O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o vice, Geraldo Alckmin (PSB), anunciaram neste domingo (4.out.2026) que a campanha entra em nova fase após o 1º turno. O petista terminou em 2º lugar, atrás de Flávio Bolsonaro (PL), e tenta agora um feito que nenhum candidato alcançou desde que o Brasil adotou o 2º turno presidencial, em 1989: vencer depois de largar atrás do adversário.
Lula precisa quebrar essa sequência para conquistar seu 4º mandato presidencial, feito inédito na história do país.
No Brasil, desde a redemocratização, nunca houve uma virada presidencial no 2º turno nesse sentido. Nas 7 eleições com 2º turno desde então, quem venceu no 1º turno também venceu no 2º: Collor (1989), Lula (2002 e 2006), Dilma (2010 e 2014), Bolsonaro (2018) e Lula (2022).
Lula já venceu 3 eleições decididas no 2º turno, mas nunca reverteu uma desvantagem da etapa inicial. Em 1989, por exemplo, ele terminou atrás de Collor no 1º turno e perdeu também no 2º.
“Prorrogação“
Segundo o secretário de Comunicação do PT, Lula obteve 45% e foi “superado por pouco”. O presidente do partido, Edinho Silva, falou em diferença de “só 2%”.
A estratégia petista já traça 3 eixos:
- personalizar a disputa na biografia de Flávio;
- apostar em divulgar ações sociais;
- atrair os eleitores que se abstiveram.
Lula adotou a metáfora do futebol. Disse que “termina a primeira fase do campeonato” e que o jogo está na prorrogação. Afirmou ser “muito bom no mata-mata” e que o eleitorado “gosta” de vê-lo disputar o 2º turno.
O petista já esteve na 2ª etapa em 4 ocasiões: em 1989, quando perdeu para Fernando Collor (PRN na época; hoje sem partido); em 2002, quando venceu José Serra (PSDB); em 2006, quando derrotou o hoje vice, Geraldo Alckmin (PSDB na época; hoje PSB); e em 2022, quando bateu Jair Bolsonaro (PL).
Aos adversários, deixou um recado: “os bolsonaristas se preparem”.
O presidente chamou a trajetória da família Bolsonaro de “tenebrosa”. Citou suspeitas de ligação com milícias e crime organizado e associou Flávio ao Banco Master. Não apresentou provas no discurso, mas Flávio possui relações com o ex-banqueiro. (Leia também: Relembre as mudanças nas versões de Flávio sobre Vorcaro e caso Master).

O secretário de Comunicação do PT seguiu a mesma linha. Segundo Éden Valadares, a crise do Master e do Judiciário “bagunçou” a percepção pública sobre quem quer investigar e quem quer se eleger “para não ser investigado”.
Lula prometeu ampliar o Pé-de-Meia, universalizar a escola em tempo integral e fortalecer o SUS e o Farmácia Popular. Anunciou ainda que canetas de emagrecimento serão distribuídas pelo SUS, com critérios.
Sobre as contas públicas, afirmou que ninguém tem “autoridade moral” para criticá-lo. Citou os superávits primários de seus mandatos anteriores e disse que não haverá corte fiscal que prejudique os mais pobres.
O vice cobrou, na saúde, os “negacionistas” que levaram a 720 mil mortes na pandemia. Geraldo Alckmin criticou o homeschooling e defendeu a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000. Também disse que o presidente não tem “como ídolo o coronel Ustra”.
O PT comemora a vitória na Bahia, onde o grupo do governador Jerônimo Rodrigues derrotou ACM Neto (União Brasil). Também levou no Piauí e no Ceará. Em São Paulo, onde 4 ex-ministros de Lula disputavam, o cenário foi o oposto.
Lula lamentou a derrota de Fernando Haddad (PT) para Tarcísio de Freitas (Republicanos) e a de Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) ao Senado. Disse que o partido precisa “repensar” como faz as coisas, mas também que “acertou nas decisões”.
A autocrítica pública para por aí. Nos bastidores, a leitura é mais dura: a campanha está desorganizada. Há também entre integrantes da esquerda uma discussão sobre a ausência de um sucessor claro para Lula e os rumos do campo político depois do atual presidente.
Essa discussão se soma ao sentimento de mudança na sociedade que o próprio PT reconhece. Em entrevista na 6ª feira (2.out), Edinho disse haver um “sentimento de mudança” na sociedade e que Flávio é “catalisador desse movimento”. “Não estamos disputando contra o Flávio. Estamos disputando contra o sentimento de mudança”, afirmou.
Onde Lula pode crescer
Flávio Bolsonaro teve 47,03% dos votos (56,1 milhões) e Lula, 45,16% (53,9 milhões). A diferença foi de cerca de 2,2 milhões de votos.
Os 4 candidatos da 3ª via somaram cerca de 9 milhões de votos (7,6%):
- Augusto Cury (Avante): 2,89% (3,4 milhões);
- Renan Santos (Missão): 2,25% (2,7 milhões);
- Ronaldo Caiado (PSD): 2,19% (2,6 milhões);
- Romeu Zema (Novo): 0,27% (326 mil).
Os votos dos 4 candidatos somam cerca de 9 milhões, mas a transferência para Lula ou Flávio não é automática. Caiado, Zema e Renan Santos disputaram em campo de oposição ao governo, e Flávio também vai atrás desses eleitores. As abstenções representam um contingente cerca de 3 vezes maior que a soma dos votos dos 4 candidatos da 3ª via.
O presidente do partido buscará apoio de outros partidos e de “todas as lideranças”. Edinho disse na 6ª feira (2.out) que o PT conversa com legendas do Centrão que ficaram neutras no 1º turno. A cúpula petista conversa com Lula na 2ª feira (5.out) para definir a campanha.
O desafio é reverter a desvantagem de cerca de 2,2 milhões de votos. Em 7 disputas de 2º turno presidencial desde 1989, o líder do 1º turno sempre venceu. Lula aposta em ser o primeiro a quebrar essa regra.
Leia também:

