O Festival Folclórico de Parintins, que acontece anualmente na última semana do mês de junho, é o ápice da temporada bovina protagonizada pela rivalidade histórica dos bois Caprichoso e Garantido, que duelam pelo título do maior evento folclórico à céu aberto do planeta.
O Bumbódromo de Parintins é o palco principal dessa disputa, e paralelo a isso, o ambiente digital também se torna um espaço em que torcedores dos bois da estrela e do coração usam as redes sociais para trocar opiniões pessoais, críticas e elogios sobre a performance dos 21 itens avaliados.
Porém, existem novos internautas que excedem os limites de uma rivalidade saudável, muitas vezes sem fundamentos: conhecidos como ‘bumbá kids‘.
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O termo, que surgiu na internet pelos próprios torcedores, denomina aqueles que não aceitam críticas contra o seu boi, não valorizam pontos positivos do contrário e estimulam discursos de ódio e ataques pessoais contra quem não concorda com seu ponto de vista. Em alguns casos, é contra até por quem simplesmente torce pelo rival.
O Portal Amazônia conversou com itens e ex-itens oficiais dos bois Caprichoso e Garantido, que comentaram sobre a importância da rivalidade saudável e deram dicas de como torcer e brincar de boi de forma coerente, responsável e sem violência no mundo virtual.
Caprichoso x Garantido: como surgiu essa rivalidade?
Antes de se tornar uma das principais expressões culturais do Brasil, a disputa entre Caprichoso e Garantido nasceu de uma brincadeira de rua, no início do século XIX, em que dois grupos (os bois) iam às ruas de Parintins para encenar a lenda da Mãe Catirina, uma mulher que estava grávida e com desejo de comer língua de boi. Para satisfazer a amada, o marido Pai Francisco sacrifica o boi favorito do seu patrão, que ameaça matá-lo.
Com fantasias, músicas e alegorias, a lenda que nasceu no Nordeste começou a ser ambientada com elementos da Amazônia como povos indígenas, criaturas e toda a mística sobre o maior bioma do planeta. Aí que entra a figura do Pajé, que ressuscita o boi do patrão, evita a tragédia e salva a vida do Pai Francisco.
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A partir daí, toda aquela simples brincadeira de rua se transformou em apresentações mais produzidas para o público da Ilha da Magia, dando origem ao festival. Em 1966, acontece o primeiro Festival Folclórico de Parintins, com os bois disputando o título de melhor apresentação e o campeão definido a partir dos aplausos do público. É o que explica a historiadora parintinense Larice Butel, especialista da festa tupinambarana.
“O campeão da primeira edição do festival era decidido por aplausos e aí o boi Garantido é o vencedor. Daí surge a necessidade de se ter mais torcedores, já que a torcida contava pontos, o que se tornou primordial para o nascimento das galeras. Isso, inclusive, fez com que os outros bumbás que existiam na cidade não conseguissem permanecer”, explica a profissional.
A partir de então, a disputa entre Caprichoso e Garantido começou a ficar mais intensa e competitiva entre as torcidas, principalmente após a construção do Bumbódromo, no final dos anos 1980, para sediar o festival. À medida que a festa dos bumbás se consolidava como uma das maiores manifestações folclóricas do Brasil, a rivalidade entre os torcedores seguia o mesmo patamar até ganhar o ‘reforço’ das redes sociais.
A chegada das redes sociais

Com a ampliação do acesso à internet no Brasil, em meados de 2010, as redes sociais começaram a fazer parte da rotina dos brasileiros. Isso fez com que os debates bovinos, que se restringiam aos encontros de torcedores nas ruas ou eventos dos bois, migrassem para o mundo virtual. E apesar de terem contribuído para a divulgação do festival, as plataformas digitais também abriram espaço para formadores da opinião pública, os chamados influenciadores digitais.
Considerado um dos artistas mais respeitados do festival, o levantador de toadas do boi Garantido, David Assayag, relata que as redes sociais trouxeram uma nova fase para a rivalidade bovina, porém, revelaram um lado negativo da internet: os ataques virtuais contra profissionais que atuam nas agremiações.
“A partir daí, a rede social entra com força no festival. Os torcedores começam a emitir opiniões pessoais, elogios e críticas em suas redes, mas infelizmente uma parte deles usam a internet para o mal. Ofendem os itens, atacam a honra dos profissionais, atacam a diretoria, tudo no intuito de diminuir as pessoas e as instituições também. E isso começou a ficar muito ruim para o festival”, conta o artista, que também já defendeu as cores do Caprichoso.

