Foto: Divulgação/ Unifesspa
A transformação da antiga Casa Azul, em Marabá (PA), em um espaço dedicado à preservação da memória ganhou destaque durante o ‘Seminário Casa Azul: um lugar de memória para o Brasil’. No dia 27 de março, pesquisadores, estudantes, representantes de instituições públicas, autoridades e integrantes de movimentos sociais visitaram o imóvel que, durante o regime militar, foi apontado como local de prisões, torturas e violações de direitos humanos na região.
Sob um céu encoberto, os participantes percorreram as dependências do prédio em uma atividade que simbolizou o resgate de uma parte da história marcada pela repressão e pelo silêncio. Mais do que uma visita técnica, o encontro representou um ato de reconhecimento da memória coletiva e de valorização da verdade histórica sobre os acontecimentos ocorridos durante a ditadura militar.
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A ação integrou a programação do seminário promovido pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), em parceria com instituições públicas e movimentos sociais. A iniciativa discute a criação de um espaço permanente de memória no local, com o objetivo de preservar relatos, documentos e experiências ligadas ao período autoritário no país.
A proposta busca transformar a Casa Azul em um ambiente voltado à educação, à pesquisa e à reflexão sobre os direitos humanos, contribuindo para que episódios de violência política não sejam esquecidos e possam ser compreendidos pelas futuras gerações. O projeto também reforça o papel da memória como instrumento de construção da cidadania e de fortalecimento da democracia.
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Memória viva: a posição da universidade
Durante a visita à Casa Azul, o reitor da Unifesspa, Francisco Ribeiro da Costa, enfatizou o papel institucional da universidade na preservação da memória histórica — especialmente em um território onde o passado ainda reverbera no presente:
“É nossa missão ajudar a preservar essa memória para as futuras gerações, para que o passado não volte a acontecer”.

A fala, proferida no próprio espaço marcado pela violência de Estado, desloca a universidade de uma posição apenas observadora para uma atuação implicada — ética e politicamente — na defesa da democracia.
Ao reconhecer que ainda há medo e silêncio entre aqueles que viveram esse período, o reitor apontou para um desafio central: transformar memória em política pública e em compromisso coletivo.

Pesquisa, território e enfrentamento do apagamento
A construção desse movimento tem forte base acadêmica. O seminário é resultado de anos de pesquisa desenvolvida na Unifesspa, com destaque para o trabalho do professor Janailson Macêdo Luiz, docente da Faculdade de História e dos programas de pós-graduação da instituição.
Pesquisador dedicado aos estudos sobre a ditadura militar na Amazônia, a Guerrilha do Araguaia e as relações entre memória, território e violência de Estado, Janailson tem atuado na articulação entre produção de conhecimento e ação pública.
Durante a visita, ele destacou que a Casa Azul ocupa um lugar singular:
“Aqui ainda existe um espaço físico que serve como referência. É um lugar de memória que aponta para as violações que aconteceram também nos arredores”.
Ao chamar atenção para práticas de tortura realizadas ao ar livre — envolvendo camponeses, indígenas e militantes —, o pesquisador amplia a compreensão da ditadura para além dos grandes centros urbanos, evidenciando sua dimensão amazônica, historicamente invisibilizada.
Mais do que interpretar o passado, sua atuação aponta para um horizonte: transformar a Casa Azul em um espaço de memória institucionalizado.
Universidade e responsabilidade histórica
Realizado na Câmara Municipal de Marabá, o seminário reuniu diferentes instituições em torno de um objetivo comum: transformar a Casa Azul em um espaço permanente de memória, verdade e justiça.
A atuação da Unifesspa, longe de ser pontual, se insere em um projeto institucional mais amplo. O Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) define como missão da universidade contribuir para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. Neste contexto, memória não é tema periférico — é eixo estruturante.
Em sua fala, o reitor Francisco Ribeiro da Costa foi direto: “Não há democracia sólida sem o reconhecimento das violações do passado.” E acrescentou: “Temos a responsabilidade de não deixar essa memória desaparecer.”
A universidade, assim, se afirma não apenas como produtora de conhecimento, mas como agente público implicado na defesa da democracia.
Memória é justiça — e também conflito
As falas ao longo do seminário convergiram para um ponto incontornável: memória não é consenso — é disputa. Representantes da OAB, da Comissão Pastoral da Terra, de movimentos sociais e de órgãos governamentais lembraram que a região do Araguaia permanece marcada por conflitos fundiários, desigualdade e violência — heranças que não podem ser dissociadas do período ditatorial.
“A memória é uma forma de reparação”, afirmou um dos participantes.
Mas também é mais do que isso: é enfrentamento. Enfrentamento às narrativas que tentam relativizar a ditadura. Enfrentamento à desinformação que circula, sobretudo entre jovens. Enfrentamento à tentativa persistente de transformar violência de Estado em “versão alternativa” da história.
1964–2026: o passado que não passou

Realizado no contexto dos 62 anos do golpe de 1964, o seminário impõe uma reflexão que vai além da efeméride. O golpe não é apenas um evento encerrado no tempo. Seus efeitos atravessam o presente. Persistem nos desaparecidos que nunca foram encontrados; nas famílias que nunca tiveram respostas; nas estruturas de violência que se reconfiguram; e, sobretudo, nas tentativas recorrentes de reescrever — ou apagar — o que aconteceu.
Quando setores da sociedade ainda pedem a volta da ditadura, não se trata de desconhecimento isolado. Trata-se de uma disputa ativa pela memória. É nesse ponto que iniciativas como a da Casa Azul ganham densidade política. Preservar esse espaço é afirmar que não há neutralidade possível diante da violência histórica. É reconhecer que a democracia exige memória — e não silêncio.
Casa Azul: do trauma ao compromisso
Entre os principais encaminhamentos do seminário está a proposta de consolidação da Casa Azul como um lugar de memória institucionalizado, com possibilidade de tombamento e criação de um memorial.
Mais do que um gesto simbólico, trata-se de uma política de futuro. Como destacou um dos representantes do Ministério dos Direitos Humanos: “Essa é uma obra de muitas gerações.” Nesse processo, a Unifesspa se projeta como protagonista — articulando pesquisa, extensão e compromisso público com os direitos humanos.
Para que nunca mais
Ao final do dia, a imagem que permanece não é apenas a do prédio, nem a do céu nublado. É a de um espaço que começa a ser reocupado — não pelo silêncio, mas pela palavra. Lembrar, aqui, não é um exercício contemplativo. É um ato político. Porque, em um país onde o passado ainda é disputado, a memória é uma forma de resistência. E resistir, neste caso, é garantir que nunca mais se repita.
*Com informações da Unifesspa
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