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Povo Paiter Suruí conquista reconhecimento FSC para proteção de cultura e tradições

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 4 horas)
Povo Paiter Suruí conquista reconhecimento FSC para proteção de cultura e tradições

Paiter Suruí recuperam áreas desmatadas com cultivo de frutos nativos dentro de aldeias em Rondônia. Foto: Emily Costa/Rede Amazônica RO

Localizada no chamado ‘Arco do Desmatamento‘, a Terra Indígena (TI) Sete de Setembro – entre Mato Grosso e Rondônia – acaba de erguer mais uma barreira simbólica e técnica de resistência. A Cooperativa de Produção e Extrativismo Sustentável da Floresta Indígena Garah Itxa do Povo Paiter Suruí, que já tinha a certificação FSC® para o manejo de castanha desde 2016, acabou de receber também a verificação de serviços ecossistêmicos para a conservação das práticas e valores culturais, a primeira da América Latina e segunda do mundo.

Esses serviços englobam tanto a manutenção dos conhecimentos culturais e ancestrais, das práticas e da linguagem, quanto a manutenção de espécies culturalmente valorizadas, seja como alimento ou para atividades terapêuticas e medicinais, por exemplo.

“Essa conquista é muito importante para ressaltar a importância da nossa cultura”, diz Celso Lamitxab Suruí, representante da Cooperativa. “Ela é nossa sobrevivência, nossa essência”, explica.

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Celso comenta que o avanço da tecnologia tem tornado as coisas mais difíceis e que o papel da escola tornou-se ainda mais significativo. “Nossos anciões estão indo embora e as crianças já vem com o celular na mão, começam a andar e já falam umas palavras em português”, diz.

Segundo ele, lideranças e professores indígenas estão ainda mais preocupados em passar conhecimentos da língua, das tradições, da história e da ancestralidade do povo Pater Suruí. Atualmente, são três escolas com professores de língua materna no território.

Resistência do povo Paiter Suruí no ‘Arco do Desmatamento’

Cercada por pastagens e monocultivos de soja e outras atividades agrícolas intensas, a TI Sete de Setembro enfrenta há mais de 40 anos a pressão da exploração ilegal. Após sofrerem severa redução populacional e erosão cultural desde o contato, na década de 1980, com a civilização não-indígena, os Paiter Suruí decidiram que o caminho para o futuro seria desenhado por eles mesmos.

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A verificação FSC se apoia em documentos centrais de gestão territorial do povo Paiter Suruí, como o Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA), e o Etnozoneamento, construídos por meio de processos participativos com lideranças, jovens, mulheres, e demais membros das aldeias.

Esses instrumentos organizam o território a partir dos conhecimentos tradicionais, definindo diferentes zonas de uso, como áreas de produção, caça, pesca, proteção e espaços sagrados, de acordo com valores culturais, espirituais, ambientais e de subsistência.

Celso Lamitxab Suruí do povo paiter surui
Celso Lamitxab Suruí. Foto: Divulgação

Cultura que gera autonomia

A manutenção da identidade Suruí está diretamente ligada ao manejo sustentável de recursos florestais, como a castanha-da-Amazônia. A produção nas quatro aldeias certificadas FSC (Joaquim, Apoena Meirelles, Lapetanha e Tikan) ajuda a financiar a estrutura necessária para que a cultura floresça.

“A floresta é, para nós, um espaço de memória e pertencimento, com locais históricos, trilhas e referências vinculadas às narrativas de origem e aos clãs, e cuja vitalidade depende da integridade ambiental e da biodiversidade que amparam festas, artes, cantos, danças e o uso de plantas medicinais” afirma Celso.

Reconhecida interna e comunitariamente como patrimônio cultural imaterial do povo Paiter, a Terra Indígena promove a diversidade cultural e inspira ações de educação ambiental, pesquisa participativa e valorização pública da cultura indígena por meio de escolas e centros culturais propostos no planejamento comunitário.

As ações de gestão, os projetos de conservação e a atuação das lideranças e o sistema de governança têm contribuído para a manutenção da identidade cultural, o fortalecimento espiritual e a autonomia sociocultural do povo Paiter Suruí, assegurando a continuidade dos benefícios culturais e espirituais associados à floresta.

E um dos pilares desse movimento é o Turismo Yabnaby, na aldeia Lapetanha. O projeto de etnoturismo permite que os visitantes vivenciem a rotina Paiter, gera renda e reforça a ligação com a terra. Mais do que um negócio, o turismo funciona como uma ferramenta de educação ambiental e proteção territorial, onde os próprios indígenas atuam como guardiões e, principalmente, narradores de sua história.

“A verificação de serviços ecossistêmicos de valores culturais reforça os Paiter Suruí como os guardiões ancestrais da floresta e da sua cultura”, diz Elson Fernandes de Lima, diretor executivo do FSC Brasil. “Ao valorizar sua cultura, o FSC reconhece que o futuro da sustentabilidade depende do respeito aos saberes indígenas, integrando a proteção da biodiversidade à dignidade de quem mantém a floresta em pé há milhares de anos”, completa.

Além disso, Lima também comenta sobre a possibilidade de patrocínio dos serviços ecossistêmicos: “Agora os impactos verificados pelo FSC, por seu aspecto positivo, pode ser patrocinado por organizações que desejem apoiar a conservação desses serviços”, explica. Dessa forma, uma empresa, por exemplo, pode ter o direito de comunicar seu apoio ao Povo Paiter Suruí de forma pública.  

Com a conquista dos impactos verificados para manutenção dos conhecimentos culturais e ancestrais, das práticas e das linguagens e manutenção de populações ou espécies culturalmente valorizadas, os Paiter Suruí provam ao mercado e à sociedade que a conservação da Amazônia é inseparável da dignidade, dos direitos e da autonomia dos povos que a habitam. E vice-versa.

Leia também: Mitos para conhecer a cultura do povo indígena Paiter Suruí

Sobre o Forest Stewardship Council™ (FSC®)

O FSC é uma organização sem fins lucrativos que oferece uma solução comprovada para o manejo florestal responsável. Atualmente, mais de 150 milhões de hectares de florestas no mundo são certificados de acordo com os padrões do FSC. O sistema é amplamente reconhecido por ONGs, consumidores e empresas como o mais rigoroso para enfrentar os desafios atuais de desmatamento, clima e biodiversidade.

O padrão de manejo florestal do FSC baseia-se em dez princípios fundamentais, que abordam uma ampla gama de fatores ambientais, sociais e econômicos. O selo da “árvorezinha” do FSC está presente em milhões de produtos de origem florestal e assegura que são obtidos de forma sustentável, da floresta ao consumidor.

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