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Clarice Lispector morou em Belém? Conheça a história da passagem da escritora pela capital paraense

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 4 horas)
Clarice Lispector morou em Belém? Conheça a história da passagem da escritora pela capital paraense

Clarice Lispector no Largo da Pólvora, atual Praça da República. Foto: Reprodução/Biografia Clarice Lispector

Você sabia que Clarice Lispector viveu um período de sua trajetória em Belém, no Pará? A passagem pela capital paraense durou apenas seis meses, em 1944, mas foi marcada por acontecimentos importantes em sua vida pessoal e literária, já que foi na cidade que a escritora acompanhou a recepção de seu romance de estreia, ‘Perto de um Coração Selvagem’, e escreveu parte de ‘O Lustre’, sua segunda obra publicada.

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De acordo com o historiador Aldrin Moura de Figueiredo, que foi diretor do Centro de Memória da Amazônia da Universidade Federal do Pará, a estadia da escritora em Belém aconteceu em um contexto diretamente ligado à Segunda Guerra Mundial. 

“A Clarice tinha 23 anos e era casada com o diplomata Maury Gurgel. Ela veio para acompanhar o marido, que era o representante diplomático brasileiro, e que fazia a ligação entre o Itamaraty e as autoridades americanas no contexto da guerra”, afirmou o historiador ao Portal Amazônia

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Clarice Lispector e Maury Gurgel. Foto: Reprodução/Site Clarice Lispector

Aldrin explica que naquele período Belém ocupava uma posição estratégica para os Aliados durante a guerra, já que a Base Aérea de Val-de-Cans funcionava como um importante ponto de apoio militar na América do Sul, o que justificava a presença de diplomatas brasileiros e americanos na cidade.

Após a passagem por Belém, o casal seguiu para a Itália, onde Maury Gurgel continuaria sua atuação diplomática ainda no contexto da guerra.

Uma jovem escritora descobrindo Belém

Embora tenha permanecido pouco tempo na cidade, Clarice aproveitou a estadia para conhecer diversos espaços culturais da capital paraense. De acordo com Figueiredo, a própria escritora registra parte dessa rotina em suas crônicas e, durante os meses em Belém, ela frequentou o Theatro da Paz, visitou a Biblioteca Pública do Pará e circulou por diferentes lugares da cidade.

Segundo o historiador, Clarice também estabeleceu contato com importantes nomes da cultura paraense, como Rui Barata e Inocêncio Machado Coelho. No entanto, foi com o professor e crítico literário Francisco Paulo Mendes que ela desenvolveu uma amizade mais próxima.

“Ela teve grande afeição pelo professor Francisco Paulo Mendes e tinha enorme admiração pela cultura dele”, afirma Figueiredo.

Na época, Paulo Mendes tinha cerca de 33 anos e já era reconhecido em Belém como professor de literatura, crítico literário e crítico de arte. Mais tarde, ele se tornaria um dos fundadores do curso de Letras da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Belém e o nascimento de uma grande escritora

Segundo Aldrin de Figueiredo, quando ela chegou a Belém, o seu livro ‘Perto de um Coração Selvagem’ havia acabado de ser lançado, e foi na capital paraense que a autora acompanhou as primeiras repercussões da obra na imprensa brasileira. “Ela acompanhou daqui a recepção do romance pelos jornais do Rio de Janeiro, de São Paulo e também pelos jornais de Belém”, explica.

Além disso, ainda de acordo com o historiador, foi durante a hospedagem no antigo Hotel Central que Clarice escreveu parte de ‘O Lustre’, livro publicado em 1946 que é considerado seu segundo romance.

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Antigo Hotel Central onde Clarice Lispector ficou hospedada. Foto: Reprodução/Facebook-@nostalgiabelém

Apesar disso, o historiador avalia que não há evidências de que Belém tenha influenciado diretamente a ficção produzida pela escritora.

“Desconheço que essa passagem apareça nos romances dela. Nas crônicas, sim. Mas acho que Belém não influenciou diretamente a obra literária de Clarice”, afirma.

Para ele, a experiência teve maior impacto nas lembranças pessoais e na visão que a autora construiu sobre o Brasil.

Belém foi acolhedora 

Embora estivesse longe da família e vivendo uma fase de constantes mudanças por causa da carreira diplomática do marido, Clarice encontrou acolhimento em Belém.

Segundo Figueiredo, a escritora era muito jovem naquele momento e chegou à cidade em um contexto bastante diferente do atual, quando as viagens pelo país eram mais difíceis e as diferenças regionais ainda eram pouco conhecidas pelos brasileiros.

“Ela gostou muito da passagem por Belém. Apesar de ser muito jovem e, às vezes, sentir-se sozinha, foi muito acolhida pela cidade e guardou boas recordações, especialmente da amizade com Francisco Paulo Mendes”, destaca.

Fotografias e documentos preservam essa história

Parte da memória dessa passagem ainda pode ser encontrada em arquivos e registros históricos. De acordo com Aldrin, existem cartas de Clarice Lispector preservadas na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. 

Além disso, o filósofo e crítico literário Benedito Nunes, considerado um dos maiores intérpretes da obra da escritora, escreveu textos sobre esse período vivido em Belém. 

O historiador também lembra que existem fotografias da autora na cidade: “Eu mesmo publiquei uma fotografia feita por Lourdes Oliveira em que ela aparece na frente da Biblioteca Pública. Existe também uma imagem bastante conhecida dela na Praça da República”.

Clarice Lispector em Belém
Clarice Lispector em frente a biblioteca pública de Belém. Foto: Reprodução/Facebook-@Aldrinmouradefigueiredo

Um capítulo pouco conhecido da literatura brasileira

Apesar da importância desse momento na trajetória de Clarice Lispector, a relação da escritora com Belém ainda é pouco conhecida pelo grande público. Na avaliação de Aldrin de Figueiredo, esse desconhecimento não acontece apenas com Clarice, já que diversos escritores e artistas brasileiros tiveram passagens marcantes pela capital paraense, mas que acabaram ficando à margem da memória coletiva.

O historiador cita exemplos como Raquel de Queiroz, que passou parte da infância em Mosqueiro, além do pintor Ismael Nery, cuja ligação com Belém ainda surpreende pesquisadores. Para Aldrin, o interesse costuma se concentrar mais nas obras dos escritores do que nos lugares por onde passaram.

“Belém não costuma ser associada a um período da vida da Clarice. O que mais chama atenção dos estudiosos é a obra dela, não necessariamente o lugar onde ela estava escrevendo”, conclui.

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