O publicitário , conhecido como João Dude, recebeu R$ 1,02 milhão do projeto Conexão Cidadã, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, de março de 2024 a agosto de 2026 –ano eleitoral.
Dude é da Leiaute Propaganda, de Salvador. Sidônio Palmeira é um dos fundadores da agência. É atualmente ministro licenciado da Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República) do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O programa Conexão Cidadã financia o envio de mensagens por WhatsApp e RCS –tecnologia de comunicação usada em aplicativos de mensagens de celulares Android– com a marca do Governo Federal para divulgar informações sobre políticas públicas, como Bolsa Família e Farmácia Popular.

João Dude é um dos profissionais que assinam, como “notáveis”, os relatórios de avaliação das entregas da Microtarget, empresa de marketing responsável pela operação do canal. No projeto, os “notáveis” são os profissionais, em teoria isentos, que assinam avaliações das entregas realizadas pela empresa.
Os pagamentos a João foram registrados em 26 lançamentos, no valor bruto total de R$ 1,02 milhão, conforme a prestação de contas do Iaupe (Instituto de Apoio à Fundação Universidade de Pernambuco), responsável pela parceria com o ministério. Leia mais sobre o valor pago pelo envio de SMS nesta reportagem.
Em 16 de agosto de 2026, João foi contratado pelas campanhas dos petistas Jaques Wagner e Rui Costa ao Senado, na Bahia, por R$ 112,5 mil cada um.
Leia trechos do relatório sobre a contratação para o disparo de zaps:
- atuação de João Dude e outros “notáveis” – íntegra (PDF – 741 kB);
- cronograma de pagamento e disparo de mensagens do Iaupe – íntegra (PDF – 500 kB);
- empresas que receberam pagamentos do Iaupe e quadro com os nomes dos sócios – íntegra (PDF – 673 kB);
- pagamentos a João Dude – íntegra (PDF – 45 kB);
- pagamentos para a empresa Hi Neo – íntegra (PDF – 68 kB);
- campanhas do PT que contrataram João Dude e Hi Neo – íntegra (PDF – 57 kB).
CRESCIMENTO ACELERADO
O Conexão Cidadã foi formalizado em 29 de dezembro de 2023, quando o MDS assinou um termo de fomento de R$ 34,5 milhões com o Iaupe. O objetivo declarado (íntegra – PDF – 193 kB) era desenvolver uma metodologia de comunicação com beneficiários de programas sociais e ampliar o acesso a informações sobre políticas públicas.
A parceria foi firmada sem chamamento público. Nos registros do Transferegov, o programa recebeu propostas de um proponente específico em 13 de dezembro de 2023, mesmo dia em que foi aberto e encerrado o prazo para apresentação. O critério de seleção foi registrado como “objeto singular”.
O instituto recebeu 5 acréscimos de valor ao termo original. Com os aditivos, a parceria chegou a R$ 273,2 milhões, quase 8 vezes o valor inicial. O último acréscimo, registrado em dezembro de 2025, elevou o total em mais R$ 34,5 milhões e estendeu a vigência até 29 de dezembro de 2026. Leia a íntegra (PDF – 721 kB).
Em 2024, o 1º ano da parceria, os repasses federais ao instituto chegaram a R$ 113,5 milhões. Até setembro de 2026, o MDS havia transferido R$ 237,8 milhões.
O último aditivo foi registrado no sistema com o objeto da alteração descrito como “teste”. Os documentos não esclarecem o motivo da utilização dessa expressão.
MICROTARGET E PAGAMENTOS
Embora a parceria tenha sido assinada com o Iaupe, a operação do canal de mensagens ficou a cargo da Microtarget, que foi subcontratada.
A página oficial do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social informa que a empresa realiza a operação do canal RCS.
Até 27 de abril de 2026, o instituto pagou R$ 215,4 milhões a fornecedores com recursos do projeto. Desse total, R$ 134 milhões –62,2%– foram destinados à Microtarget e a empresas contratadas, segundo os registros de pagamentos e os documentos societários analisados.
A Microtarget recebeu diretamente R$ 110,8 milhões. Outras parcelas foram destinadas a empresas que o próprio site da companhia apresenta como integrantes de seu grupo ou que têm vínculos societários com pessoas ligadas à empresa.
As 131 compras registradas pelo instituto no âmbito do projeto foram classificadas como inexigibilidade, modalidade que dispensa a competição entre fornecedores quando preenchidos os requisitos legais. A compra de serviços de mensageria, registrada sob o número 019-CC, tinha valor de R$ 20,4 milhões, mas os pagamentos contabilizados chegaram a R$ 94 milhões.
Os registros mostram, portanto, que a execução financeira da parceria se concentrou em fornecedores privados, apesar de o instrumento original ter sido celebrado com uma organização da sociedade civil.
DISPAROS CAROS
Notas fiscais da Microtarget mostram que a empresa cobrou R$ 0,71 por mensagem RCS de março a julho de 2024. A partir daquele mês, o preço teria caído para R$ 0,62 por envio. Leia as íntegras aqui (PDF – 247 kB) e aqui (PDF – 243 kB).
Os valores são muito superiores aos anunciados, por exemplo, pela Claro em sua tabela comercial de 2026. A operadora privada cobra R$ 0,09 por mensagem na modalidade RCS Single –valor quase 7 vezes menor que os R$ 0,62 atribuídos à Microtarget. Leia a íntegra da tabela da Claro (PDF – 41 kB).

A comparação, entretanto, envolve preços de períodos diferentes e não permite concluir automaticamente que houve sobrepreço.
O projeto também cobrou por serviços de WhatsApp. A Microtarget apresentou uma cobrança referente a 425.178 sessões de 24 horas em dezembro de 2025. O documento consultado, porém, não informa o valor unitário cobrado pela empresa por essas sessões.
A falta de detalhamento dos preços e as diferenças identificadas entre os valores registrados nas contratações e os pagamentos realizados levantam questionamentos sobre a formação dos custos e a fiscalização das despesas do projeto.
No caso do WhatsApp, as mensagens de utilidade, como avisos sobre benefícios, custam de R$ 0,0477 a R$ 0,0636 por unidade. Já as classificadas como marketing custam R$ 0,5849 cada. Há ainda uma cobrança de R$ 0,02 por envio de mensagem padronizada. Leia a (PDF – 64 kB) de uma tabela de preços do Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) que cita esses números.
DURANTE A CAMPANHA
Os pagamentos ao projeto continuaram mesmo durante o período eleitoral de 2026.
O MDS transferiu ao menos R$ 14,9 milhões ao Iaupe em 24 de agosto e 15 de setembro, quando a campanha já estava em andamento.
Os valores, entretanto, estavam relacionados a serviços prestados em períodos anteriores, incluindo atividades executadas de janeiro a junho de 2026 e despesas referentes ao atendimento passivo pelo WhatsApp e à inteligência artificial.
O fato de os pagamentos terem sido realizados durante a campanha não significa que os recursos tenham sido utilizados necessariamente para propaganda eleitoral.
A legislação eleitoral restringe a publicidade institucional de órgãos públicos nos 3 meses anteriores às eleições, com exceções previstas em lei. A transmissão de informações estritamente operacionais sobre benefícios, entretanto, não constitui necessariamente publicidade irregular.
Na 3ª feira (20.out), a campanha do senador e candidato a presidente pelo PL, Flávio Bolsonaro, ao TSE e pediu a cassação da chapa de Lula por envio de mensagens em massa via WhatsApp no estilo das citadas acima.
A defesa de Flávio afirma que houve descumprimento da legislação eleitoral, que proíbe, desde 4 de julho, a publicidade institucional de atos, programas, obras e serviços públicos nos 3 meses anteriores à eleição, salvo exceções descritas em lei. Leia a da ação (PDF – 1 MB).
O corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, negou o pedido e manteve o sistema de comunicação do governo ativo. Leia a íntegra da decisão (PDF – 1 MB).
OUTROS LADOS
O Poder360 procurou os seguintes órgãos e pessoas para responderem a perguntas sobre o pagamento pelo programa de envio de mensagens:
- Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República);
- MDS (Ministério do Desenvolvimento Social);
- Iaupe ((Instituto de Apoio à Fundação Universidade de Pernambuco);
- Campanha de Lula;
- Sidônio Palmeira – ministro licenciado da Secom;
- João Dude – diretor de Planejamento da Leiaute Propaganda.
Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso uma manifestação seja enviada a este jornal digital.
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