Caiaques na orla do Educandos, em Manaus. Remadores do Clube do Remo, 1961, registro de Marcel Gautherot. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
Antes de descrevermos o nosso objeto de pesquisa – Luso Sporting Club – abordaremos um pouco sobre o nascimento da atividade esportiva no Brasil, para que possamos entender o contexto da atividade desportiva no período da construção do Luso.
Não se pode estudar o fenômeno desportivo alheio ao movimento e organização social presente. O desporto é um fenômeno cultural complexo e de grande importância para uma sociedade, capaz de anunciar e denunciar inúmeras manifestações latentes nos diversos grupos sociais.
Garcia descreveu o desporto como:
[…] um processo evolutivo e de modernização das praticas físicas milenares que sempre existiam nas diferentes sociedades. O homem, desde o mais primitivo até, sempre jogou ou correu. Estas mesmas atividades foram depois regulamentadas, dando assim origem ao moderno desporto.²¹
Segundo Garcia, o esporte é um dos fenômenos mais importantes do nosso tempo. Ninguém fica indiferente a essa atividade humana. De acordo com o autor, observamos que o desporto, tal como agora conhecemos, é um fenômeno relativamente recente. Tem pouco mais de um século, sendo originário dos países ricos do norte, especialmente da Inglaterra, França e Estados Unidos. Com efeito, foi principalmente nestes países que as diferentes modalidades desportivas (o futebol), basquete, o atletismo, etc.) apareceram, tendo se espelhado rapidamente por todo o mundo.
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O esporte contemporâneo nasceu, cresceu e tem se desenvolvido no seio da sociedade urbana e industrial es tá sujeito as adaptações particulares da vida politica, econômica e social moderna. Surge pela primeira vez na Inglaterra, no mesmo momento em que se iniciava a Revolução Industrial.
Um dos fatores que estimulavam a prática desportiva em meados do século XIX era sua ligação com a questão da saúde, segundo Foucault:
[…] corresponde a consciência que a burguesia adquiriu ao longo do século XIX da necessidade de controlar as populações para assegurar sua produtividade. O amontoamento de corpos que ocorria nas fábricas e nas cidades, a duração da jornada de trabalho, a poluição, as enfermidades e a falta de saneamento urbano e as condições de moradia foram sendo percebidos como focos de perigo para a saúde da população ou para a saúde da nação. Entretanto, a extrema preocupação com a saúde da população dissimulava outras intenções.²²

Mas, não era apenas a saúde da população trabalhadora que preocupava as autoridades e demandava ações-soluçoes. Era preciso atuar também sobre a saúde dos jovens filhos da burguesia e principalmente, devolver bons hábitos de disciplina e de liderança.
Pois como afirma Sant’Anna:
[…] Como se após seculos de civilizações, o corpo tivesse conquistado uma importância inédita tendo sido totalmente liberados das coações religiosas e moral de um passado recente, para se reconstruído ao saber da moda e dos investimentos nos campos da cosmética, da dietética, das atividades físicas e terapêuticas […]²³
Segundo a autora, dessa forma, não podemos apenas entender a prática esportiva no século XX como apenas uma atividade de disputa ou brincadeira, tão pouco podemos apenas relacioná-la como uma atividade para a aproximação de um grupo, mas a busca pelo embelezamento do próprio corpo através da estética corporal.
A crescente transformação da educação das classes ascendentes, realizada ao longo do século XIX, chamou atenção sobre a necessidade de reforma dessas instituições. O esporte surgiu como estratégia de controle do tempo livre dos adolescentes das classes dominantes, num período curto, converteu-se num elemento central no conteúdo formativo dos currículos dessas escolas. Em pouco tempo campos e quadras foram convertidos em importantes meios educativos ganhando importância sobre disciplinas, como línguas ou cultura clássica.
O esporte foi defendido como argumento na formação de caráter dos futuros dirigentes sociais.²4
No Brasil, segundo Costa:
O turfe foi o primeiro esporte (no sentido moderno) a realmente se estabelece no Brasil, sendo também o que apresentou primeiramente uma organização mais estruturada e uma forte inserção social, manifesta inclusive em sua presença na imprensa da época, na influência de grande publico aos hipódromos (desde os mais populares até a família real e depois presidencial) e no impacto que tinha nas estruturas cotidianas da cidade. O turfe foi a primeiro esporte estabelecido ate mesmo por ser mais aceito devido a seu caráter aristocrático e social.²5
O remo também foi um dos esportes de primeiro momento no Rio de Janeiro do século XIX, mas segundo Betti, somente se estabeleceu realmente a partir de uma outra forte mudança nos padrões culturais da cidade, seguida de mudanças em torno do esporte.²6 Segundo o autor o remo passou a ser aceito quando o padrão de estética e saúde mudam, passando a permitir diversão para os homens, praticamente nus para época. Teve relação com os primeiros ventos de preocupações higiênicas e de saneamento.
Nos leva ao entendimento segundo o autor que, o campo esportivo ainda demoraria a se estabelecer efetivamente, pois necessitava de condições mais adequadas na estrutura de produção, social e cultural em construção, principalmente com o surgimento e ascensão de uma classe media brasileira. Nos primeiros momento uma série de atividades foram realizadas, buscando copiar as atividades europeias, chamadas de sport. Primeiro tipo seriam as manifestações esportivas bem desenvolvidas e organizadas. Nesse grupo destacariam o turfe e posteriormente as regatas (remo).
Outra prática que começava a se estabelecer no campo esportivo foi as corridas de velocípedes marcariam os primeiros momentos do ciclismo. As chamadas corridas atléticas ou corridas a pé davam origem ao atletismo brasileiro. A natação dava passos ainda tímidos. O futebol era desconhecido na cidade, embora algumas escolas já estivessem a estimular sua prática.

