André Janones (Rede-MG) ganhou destaque na campanha de reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O canal “Exército do Lula”, mantido pelo congressista no WhatsApp, reúne 4,91 milhões de seguidores e foi alvo de disputas judiciais durante a campanha presidencial. Reeleito deputado federal em 2026, ampliou sua projeção com a defesa do auxílio emergencial em 2020 e chegou a lançar uma pré-candidatura à Presidência em 2022.
Diferentemente de estratégias tradicionais de campanha, as mensagens do canal do deputado da Rede têm tom militar, com missões e comandos para estimular a propagação de conteúdo político. É a chamada “gamificação” da política, com tarefas de compartilhamento, uso de emojis e áudios em tom de convocação.
Em gravação enviada aos seguidores em 16 de outubro, por exemplo, Janones pediu engajamento nas redes sociais: “É momento de não almoçar, de não jantar, de não namorar, de não tomar banho, se preciso for. É hora de focar só em uma coisa, de reeleger esse homem, de reeleger o Lula. Então são 3 missões ao mesmo tempo. Senta o dedo, vai lá no X agora e executa as 3 missões. Eu quero as 3 hashtags de uma vez só”.
Em outro áudio, ironizou: “Vocês querem que o Lula pare o evento dele aqui, que ele desce (sic) do caminhão e vai lá pro X fazer hashtag? Pelo amor de Deus, essa função é nossa”.

ESTRATÉGIA DIGITAL
Em entrevista a jornalistas, na 3ª feira (13.out), André Janones disse que a orientação para que os apoiadores curtam, comentem e compartilhem o conteúdo antes de assistir aos vídeos é uma técnica para estimular o algoritmo da Meta. O engajamento imediato, segundo ele, sinaliza relevância e amplia a distribuição orgânica das publicações.
Segundo o deputado, a linguagem em tom militar (“missão”, “tropa”, “avante”) serve para engajar os apoiadores. Janones declarou que congressistas da oposição, como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), construíram alcance eleitoral com grupos de mobilização no WhatsApp. A ideia é aplicar a mesma estratégia na campanha do presidente Lula no 2º turno.
“Eu conheço o plano deles, só que eles não conseguem porque eu sei fazer o que eles fazem de uma maneira pro bem”, disse.
Janones negou publicar fake news no canal e disse que reserva críticas mais duras para seus perfis pessoais nas redes sociais. Esse ponto foi questionado judicialmente pela oposição, que questionou a atuação do grupo na Justiça e pediu a suspensão do canal sob a alegação de disseminação de notícias falsas.
De acordo com Janones, o canal não existe para gerar visualizações de vídeos próprios ou de lideranças políticas, mas para orientar cidadãos sobre o uso das redes sociais e o funcionamento dos algoritmos.
As convocações de Janones também viraram memes nas redes sociais. A expressão “pessoal, urgente”, usada pelo deputado para mobilizar seguidores, passou a ser alvo de brincadeiras sobre a frequência das missões. Até Lula entrou na onda e prometeu conversar com Janones sobre o descanso dos integrantes do canal.


REGRAS DO TSE
A estratégia digital de Janones ocorre sob regras que limitam a distribuição automatizada de propaganda eleitoral. Desde 2024, o Tribunal Superior Eleitoral determina que as plataformas excluam dos sistemas de recomendação os perfis oficiais informados à Justiça Eleitoral e seus conteúdos, salvo nos casos de impulsionamento pago. A norma não impede o compartilhamento voluntário de publicações por apoiadores. Entenda as regras.
Na 5ª feira (15.out.2026), a Corte Eleitoral também aprovou uma resolução que permite o uso imediato de canais oficiais registrados entre o 1º e o 2º turno, depois da aprovação pela Justiça Eleitoral. A mudança ocorreu depois da disputa judicial envolvendo o Exército do Lula.
TRAJETÓRIA POLÍTICA
André Luis Gaspar Janones tem 42 anos. Nasceu em 5 de maio de 1984, em Ituiutaba (MG). Trabalhou como cobrador de ônibus e escrevente no TJMG (Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais). Formou-se em direito e fundou o escritório André Janones & Advogados Associados.
Candidatou-se a prefeito de Ituiutaba em 2016, mas não foi eleito. Dois anos depois, em 2018, ganhou destaque durante a greve dos caminhoneiros. Na ocasião, publicou uma série de tuítes e vídeos nas redes sociais em apoio à paralisação, o que impulsionou sua eleição para deputado federal naquele mesmo ano. Foi eleito como o 3º mais votado de Minas Gerais, com 178.660 votos.
Em 2020, durante a pandemia de covid-19, Janones voltou a ganhar projeção nas redes sociais ao defender a manutenção do auxílio emergencial de R$ 600. O deputado fez transmissões ao vivo para mobilizar apoiadores e apresentou um projeto de lei para prorrogar o pagamento do benefício até dezembro daquele ano. A atuação ampliou sua visibilidade nacional.
