Bebidas são feitas com frutas como açaí, taperebá, caju e cupuaçu. Foto: Luiz Felype Santos/Rede Amazônica AP
A bioeconomia ganha um novo e sofisticado capítulo na Amazônia. No coração do município de Mazagão Novo (AP), às margens do Rio Beija-flor, uma startup utiliza o conhecimento científico e a tradição familiar para converter a riqueza da flora local em fermentados de frutas artesanais. Açaí, taperebá, caju e cupuaçu deixam de ser apenas itens da dieta regional para ocupar taças que miram o mercado de luxo e a exportação para Europa.
A ideia nasceu nos bancos da faculdade de Nutrição. O fundador, nutricionista e responsável pelas receitas, Grimaldo Melo, vislumbrou a oportunidade de elevar o valor agregado das frutos amazônicos.
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A finalidade é transformar o açaí — tradicionalmente consumido com peixe e charque — em uma bebida capaz de agradar os paladares mais exigentes. A qualificação técnica foi o divisor de águas. Após uma visita à propriedade de João Capiberibe e o suporte de cursos especializados do Sebrae Amapá, a startup desenvolveu métodos próprios.
O time conta com expertise de peso: além de Grimaldo, o irmão, Antônio Ferreira, possui formação em gastronomia e experiência em Enologia, enquanto a esposa lidera a estratégia de expansão e marketing.
“Não focamos apenas no produto final. O modelo de negócio atua no combate à sangria amazônica, fenômeno em que as matérias-primas são extraídas da região e o lucro da industrialização permanece fora dela. Quando você transforma a matéria-prima em um produto complexo, agrega valor na região e para as pessoas que vivem aqui”, afirma o proprietário.

Embora o método de fabricação guarde semelhanças com a produção vinícola tradicional de uvas, as particularidades das frutas amazônicas exigem algumas adaptações precisas:
- Fermentação natural: O processo utiliza a levedura Saccharomyces cerevisiae, que converte o açúcar em álcool em um período que varia de 20 a 60 dias;
- Sem aditivos: Um dos trunfos da marca é a ausência de conservantes químicos, o que garante um produto mais puro e evita os efeitos indesejados no dia seguinte, como a ressaca;
- Adaptação de açúcar: Como frutos como o açaí possuem menos açúcar natural que a uva, a solução recebe um ajuste para viabilizar a conversão alcoólica.


Semelhança com outras bebidas desperta interesse
Estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), no Amapá, revelam semelhança sensorial e físico-química entre os fermentados da Amazônia e os vinhos de uva. Especialistas em enologia associam o perfil do fermentado de açaí às características de uvas nobres, como a Cabernet.
O advogado criminalista e apreciador de vinhos, Hélvio Farias, acompanhou a evolução dos rótulos e destaca o caráter refrescante das bebidas, ideais para momentos de lazer no clima tropical. Para ele, a produção oferece imersão na regionalidade, com destaque para o fermentado de caju e as versões espumantes, que preservam a textura e o paladar indescritível dos frutos colhidos na região.
“O trabalho minucioso na fabricação dos fermentados assemelha-se à construção de uma tese jurídica, pois ambos exigem paciência, tempo de maturação e um cuidado quase artesanal para o alcance do resultado ideal. Os sabores amazônicos proporcionam um diferencial nítido em relação aos vinhos tradicionais e transportam quem o degusta para uma compreensão real da nossa identidade local”, pontua.
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A startup soluciona problemas logísticos e sociais via parcerias estratégicas, como a renda na entressafra: a empresa compra cupuaçu e taperebá de comunidades ribeirinhas durante os períodos em que o açaí escasseia. Isso garante estabilidade financeira para os produtores locais durante o ano todo.
Outro obstáculo resolvido é a utilização de garrafas de vidro recicladas no próprio estado por uma segunda startup. Os recipientes passam por três processos de esterilização antes do envase, o que evita o descarte de resíduos em aterros sanitários.
Atualmente, os produtos possuem presença no mercado local, com pontos de venda em Macapá e comercialização direta via redes sociais. A expansão nacional ocorre de forma gradual, com amostras enviadas para região Sudeste, enquanto a startup aguarda a finalização de licenças para venda em larga escala.

O plano para os próximos cinco anos é consolidar a marca na União Europeia. Com um braço da empresa estabelecido na Alemanha para análise de mercado, a startup busca identificar os países mais receptivos a propostas inovadoras.
De acordo com Grimaldo Melo, “o propósito é transformar os fermentados de frutas amazônicas em um símbolo de sofisticação e sustentabilidade da Amazônia para o mundo”.
*Por Luiz Felype Santos, da Rede Amazônica AP
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