,35 kg de material.

Já a praia da Princesa, a mais turística de Algodoal, justamente aquela que recebe o público no veraneio, foi a que apresentou a menor quantidade de resíduos. A explicação, segundo a pesquisadora, é dupla: ali não há currais de pesca instalados, e a limpeza diária feita pela comunidade e por frequentadores da praia remove boa parte do lixo antes que ele se acumule.

“Com esses dados, a gente viu que a pesca é uma fonte reconhecida de petrechos abandonados, perdidos ou descartados”, afirma Elaine. Isso não isenta o turismo de responsabilidade, mas reposiciona o problema: é a pesca artesanal, atividade central na economia de praias como as de Algodoal, que mais deixa vestígios na areia.

Risco de poluição química e emaranhamento de animais

Um dos achados mais surpreendentes da pesquisa foram os 1.543 organismos vivos encontrados colonizando os petrechos em Algodoal, principalmente cracas, mas também bivalves, caranguejos, poliquetas, anêmonas e outros grupos. Uma única corda recolhida na linha de maré baixa da praia do Cação abrigava sozinha 364 animais de sete grupos diferentes.

Isso é bom ou ruim? A resposta, segundo Elaine da Cruz Silva Silva, ainda não é definitiva:

“Pode representar um aspecto positivo para a colonização, pois funciona como um substrato que esses organismos podem utilizar para se fixar. Por outro lado, também pode gerar impactos negativos, caso esses resíduos estejam liberando ou acumulando substâncias que sejam filtradas pelos organismos, comprometendo seu desenvolvimento e a dinâmica da colonização”.

Pesquisa identifica resíduos da atividade pesqueira na Ilha de Algodoal no Pará
Fotos: Reprodução/Petrechos de pesca como resíduo praial em uma área de proteção ambiental na costa paraense

Além da possível poluição química, o maior risco direto é o emaranhamento de animais maiores, um problema já registrado em diferentes pontos do litoral amazônico. A pesquisadora destaca casos de tartarugas marinhas presas em redes de pesca abandonadas, incluindo o resgate, em 2023, de uma tartaruga-de-couro — espécie ameaçada de extinção — encontrada emaranhada na praia da Princesa, primeira ocorrência da espécie já registrada na região.

Para quem for passar o verão em praias com presença de pesca ativa, redes fixas ou embarcações, alguns materiais merecem atenção redobrada. Cordas desgastadas e fragmentos de rede são os sinais mais comuns de ALDFG. Na pesquisa, dos 459 itens recolhidos, os mais comuns foram fragmentos (191), cabos elétricos (114), cordas (78) e redes de pesca (47), seguidos de telas de curral, boias de poliestireno, emaranhados e barbantes.

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Uma descoberta chamou atenção da própria equipe: o uso de cabos, sobretudo aqueles utilizados em instalações telefônicas, como amarração de currais de pesca. Resistentes ao vento e à correnteza, esses cabos vêm substituindo as cordas tradicionais e acabam abandonados presos as rochas, tornando-se o segundo tipo de resíduo mais comum na ilha.

“Encontramos muito cabo elétrico, principalmente onde tinha curral. Então, talvez o turista possa ver um cabo elétrico por lá, mas sem associar à pesca”, explica a pesquisadora.

O material predominante entre os ALDFG encontrados em Algodoal é o nylon (58%), seguido por cobre e plástico (25%) — reflexo direto do uso desses cabos elétricos. A cor mais recorrente é o azul, presente em metade de todo o material coletado.

O que fazer se encontrar um ALDFG na praia

A pesquisadora dá uma recomendação que vale para quem visita qualquer praia do litoral paraense neste verão: recolher o material sempre que possível, especialmente redes de pesca, e descartá-lo em uma lixeira. A dificuldade, reconhece Elaine Cruz Silva Silva, é estrutural — muitas comunidades pesqueiras, incluindo Algodoal, ainda não contam com pontos de coleta específicos para que os próprios pescadores descartem petrechos danificados, o que favorece o acúmulo de resíduos nas praias.

A bióloga reforça a importância da ação individual: “O ideal é que as pessoas recolham, depositem numa lixeira ou deixem em local separado. É muito perigoso deixá-los à solta. No caso das redes, elas podem causam um impacto maior ao emaranhar os animais”, finaliza.

Para quem aproveita o verão amazônico nas praias fluviais e marítimas do Pará, a pesquisa reforça um alerta que vai além de uma única ilha: cuidar da beleza dessas paisagens passa por olhar também para o que a maré deixa para trás e por pensar, junto às comunidades pesqueiras, em soluções para o descarte adequado dos instrumentos que sustentam a vida na costa.

Sobre a pesquisa: A dissertação Petrechos de pesca como resíduo praial em uma área de proteção ambiental na costa paraense foi defendida por Elaine Simone da Cruz Silva Silva no Programa de Pós-Graduação em Oceanografia (PPGOC/Instituto de Geociências) da Universidade Federal do Pará (UFPA), em 2024, sob orientação da professora Sury de Moura Monteiro e coorientação da professora Sarita Nunes Loureiro.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 178, escrito por Luiza Amâncio

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