Uma ala do PT próxima ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demonstra simpatia pela proposta de limitar os juros no país. A proposta integra as ideias defendidas pelo economista André Lara Resende, 75 anos, que participou da formulação do Plano Real, sobre o peso dos juros nas contas públicas.
Manifestações públicas da deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) e do coordenador do programa de governo da campanha petista, José Sérgio Gabrielli, indicam receptividade a algumas das ideias apresentadas pelo economista.
No domingo (1º.nov.2026), Gleisi compartilhou nas redes sociais um artigo de Lara Resende sobre a política fiscal e monetária brasileira. Na publicação, a deputada classificou o texto como “fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira”.
Gleisi foi ministra da Secretaria de Relações Institucionais no governo Lula 3. Alguns integrantes da direção do PT defendem que ela retorne para o Planalto em 2027. Ela tentou ser eleita para o Senado nas eleições de 2026. Não conseguiu.
Depois da reação negativa no mercado à possibilidade da reunião entre Lara Resende e Lula, a ministra criticou o que chamou de “DNA do autoritarismo” do mercado financeiro.
Em em seu perfil no X, escreveu: “Membros do governo já disseram que não tem nada disso [uma reunião entre os 2]. E se tivesse, qual é o problema? Conversar sobre um tema ou uma proposta não significa encampá-la. Conversar, ouvir, é o básico da democracia, que defendemos e foi vitoriosa nas urnas”.
Outro sinal de aproximação aparece em um texto de Gabrielli, enviado a jornalistas em 2 de novembro. Gabrielli afirma que merece atenção especial a proposta de Lara Resende de criar um mecanismo mais amplo do que o Conselho Monetário Nacional para coordenar as políticas fiscal e monetária no Brasil. Eis a íntegra (PDF – 469 kB).
No texto “Política fiscal para o fim de 2026 e para 2027 – Poucas lições tiradas do programa eleito com o presidente Lula”, Gabrielli argumenta que o debate sobre as contas públicas precisa considerar o impacto dos juros sobre a dívida. Segundo ele, os juros nominais do setor público consolidado passaram de R$ 586,4 bilhões em 2022 para R$ 1 trilhão em 2025, alta de 71,8% em valores correntes.
O economista afirma que esse montante supera a soma dos gastos com saúde e educação, que totalizaram R$ 364,4 bilhões em 2025. Para ele, o grande desafio da política econômica é reduzir as taxas de juros, que considera o principal fator de expansão da dívida.
Gabrielli compara o peso dos juros com o resultado primário. Em agosto de 2026, os juros nominais somaram R$ 1,2 trilhão em 12 meses, o equivalente a 8,9% do PIB. No mesmo período, o déficit primário do Governo Central correspondeu a 0,62% do PIB.
A proposta de Lara Resende também questiona a atual condução da política monetária e o peso dos juros sobre as contas públicas. O economista defende mudanças na institucionalidade responsável pela coordenação das políticas fiscal e monetária e apresenta mecanismos para reduzir o custo da dívida. Leia aqui a proposta do economista para acabar com os juros.
Em 2022, houve rumores de que Lara Resende assumiria o comando do Ministério do Planejamento e Orçamento.
GOVERNO NEGA DISCUSSÃO
Apesar das manifestações favoráveis, integrantes do governo negam que o plano esteja na agenda oficial. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou no domingo (1º.nov), ao Valor Econômico, que não há encontro agendado entre Lula e Lara Resende.
Durigan também negou que haja interesse do governo em adotar a proposta do economista. A declaração foi dada em meio a informações sobre uma possível aproximação entre Lara Resende e o presidente.
O presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Aloizio Mercadante, também negou que as ideias estejam em discussão na administração federal. Disse por meio de nota que as propostas de Lara Resende não foram debatidas durante a campanha presidencial nem estão na pauta das discussões do governo.
“As propostas do economista André Lara Resende não foram discutidas na campanha presidencial e não estão na pauta das discussões do governo. Quem fala sobre economia é o Ministro da Fazenda e ele já esclareceu de forma clara e direta, nesta direção. O presidente Lula sempre governou assegurando transparência e previsibilidade da política econômica”, diz a nota.
Questionado pelo Poder360 sobre um encontro entre Lara Resende e Lula nesta semana, o Planalto afirmou que a agenda do presidente para os próximos dias não foi decidida.



