De quase 80 famílias acrianas entrevistadas, a maioria leva cães para caça e alimenta animais com carne crua das presas. Foto: Reprodução/Agência de Notícias do Acre
A saúde de moradores de comunidades tradicionais da Amazônia está ameaçada pela contaminação decorrente do consumo da carne da paca, animal comumente caçado na região do Acre e Pará. Segundo estudo da Universidade Federal do Acre, e publicado nesta sexta (8), na revista científica Acta Amazônica, hábitos de moradores locais, como oferecer vísceras cruas do animal aos cães de caça, têm potencializado um ciclo de transmissão doméstico de doença zoonótica causada pela equinococose policística ou hidatidose.
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Esta infecção causada pela tênia de Echinococcus vogeli pode afetar os cães que comem o fígado contaminado da paca abatida, e passam, então, a eliminar os ovos do parasita no local. Com água e alimentos expostos ao ambiente, aumentam as chances de contaminação humana e da evolução para doença grave, com sintomas que vão de dores abdominais ao aumento do fígado.
A equipe que realizou o estudo já atua na região há 10 anos, mas analisou as amostras biológicas coletadas nos municípios acrianos de Sena Madureira e Rio Branco nos anos de 2022 e 2023, além da aplicação de questionários sobre as práticas de caça a 78 famílias de ribeirinhos, indígenas e coletores de borracha.
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Cães usados na caça são afetados
Os resultados mostram que todos os núcleos familiares possuíam cães utilizados na caça, pesca e atividades extrativistas. Do total de 194 cães registrados, a maioria dos animais (161) acompanhava os donos em caças e 80% destes (155), comiam carne crua de animais caçados, especialmente a paca. Já em relação às análises biológicas, das 30 amostras coletadas, 37% tinham cistos e em todas elas ficou confirmada a contaminação pelo parasita E.vogelli.
Para o autor do artigo, Leandro de Souza, este levantamento reforça a evidência de circulação ativa do parasita na Amazônia Ocidental, especialmente na cidade de Sena Madureira e serve de alerta para a saúde pública e veterinária em relação à hidatidose.
Souza alerta ainda para a urgência de atividades educativas junto à comunidade e de políticas públicas em saúde. “Os dados indicam que esse risco é ampliado principalmente pela falta de conhecimento da população, já que muitos moradores alimentam seus cães com vísceras contaminadas de paca, permitindo que o parasito circule no ambiente doméstico e aumente a exposição das famílias”, diz Souza.
Perguntado sobre protocolos em saúde para as famílias contaminadas, o autor explicou que até o momento ainda não existem protocolos para diagnóstico da infecção.
“Na Região Norte, até o momento, ainda não existem protocolos implantados para diagnóstico, o que é preocupante por se tratar de uma área endêmica. No entanto, os protocolos utilizados em nosso estudo — incluindo métodos parasitológicos e moleculares para detecção do parasito a partir de cistos hidáticos — podem ser aplicados em amostras humanas por instituições como LACENs, universidades e centros de pesquisa”, diz.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori
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