Últimas

Tradição vermelha: conheça a história da ‘Alvorada do Boi Garantido’

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Tradição vermelha: conheça a história da ‘Alvorada do Boi Garantido’

Foto: Aguilar Abecassis/Cedida

A cidade de Parintins (AM) é o lar dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido, que disputam o título de campeão no Festival Folclórico, em junho. Mas a temporada bovina começa muito antes, logo após o Carnaval e é composta por diversos eventos que mostram a força de uma das maiores manifestações culturais e simbólicas da Amazônia. Um exemplo é a Alvorada do Boi Garantido.

Realizada entre o dia 30 de abril e 1º de maio, a tradicional festa avermelhada reúne milhares de torcedores que acompanham o cortejo do boi e uma programação de shows dos itens oficiais num trajeto de 2,5 quilômetros pelas ruas parintinenses.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

O evento inicia no Curral Lindolfo Monteverde, na Cidade Garantido, e se encerra ao amanhecer na Catedral de Nossa Senhora do Carmo, numa grande passeata que transforma a Ilha da Magia num verdadeiro mar vermelho e branco. A concentração dos torcedores acontece no dia 30, com a marcha iniciando na madrugada do dia 1º e indo até o amanhecer, dando jus ao nome devido a festa ir até ao ‘alvorecer’ do dia.

Alvorada garantido
Foto: Aguilar Abecassis/Cedida

Com base em registros históricos, o Portal Amazônia conversou com historiador parintinense Mencius Melo, que explicou as origens da Alvorada do Boi Garantido e a evolução dessa grande festa avermelhada que se tornou, em 2018, Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado do Amazonas.

A origem da Alvorada do Boi Garantido

A Alvorada do Garantido foi uma criação de Lindolfo Monteverde, cuja ideia surgiu devido à falta de comunicação na época e Lindolfo, com sua família, saía nas ruas anunciando os primeiros ensaios do boi da baixa.

“O boi de Parintins é uma brincadeira de rua e de quintais. A Alvorada é uma herança das saídas de rua, quando nos anos 1930, 1940, 1950, 1960, 1970, eram comandadas por Lindolfo Monteverde que levava o Garantido da então distante Baixa da Xanda, para as casas dos abastados de Parintins. Essas saídas eram geralmente nas noites de santos: São Antônio, São João, São Pedro e São Marçal. Lindolfo era devoto de São João Batista. As saídas eram à noite e Lindolfo Monteverde voltava com seu cordão de brincantes para a Baixa antes do sol raiar. Em 1975, por ideia de Paulinho Faria, Zezinho Faria e Jair Mendes, o boi fez o inverso! Saiu de madrugada para amanhecer nas ruas de Parintins, anunciando que os ensaios iam começar no antigo Curral do Garantido, hoje Curralzinho da Baixa de São José”, conta Melo.

Dona Maria Monteverde, filha de Lindolfo, conta que sua avó Alexandrina, conhecida como “Xanda”, era quem produzia a roupa dos brincantes: as meninas com uma saia branca e blusa vermelha e os rapazes com calça branca e camisa vermelha. Todos saiam para anunciar a grande festa cantando toadas, sendo a mais popular ‘Urrou Meu Novilho’.

Alvorada garantido
Foto: Aguilar Abecassis/Cedida

Os caminhos até o alvorecer junto à Nossa Senhora do Carmo

A Alvorada une vários pontos que fazem com que a tradição se mantenha durante o decorrer dos anos, como o dos itens oficiais, a passeata nas ruas e a visita do boi às casas.

“A ideia era festejar o boi e garantir a continuidade da farra dos brincantes. Em 1975 saiu do antigo clube de festas, o Recanto Tropical (popular Retropi) que hoje não existe mais, na atual Av. Nações Unidas. A partir da inauguração do Show Clube Ilha Verde, em 1987, na Av. Amazonas, o Baile Vermelho & Branco passou a ser realizado nas dependências do clube que era e é da Família Faria, a segunda mais importante família na história do Garantido. A partir de então a Alvorada passou a sair do Ilha Verde”, lembra Melo.

Ainda segundo o historiador, “a cultura é algo em movimento”. E foi nesse movimento que, em 1991, o compositor Chico da Silva entregou ao Garantido a toada ‘Boi do Carmo’, que motivou uma mudança na rota.

“Paulinho Faria, então apresentador do Boi do Povão e um gênio acidental do marketing, decidiu guiar a Alvorada até a Catedral de Nossa Senhora do Carmo, padroeira de Parintins. Lá, diante de uma multidão ele entoou: ‘Minha santa, paz e amor… Nossa Senhora, proteção de Parintins… Boi Garantido numa forma de oração, pela fé e gratidão, lhe traz rosas e jasmins’. A multidão veio às lágrimas. Estava ali sacramentada uma tradição que unia o profano da festa, com a homenagem à Flor do Carmelo, Nossa Senhora do Carmo. Com a construção da Cidade Garantido em meados dos anos 1990, a Alvorada passou a sair daquele espaço, sempre em direção da Catedral de Parintins”, explica.

Alvorada garantido
Foto: Aguilar Abecassis/Cedida

Como citado, entre os momentos que marcam o trajeto é a passagem do boi pelas casas dos moradores mais antigos da Baixa do São José, para saudá-los como forma de respeito.

O boi segue até a rotatória da igreja de São Benedito, na qual, vai para frente da igreja e tradicionalmente faz sua evolução, logo após segue pela Avenida Amazonas até chegar a catedral de Nossa Senhora do Carmo. Após a chegada, vai em direção à igreja fazendo reverência a pedido de proteção à padroeira.

“A ideia de festejar na madrugada até o sol raiar é o cerne da manifestação e como o amanhecer do dia é um alvorecer, vem daí o nome ‘Alvorada do Garantido'”, completa Mencius Melo.

Fotos: Élcio Farias/Boi Garantido

Com o passar dos anos, a celebração ganhou proporções grandiosas, sem perder o caráter comunitário. Casas são decoradas, moradores recebem o boi, e o percurso se transforma em um espetáculo coletivo, marcado por toadas, fogos, bandeiras e, claro, muita emoção.

“A Alvorada está se tornando e ainda pode se tornar mais ainda, em um produto “extra-arena” do Festival de Parintins. É uma manifestação que leva turistas à Parintins antes mesmo da semana do festival e sua relevância está em mostrar ou apresentar uma Parintins para além da indústria cultural que hoje marca a arena de disputa entre o Garantido e o Contrário. É uma manifestação humanizante, que resgata o boi de rua, o boi romântico dos tempos da lamparina. Um bem imaterial necessário que ajuda a explicar o fenômeno cultural que é Parintins”, conclui o historiador.

*Com informações do artigo Alvorada do Garantido como Fenômeno.

O post Tradição vermelha: conheça a história da ‘Alvorada do Boi Garantido’ apareceu primeiro em Portal Amazônia.

Tradição vermelha: conheça a história da ‘Alvorada do Boi Garantido’ — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado