Foto: Alex Pazuello/Secom AM
A evolução do El Niño em 2026 desponta como um dos principais fatores de risco climático para a Amazônia e a América Latina. Avaliações recentes indicam um cenário de transição, com sinais de possível formação de um novo evento no segundo semestre, ainda cercado por incertezas.
Entre as principais consequências para a região estão secas severas, queda nos níveis dos rios, aumento da propagação de incêndios e maior vulnerabilidade de populações ribeirinhas. O registro mais recente ocorreu em 2024, quando o El Niño, combinado ao aquecimento do Atlântico Tropical, contribuiu para uma das secas mais intensas já observadas na Amazônia.
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As análises sobre as probabilidades da consolidação de um novo El Niño este ano têm como base comunicados oficiais de órgãos que monitoram o Oceano Pacífico e a atmosfera, tais como a Comisión Multisectorial encargada del Estudio Nacional del Fenómeno “El Niño” (ENFEN), do Peru, o Centro Internacional para la Investigación del Fenómeno de El Niño (CIIFEN), do Equador, a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) dos EUA, e a Organização Meteorológica Mundial (OMM), da ONU. Todas são instituições científicas como olhar particular no fenômeno El Niño.
Segundo o último boletim do órgão americano, de maio a julho de 2026, há 61% de probabilidade de formação de El Niño entre maio e julho de 2026, com tendência de persistência ao menos até o final do ano. Já o CIIFEN, em seu boletim de abril, indica que a chance de um evento de maior intensidade no próximo semestre é relativamente baixa (cerca de 20%), sugerindo um cenário predominantemente fraco a moderado.
Em paralelo, a ENFEN manteve, em seu boletim de abril, o alerta de “El Niño costeiro”, um aquecimento mais localizado nas águas próximas ao litoral do Peru e do Equador, geralmente associado a chuvas intensas na faixa costeira. A expectativa é de que o El Niño costeiro atinja intensidade moderada entre junho e julho deste ano e continue até janeiro de 2027 com baixa intensidade.
De acordo com a especialista em mudança do clima do Observatório Regional Amazônico (ORA/OTCA), Isabelle Vilela, o cenário atual exige cautela na interpretação das previsões.
“Hoje há um cenário favorável ao desenvolvimento de El Niño a partir do segundo semestre de 2026, mas a previsão ainda não está plenamente consolidada em relação à intensidade e aos impactos regionais. Nesse contexto, o monitoramento contínuo das condições oceânicas e atmosféricas será essencial para refinar os cenários e reduzir as incertezas nas próximas atualizações” analisa Vilela.
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Parte dessa incerteza se deve ao fato de que as anomalias de temperatura no Pacífico equatorial precisam persistir por pelo menos três meses consecutivos para que o fenômeno El Niño seja confirmado. Além disso, seus efeitos no clima costumam aparecer com alguns meses de atraso.
A especialista adiciona ainda que o comportamento do fenômeno não é homogêneo ao longo do Pacífico, com diferenças relevantes entre o Pacífico central e o leste, onde já há influência direta do El Niño Costeiro.
Risco de nova seca extrema?
Na região amazônica, a possível evolução do El Niño pode provocar alterações significativas no regime de chuvas, com efeitos diretos sobre os sistemas hidrológicos, os ecossistemas e as populações locais.

Outro efeito crítico associado ao El Niño é o aumento do risco de incêndios florestais, especialmente em um contexto de temperaturas mais elevadas e menor umidade.
“El Niño atua como um fator de amplificação, criando condições ambientais altamente favoráveis para que queimadas iniciadas localmente se tornem mais intensas, extensas e difíceis de controlar”, pontua Vilela.
Os impactos econômicos decorrentes do El Niño tendem a ser amplos e interconectados. A redução dos níveis dos rios pode comprometer a navegabilidade, afetando o transporte de alimentos, combustíveis e insumos. Setores como agricultura, pesca e energia também podem sofrer perdas significativas.
Populações ribeirinhas e indígenas estão entre as mais vulneráveis, com riscos relacionados ao acesso à água, segurança alimentar e isolamento geográfico.
“A redução dos níveis dos rios compromete o acesso à água potável, dificulta o deslocamento e o transporte de bens essenciais, e pode levar ao isolamento de comunidades, afetando serviços básicos como saúde e educação”, afirma a especialista.
Entretanto, no caso da Amazônia, impactos como secas severas, queda nos níveis dos rios e aumento do risco de incêndios não dependem apenas da intensidade do El Niño no Pacífico. “Mas os impactos não dependem de um único fator. O aquecimento anômalo do Atlântico tropical pode mudar o regime de chuvas e agravar a seca na Amazônia, enquanto o estado do solo e da vegetação pode intensificar ou amenizar esses efeitos”, esclarece Vilela.
A especialista complementa que, embora não seja possível afirmar que os eventos extremos recentes vão se repetir, a combinação entre a variabilidade climática e o aquecimento global mantém elevado o risco de impactos importantes na Amazônia, especialmente se o El Niño ocorrer junto com um aquecimento anormal do Atlântico tropical como foi o caso em 2023-2024.
Cooperação Regional
Os países membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) reconhecem o El Niño como um dos principais fatores de risco climático para a região amazônica. Em resoluções recentes, os governos destacam a necessidade de fortalecer a cooperação regional para enfrentar eventos extremos, por meio do intercâmbio de dados, do aprimoramento de sistemas de monitoramento e alerta precoce e da implementação de uma estratégia conjunta de gestão de riscos.
As decisões também enfatizam a importância de ampliar a capacidade de resposta a emergências e reduzir a vulnerabilidade das populações diante de secas, enchentes e incêndios florestais cada vez mais intensos.
Nesse contexto, o Observatório Regional Amazônico (ORA/OTCA) tem papel estratégico na integração de dados e no apoio à tomada de decisão.
“Fenômenos como o El Niño não respeitam fronteiras. A articulação de políticas nacionais e ação coletiva entre os países amazônicos é essencial para antecipar riscos, compartilhar dados e fortalecer a capacidade de resposta dos países amazônicos diante de eventos extremos”, aponta o coordenador do Observatório Regional Amazônico (ORA/OTCA), Arnaldo Carneiro.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela OTCA
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