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Após 40 anos na política, Lula vai às urnas sem ter formado seu sucessor

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Após 40 anos na política, Lula vai às urnas sem ter formado seu sucessor

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disputa neste domingo (4.out.2026) seu 4º mandato, aos 80 anos. Entre petistas e integrantes do governo, é comum o diagnóstico de que Lula concentrou as decisões e nunca abriu espaço para que outro nome do PT se aproximasse de seu poder.

A esquerda chega às urnas sem um herdeiro claro. O partido orbita em torno de um único líder há mais de 4 décadas.

Lula tem uma característica difícil de repetir hoje: é o único presidente do Brasil de origem operária. Participou das Diretas Já e construiu sua hegemonia dentro das regras democráticas, mesmo depois dos reveses judiciais que o levaram à prisão em 2018.

Com isso, tornou-se também o único presidente eleito 3 vezes pelo voto direto no Brasil. O petista é comparado a Getúlio Vargas pelo tempo no poder. Vargas governou por 18 anos, mas venceu apenas uma eleição direta, em 1950.

Lula ajudou a fundar o PT em 1980, perdeu 3 eleições presidenciais seguidas e chegou ao Planalto em 2002. Voltou ao poder em 2022, depois da Lava Jato.

Essa trajetória singular faz da idade de Lula um assunto que vai além de sua vida pessoal: representa um risco para todo um campo político.

“Energia de 30”

A idade virou assunto central desde que Lula sofreu uma queda no Palácio da Alvorada, em outubro de 2024, e passou por uma cirurgia na cabeça. Em fevereiro de 2025, condicionou uma nova candidatura à sua saúde. Disse que precisava ser honesto consigo mesmo: “não posso mentir para ninguém e muito menos para mim”.

Em agosto de 2025, ao citar o caso do ex-presidente dos Estados Unidos Joe Biden, afirmou que só concorreria se não passasse pelo mesmo. Garantiu: “Quando eu falo que tenho 80 e energia de 30, vocês podem acreditar.”

Pesquisa PoderData de julho de 2025 mostrou que 50% dos eleitores consideravam a idade de Lula “um problema” para um novo mandato.

Em setembro de 2025, ele disse que os 80 anos representam o “tempo da maturidade máxima do ser humano”.

Em 23 de outubro de 2025, na Indonésia, pouco antes de completar 80 anos, tirou a dúvida: “E vou disputar um 4º mandato no Brasil”. Disse estar com a mesma energia de quando tinha 30 anos.

O PT oficializou a candidatura em 2 de agosto de 2026. Na reta final da campanha, Lula transformou a idade em argumento eleitoral. Em comício em Fortaleza, na 3ª feira (29.set), pediu que eleitores com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo, não deixassem de votar: “A vida da gente não termina aos 70”. Disse ainda que se sente melhor do que aos 60 anos.

Do operário ao sindicalista

Nascido em 27 de outubro de 1945, em Caetés (PE), Lula era o caçula de 8 filhos de dona Lindu e Aristides Inácio da Silva. O pai migrou para Santos (SP) pouco depois do nascimento do filho. A mãe se separou e foi para São Paulo em 1956.

Lula costuma lembrar da infância pobre em seus discursos. Fala da coragem da mãe, que decidiu criar os filhos sozinha depois de enfrentar a violência doméstica. Em julho de 2022, em Garanhuns (PE), contou que só comeu pão pela 1ª vez aos 7 anos. Disse que, nos dias em que faltava comida, a mãe repetia: “Hoje não tem, mas amanhã vai ter”. Segundo ele, foi essa esperança que o formou.

Começou a trabalhar aos 12 anos e se formou torneiro mecânico pelo Senai. Em 1964, aos 18 anos, perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente na metalúrgica Independência. A mão com 4 dedos se tornou seu símbolo.

Aproximou-se do Sindicato dos Metalúrgicos em 1967, por influência do irmão Frei Chico. Assumiu a presidência da entidade em 1975.

Do sindicato ao PT

Em 1974, Lula conheceu Marisa Letícia, com quem se casou. O petista tem 5 filhos:

  • Lurian Cordeiro Lula da Silva (1974) é jornalista. É filha de Lula com Miriam Cordeiro, com quem ele não se casou. Foi secretária de Ação Social da Prefeitura de São José (SC);
  • Marcos Cláudio Lula da Silva (1971) é filho de Marisa Letícia de um casamento anterior e foi adotado por Lula. É psicólogo e foi vereador em São Bernardo do Campo (SP);
  • Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha (1975), é biólogo e empresário. É sócio da Gamecorp, empresa do setor de games, e vive na Espanha. Na reta final da campanha, o caso que mais pesa sobre a família envolve a relação de Lulinha com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, e a empresária Roberta Luchsinger;
  • Sandro Luís Lula da Silva (1979) é publicitário e sócio de uma empresa de consultoria em tecnologia;
  • Luís Cláudio Lula da Silva (1985), o caçula, é empresário do ramo de marketing esportivo e já atuou como diretor de futebol do Parintins (AM). Já disse que não descarta entrar na política.

Foi o 2º casamento de Lula. A 1ª mulher, Maria de Lourdes da Silva, morreu em 1971, grávida de um menino, que também não sobreviveu.

Entre 1978 e 1980, Lula liderou greves que mobilizaram milhares de metalúrgicos no ABC paulista. Tornou-se a principal figura do chamado “novo sindicalismo”.

Em 1980, foi preso pela ditadura e passou 31 dias no Dops (Departamento de Ordem Política e Social), com base na Lei de Segurança Nacional. Acabou absolvido pelo STM (Superior Tribunal Militar).

Em 10 de fevereiro daquele ano, ajudou a fundar o PT, em uma reunião no Colégio Sion, em São Paulo.

Derrotas até vencer

Ele era chamado de Lula desde garoto, mas só incorporou o apelido ao nome em 1982. Virou sua marca no movimento sindical.

Naquele ano, disputou sua 1ª eleição ao governo de São Paulo, sob o slogan “trabalhador vota em trabalhador”. Ficou em 4º, com 10,8%.

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A 1ª vez que Lula se candidatou foi em 1982. Disputou o governo do Estado de São Paulo sob o slogan “trabalhador vota em trabalhador”. Ficou em 4º, com 1,1 milhão de votos. O vencedor foi André Franco Montoro (PMDB)

Participou das Diretas Já, em 1983 e 1984. Em 1986, foi eleito deputado constituinte e atuou na elaboração da Constituição de 1988.

Em 1989, na 1ª eleição direta depois da ditadura, chegou ao 2º turno, mas perdeu para Fernando Collor (na época, PRN), por 53% a 47%. Em 1994 e 1998, foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso (na época, PSDB), ainda no 1º turno.

A vitória veio em 2002, na 4ª tentativa. Lula moderou o discurso, escolheu o empresário José Alencar como vice e lançou a “Carta ao povo brasileiro”, na qual se comprometeu a respeitar contratos. Derrotou José Serra (na época, PSDB) com 61% dos votos no 2º turno.

Legado social

Nos 2 primeiros mandatos (2003-2010), Lula ampliou e unificou benefícios no Bolsa Família e lançou o Fome Zero. Em 2010, recebeu da ONU o título de campeão mundial na luta contra a fome.

O governo também lançou o Minha Casa, Minha Vida, em 2009. O salário mínimo passou a ter reajustes acima da inflação, com ganho real expressivo no período.

O resultado mais associado à era Lula foi a mobilidade social da chamada “nova classe média”: 32 milhões de brasileiros ascenderam de classe social entre 2003 e 2008. A mobilidade social é uma das principais bandeiras políticas do petista até hoje.

O crescimento econômico acompanhou a inclusão social. Entre 2002 e 2011, o coeficiente de Gini da desigualdade caiu de 58,2 para 52,4. O analfabetismo entre pessoas com mais de 15 anos recuou para 8,6%. O salário mínimo teve ganho real de 53,69% em 8 anos.

O país atravessou a crise de 2008 —o “tsunami” que, segundo Lula, seria uma “marolinha” no Brasil— e encerrou a década como a 6ª maior economia do mundo.

Lula deixou o Planalto em 2010 com 87% de aprovação, um recorde, e elegeu Dilma Rousseff (PT) como sucessora.

Mensalão e Lava Jato

O governo também enfrentou reveses. O Mensalão, esquema de compra de votos de congressistas, levou José Dirceu a deixar a Casa Civil em 2005.

O caso foi julgado pelo STF e resultou na condenação de políticos do 1º escalão. Anos depois, essa mudança de paradigma abriria caminho para operações como a Lava Jato.

Lula foi reeleito em 2006, derrotando Geraldo Alckmin (PSB), hoje seu vice.

Em 2011, enfrentou um câncer de laringe e se recuperou em 2012. Ficou com rouquidão permanente.

A Lava Jato levou Lula à prisão em 7 de abril de 2018, em Curitiba, onde ficou por 580 dias. Ele foi condenado pelo então juiz Sérgio Moro no caso do tríplex do Guarujá. Lula se tornou o 1º ex-presidente brasileiro preso por crime comum. Depois, foi impedido de disputar a eleição de 2018. Fernando Haddad (PT) perdeu para Jair Bolsonaro (PL).

Foi também durante a prisão em Curitiba que começou o namoro de Lula com a atual primeira-dama, Janja da Silva.

Em março de 2021, Edson Fachin, do STF, anulou as condenações por considerar que a vara de Curitiba não tinha competência para julgar os casos. Depois, o plenário do Supremo declarou Moro parcial. Reportagens da Vaza Jato mostraram colaboração entre o então juiz e procuradores.

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Ao deixar o prédio da Polícia Federal, em Curitiba, Lula fez discurso a apoiadores e atacou o que chamou de “lado podre do Estado brasileiro“. “Todos os dias, vocês foram o alimento da democracia que eu precisava. E viram o que o lado podre do Estado brasileiro fez comigo.”, discursou o petista.

Um presidente de 80 anos

Lula fumou por 50 anos. Em 2011, foi diagnosticado com câncer de laringe e passou por tratamento com quimioterapia e radioterapia. Recebeu alta em 2012, mas mantém a rouquidão até hoje.

Lula assumiu a Presidência em 2023, aos 77 anos. Em fevereiro de 2024, ultrapassou Michel Temer e se tornou o presidente mais velho da história do país. Desde então, enfrentou uma série de problemas de saúde:

O presidente costuma dizer que tem “energia de 30 e tesão de 20”. Aliados citam sua rotina de caminhadas e musculação como demonstração de vigor.

A idade marcou o debate sobre a sucessão no PT. Nomes como o de Haddad circularam como alternativa caso Lula desistisse da candidatura. O presidente, porém, manteve a disputa.

Há uma coerência entre os 3 mandatos: o combate à fome e a adoção de programas sociais, como o Bolsa Família. Lula também é o único presidente com origem operária e sindical.

Neste 3º mandato, acrescentou à agenda a pauta ambiental e a projeção internacional do Brasil.

Ao mesmo tempo, governa com um Congresso mais conservador e enfrenta um eleitorado polarizado. A permanência de lideranças veteranas também expõe a dificuldade da esquerda —e de outros campos políticos— para formar sucessores.

Se for reeleito, Lula terá 81 anos no fim de 2026 e deixará o cargo em 2031, aos 85.

Sem sucessor

A longevidade de Lula expõe o outro lado da história: um partido sem sucessor natural.

Dilma Rousseff, eleita com o apoio de Lula em 2010, sofreu impeachment em 2016. Em 2018, Fernando Haddad substituiu o petista na urna e perdeu a eleição. Ao longo desse período, nenhum outro nome do PT ou de partidos aliados conseguiu alcançar protagonismo nacional semelhante ao de Lula. Seu sucessor também terá de carregar a história do partido.

Haddad segue como o nome mais citado. Na convenção do PT, Lula o mencionou como possível candidato à Presidência no futuro, depois de “8 anos” à frente de São Paulo. Logo depois, corrigiu a declaração. Citou ainda os petistas Camilo Santana, Rui Costa, Rafael Fonteles e João Campos (PSB) e Guilherme Boulos (Psol) como nomes para 2030.

“De algum lugar vai sair”, declarou o presidente.

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Fernando Haddad e Lula durante o anúncio de pré-candidatura ao governo de São Paulo

Em 14 de agosto, afirmou que Haddad tem grande potencial, mas ainda precisa mostrar mais para se tornar líder. Disse que só ele e Bolsonaro são hoje líderes políticos nacionais. Também falou sobre os nomes progressistas citados anteriormente, todos com o mesmo problema de seu ex-ministro da Fazenda. Para Lula, liderar exige mais do que administrar. “Um prefeito não é líder, um prefeito é um prefeito”, disse.

Uma esquerda em transformação

O Brasil de hoje é diferente daquele que ajudou a levar Lula ao Planalto em 2002. O país passou pelas manifestações de Junho de 2013, pelo impeachment de Dilma Rousseff, pela Lava Jato, pela prisão de Lula e pela ascensão de Jair Bolsonaro (PL). A polarização mudou o sistema partidário e ampliou o espaço da direita.

A mudança não foi só brasileira. A esquerda perdeu espaço na América do Sul depois de uma sequência de governos progressistas. O Brasil passou a ser uma das principais exceções na região.

No país, a direita também ampliou sua presença nas redes sociais. A disputa política deixou de depender principalmente de partidos, televisão e grandes eventos e passou a envolver influenciadores, vídeos curtos, memes e comunidades digitais.

A esquerda não acompanhou essa mudança no mesmo ritmo. Neste ano, Lula foi o único candidato competitivo desse campo político. Sua coligação reuniu PSB, PDT, Federação Fé Brasil (PT, PC do B e PV) e Federação Psol-Rede.

O próprio PT dá sinais desse quadro. Em 2026, o partido registrou 1.097 candidaturas, o menor número desde 1994. Foi a 4ª eleição consecutiva de queda. Também houve redução no número de candidatos de 21 a 44 anos, enquanto aumentou a participação de nomes com mais de 60 anos.

O aniversário de 46 anos do partido, em fevereiro, expôs o mesmo problema. A comemoração em Salvador foi marcada pela presença de quadros históricos, enquanto lideranças mais jovens tiveram participação tímida.

O partido reconhece que precisa incorporar a juventude às direções e às estratégias, especialmente no ambiente digital. Lula construiu sua liderança em um cenário político que deixou de existir.

A falta de herdeiros não é exclusividade do PT. A direita também depende de Bolsonaro, preso e inelegível, que passou o bastão para o filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A escolha enfrentou resistência na direita, onde lideranças defendiam outros nomes, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Houve incômodo também dentro da família. Aliados da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro rechaçaram a indicação.

Michelle, madrasta de Flávio, carrega o sobrenome Bolsonaro por casamento, não por vínculo de sangue. Ela acabou preterida, e o bolsonarismo se dividiu. Houve um rompimento público entre os dois, que chegou a afetar a campanha.

O PL oficializou a candidatura de Flávio em 25 de julho, quando a relação entre os dois já havia sido retomada. Michelle participou de agendas de campanha, com foco no eleitorado feminino e conservador. Ainda assim, não se consolidou como sucessora.


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