Algumas das praticas segundo o autor ainda existem como em outros países, mas não mais no Brasil, como as touradas.
No modo de entender, ainda não constituindo efetivamente um campo, o uso do termo sport, denuncia um campo em formação, de alguma forma estabelece limites de participação para a população. Para que o campo esportivo viesse a realmente se estabelecer em terras brasileiras, os organizadores teriam que promover significativas mudanças de rotas em seus planos originais. Se o campo esportivo era sinal de distinção e negócios, ele somente seria se conseguisse manter as portas abertas. Este aspecto financeiro tornou-se obstáculo no início e determinou o fim de muitos clubes.
Precisaria de público para consumir o espetáculo. Assim não houve alternativa: os clubes deveriam ser abertos ao grande público. Mais do que isso o grande publico deveria entender o mínimo do que estava sendo realizado. Isso é conhecer algo, mas só o suficiente para consumir o espetáculo. E como afirma Bourdieu:
[…] sem dúvida é pela separação estabelecida entre os profissionais, virtuosos de uma técnica esotérica e os leigos reduzidos ao papel de simples consumidores e que tendem a se tornar uma estrutura profunda de consciência coletiva que ele o esporte exerce seus defeitos mais decisivos: não é apenas no domínio do esporte que os homens comuns são reduzidos aos papéis de torcedores […] dedicados a uma participação imaginaria […]²9
Assim, um publico maior passa a ter acesso aos esportes, a linguagem e aos termos. Como os individuais não são passivos perante os processos sociais, começam a elaborar desdobramentos dessa linguagem.
Enfim, o que nos mostra o autor é que ser sócio dos clubes significava prestigio social e abriria inúmeras portas para o status.
Normalmente os atletas eram escolhidos entre as camadas populares da sociedade assim como hoje. Como o atleta ocupara lugar de algum destaque na sociedade, os organizadores defendiam que era uma forma dos meninos pobres terem acesso a condições melhores, como mostra uma publicação do Jornal Esporte: Um joquey é considerado personagem de certa importância, com os grandes ordenados que recebe, depois de 10 ou 12 anos de trabalho, retirar-se a vida privada com uma fortuna.³²

Segundo o autor, esses personagens somente tinham acesso aos esportes se demonstrassem algum tipo de talento esportivo, como os jóqueis negros e pobres. Desde as origens, então, o esporte brasileiros também é marcado pelo divórcio entre pratica e consumo.
Também porque os aspectos ligados a estética, os aspectos higiênicos ligados a saúde, a necessidade de distinção e a possibilidade de realizar negócios no interior do campo, não faziam parte dos parâmetros e da realidade das camadas populares. Por fim lhes faltava tempo livre necessário.
Logo, segundo Costa para as camadas populares, as praticas esportivas eram fundamentalmente uma forma de diversão em uma cidade tão carente dessas possibilidades em disseminar um determinado sentido para o esporte.
No meu entender, isso pode ser observado no que se refere ao esporte no final do século XIX. Alguns clubes naquele período vieram a falir, muito em função das restrições impostas pelos nobres da cidade. Esses clubes mais populares organizados por pequenos comerciantes e militares de baixa patente, começaram a rivalizar com os grandes clubes, devido aos preços mais baixos de entradas e apostas.³5
Podemos perceber como um determinado objeto social o esporte tem sentido diferenciado e diferentes representações entre diversos grupos no interior de uma sociedade.
No caso do esporte no século XIX, existe a representação social geral que perpassa todos os grupos: era encarado como forma de diversão. Mas, os diversos grupos adendos a esse, um caráter diferenciado. Para os organizadores, mais do que diversão, era uma forma de status, distinção e de negócios diretos e indiretos. Já para a imprensa interessava mais o negócio do que o sinal de status e distinção. Para as mulheres, estava ligado as suas possibilidades de emancipação, enquanto para os negros pouco significava, a não ser para os mais habilidosos, usados como jóqueis e gozando de um status relativo. Já as camadas populares o encaravam como forma de diversão e distração.
Se a atividade esportiva nasceu para a sociabilidade e cuidado físico da elite, aos poucos esta atividade se popularizou. E dentre elas o futebol foi e é o mais popular dos esportes. Característica tal, foi que motivou a fundação do Luso Sporting Club.
Fontes
²¹ Garcia, Rui. A Amazônia entre o desporto e a cultura. Manaus: Valer, 2002.
²² FOCAULT, M. Microfisica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1993, p. 78.
²³ SANT’ANNA, Denise Bermuzede, Corpo, História e Cidadania. In: Anais do XIX Simposio Nacional da ANPUH: História e Cidadania, Vol, São Paulo: Humanites/FFLCH – USP, ANPUH, 1998, p.172.
²4 Esse assunto poder ser melhor analisado em: BORDIEU, Mário Gonzalez. Desporto e classes sociais. Material de Sociologia do Esporte. Curitiba: Editora Vida Turfista, 1961, p.108.
²5 COSTA, Cássio. O futebol de outrora. Rio de Janeiro: Editora Vida Turfista, 1961, p. 108.
²9 BORDIEU, Mário Gonzalez. Desporto e classes sociais. Material de Sociologia do Esporte. Curitiba: Editora La Piqueta, 1993, p.124.
³² JORNAL O Esporte de 28 de março de 1895. p. 1. Acervo particular.
³5 Informações retiradas do Jornal Diário do Rio de Janeiro de 17 de setembro de 1876.
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Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
*O conteúdo é de responsabilidade do colunista
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