Na época, Janones dizia não apoiar Lula nem o então presidente Jair Bolsonaro (PL). Em 2022, anunciou pré-candidatura à Presidência da República pelo Avante. Desistiu da disputa para apoiar Lula depois de declarar que conversou com o petista e recebeu a garantia de que o valor de R$ 600 do auxílio emergencial seria mantido. Desde então, passou a apoiar o atual presidente.
Janones integrou a estratégia de “guerrilha” da campanha de Lula em 2022 e, após a eleição do petista, participou do gabinete de transição da Comunicação Social. Em 2023, lançou o livro “Janonismo cultural: o uso das redes sociais e a batalha pela democracia no Brasil”. Na obra, o deputado detalha a estratégia digital e relata bastidores do pleito presidencial.
O congressista foi alvo de processos disciplinares e sanções no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar. Em julho de 2025, o colegiado aprovou a suspensão do mandato do deputado por 3 meses por causa de ofensas direcionadas a outros congressistas durante sessões no plenário.
O PL e congressistas da oposição apresentaram ainda representações e pedidos de cassação de mandato contra o deputado. Entre as acusações estavam suspeitas de “rachadinha” em seu gabinete, além de embates verbais recorrentes. O processo relacionado às suspeitas de “rachadinha” foi arquivado pelo Conselho de Ética.
SUSPENSÃO DE CANAL
A controvérsia sobre o Exército do Lula começou no domingo (11.out), quando o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, atendeu a um pedido da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, e determinou a suspensão do canal “Exército do Lula”.
A equipe de Flávio alegou que o canal disseminava informações falsas, como mensagens sobre uma possível redução de aposentadorias e a retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida caso o candidato do PL fosse eleito.
Nunes Marques determinou que o WhatsApp impedisse novas publicações e a entrada de seguidores até a homologação do resultado do 2º turno, marcado para 25 de outubro. A ordem foi expedida em um procedimento administrativo de fiscalização das obrigações assumidas pela plataforma perante a Justiça Eleitoral.
A determinação do presidente do TSE foi tomada antes da conclusão das etapas estabelecidas pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva. No sábado (10.out), Cueva havia determinado que a campanha de Flávio apresentasse informações complementares antes da análise do pedido de suspensão.
Depois da decisão de Nunes Marques, a defesa de Lula e Janones recorreu ao corregedor na Aije (Ação de Investigação Judicial Eleitoral), que apura suposto abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação.
Cueva autorizou o restabelecimento do canal no mesmo domingo (11.out), em decisão tomada menos de 4 minutos depois de receber a petição da campanha de Lula. O ministro afirmou que não havia elementos probatórios suficientes para justificar uma restrição abrangente naquele momento. O corregedor também considerou que a suspensão determinada pela Presidência interferia em matéria submetida à sua análise.
Apesar de liberar a retomada das publicações e a entrada de novos seguidores, Cueva determinou que Janones não divulgasse nem reproduzisse conteúdos cuja ilicitude já tivesse sido reconhecida pela Justiça Eleitoral.
No domingo (11.out), Nunes Marques que a Meta, representante do WhatsApp no Brasil, suspendesse o espaço até a homologação do resultado do 2º turno das eleições de 2026. O canal, porém, foi restabelecido no mesmo dia por ordem do corregedor-geral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, em decisão tomada menos de 4 minutos depois de ter recebido a petição da campanha de Lula.
Na 3ª feira (13.out), outra decisão de Nunes Marques determinou novamente que o WhatsApp suspendesse o canal e estabeleceu condições para sua reativação. Entre elas, que o endereço do canal fosse comunicado à Justiça Eleitoral no processo de registro da candidatura ou da coligação.
A campanha de Lula afirmou ter registrado o canal na Justiça Eleitoral como meio oficial de comunicação. Às 13h50 daquele dia, o espaço tinha 4,2 milhões de seguidores e seguia no ar.
Nunes Marques reviu a determinação depois de verificar que o endereço do canal havia sido informado pela campanha de Lula no processo de registro de candidatura. Para o ministro, a comunicação supriu a irregularidade que havia fundamentado a restrição anterior.
A decisão, porém, manteve condições para o funcionamento do canal. O espaço deve identificar perante os usuários o responsável pela propaganda eleitoral, conforme a legislação. Nunes Marques ressaltou que informar o endereço à Justiça Eleitoral não substitui a obrigação de deixar clara a autoria do conteúdo no momento em que a mensagem é recebida.
Um relatório técnico do TSE que analisou mensagens publicadas de 2 a 11 de outubro não identificou informações falsas no material examinado. A análise, contudo, teve limitações decorrentes de mensagens apagadas e não equivale a uma avaliação de todo o conteúdo divulgado pelo canal.
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