Ex-Cunhã-Poranga do Boi da Estrela nos anos 90, Daniela Assayag afirma que o início do comportamento ofensivo no mundo virtual acabou distorcendo a essência da festa na Ilha da Magia. Para a artista, que atuou dos onze aos 21 anos de idade no Touro Negro – sendo os últimos cinco anos como item 9, ponderou que os artistas dos bois são as maiores vítimas dos discursos de ódio na internet.
“Esse comportamento violento nas redes sociais desvirtua o objetivo da festa. O que era para ser uma disputa de criatividade e genialidade do artista caboclo, as vezes acaba ganhando contornos de conflitos com essas atitudes criminosas dos ‘haters’. E as maiores vítimas, a meu ver, são os itens individuais, artistas que dedicam suas vidas à festa, mas que acabam desrespeitados de forma grosseira e inaceitável. As pessoas deveriam entender que por trás dos personagens existe gente de carne, osso e sentimento, a escolha pela exposição de quem aceita ser item dos bois não pode ser justificativa para a aceitação da prática do discurso de ódio contra si”, pondera Assayag.
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Brincar de boi perdeu a essência?
Inflamada com a expansão das redes sociais, a rivalidade bovina entre os torcedores cresceu consideravelmente no virtual e, paralelo a isso, os comportamentos ofensivos também. Ataques pessoais, discursos de ódio e a propagação de ‘fake news’ cometidos por uma pequena parte desses torcedores contra itens e dirigentes dos bois se tornaram mais frequentes.

Para Verena Ferreira, ex-cunhã-Poranga do Garantido em 2015 e 2016, apesar do festival ter ganhado maior visibilidade com a internet, a violência virtual tirou um pouco a essência saudável dessa rivalidade entre os torcedores, algo que era comum antes das redes sociais.
“Antes das redes sociais, torcer pelo boi era muito mais vivido no corpo a corpo durante a temporada bovina. A rivalidade acontecia nas ruas, nos currais, nas filas de ensaio, nas rodas de conversa e dentro das famílias. Existia provocação, mas também tinha muito respeito pela história e cultura do boi contrário, o torcedor conhecia os itens, as toadas, acompanhava a evolução dos bois, enfim, ele conhecia a história do festival. O boi bumbá nasceu como manifestação cultural e popular, não como espaço para ódio e aí quando a rivalidade ultrapassa o limite da brincadeira para ataque pessoal, fake news e perseguição nas redes, quem perde é o próprio festival”, frisa Verena.
Ex-item de Caprichoso e Garantido, o cantor Edilson Santana também endossa o raciocínio. Para o artista, que já foi amo do boi e levantador de toadas no Bumbódromo, a brincadeira de boi bumbá que deu origem ao festival precisa ser valorizada pelos torcedores.
“Essas pessoas precisam entender que o festival é um legado do povo de Parintins que fomenta a vida de sua gente. Aprender a apreciar o festival é caminho, conhecer a sua história já é um começo, isso faz o torcedor olhar com mais respeito ao festival que chegou até aqui. A rivalidade dos bois era inocente como a brincadeira nas ruas, passando o festival todos se falavam e até davam os parabéns ao rival que vencia, jamais desrespeitavam um ao outro para mudar o sentido e o objetivo da brincadeira”, reforça Santana, que hoje defende as cores do Boi da Francesa.
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Dicas de como torcer de forma saudável nas redes
Apesar desse lado negativo representar apenas uma pequena parcela dos torcedores bovinos, ainda é comum encontrar publicações e comentários com conteúdo difamatório e ataques discriminatório contra artistas de Caprichoso e Garantido. Mesmo com leis voltados ao combate de crimes cibernéticos e de punições para quem comete, tais práticas ainda são frequentes no ambiente virtual.
No intuito de incentivar o debate saudável e a importância de torcer e brincar de boi, o Portal Amazônia reuniu algumas dicas de itens e ex-itens oficiais dos bois Caprichoso e Garantido de como saber opinar nas redes sociais de forma responsável e sem ataques no mundo virtual. Confira:
David Assayag, levantador de toadas do Garantido:
“O torcedor precisa entender mais sobre a história do festival e ser mais consciente na rede social. Agora, como item, eu sou muito tranquilo, já fui vítima dos ‘haters’, mas nunca fui para o embate. É só não responder as provocações”
Edilson Santana, ex-amo do boi e levantador de toadas do Caprichoso:
“Torça como quem torce por uma pessoa amada. Não faça com ninguém o que você não gostaria que fizessem com você. Vá em paz ao festival e volte em paz, pare de usar as redes sociais para insinuar uma guerra insana que não existe e nunca existirá”
Verena Ferreira, ex-cunhã-poranga do Garantido:
“Não transforme o boi em guerra de internet. Ser torcedor de verdade é defender o seu boi com paixão, cantar, brincar, estudar a cultura, respeitar a rivalidade e ajudar a manter viva a essência do Festival de Parintins para as próximas gerações”
Prince, ex-amo do boi do Caprichoso:
Não é uma dica, mas um estilo de vida para quem curte o boi-bumbá: Brinque, dance, tome sua bebida e seja feliz. Brincar de boi não é brigar de boi. Todo mundo é feliz, então venha ser feliz no Caprichoso”
Denison Piçanã, tripa do boi Garantido:
“Que os verdadeiros torcedores busquem conhecer todo o processo do nosso festival. Apoiem, critiquem e cobrem melhorias com carinho, sem peso nas palavras. Quem ganha com isso é o nosso festival“
Daniela Assayag, ex-cunhã-poranga do Caprichoso:
“Os torcedores de Caprichoso e Garantido devem se reconhecer como rivais, nunca como inimigos e é uma responsabilidade de todos nós lutar para que haja respeito na rivalidade. Podem ter suas preferências, mas é preciso entender que nenhum existe sem o outro”
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