A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou à reta final antes da votação de domingo (4.out.2026) com um discurso mais voltado ao passado do que ao futuro. O fato de Lula ter governado o Brasil 3 vezes não é, por si só, suficiente para responder às expectativas do eleitorado. A pauta está no presente, e quem vota quer saber como será o Brasil daqui para a frente.
A violência é o principal problema do Brasil para 28% dos brasileiros, à frente da corrupção (22%) e da economia (19%), segundo pesquisa da Quaest em parceria com a Pax, divulgada em 18 de setembro.
Elaborada sob a influência de Sidônio Palmeira, ministro da Secom (Secretaria de Comunicação Social), e de Edinho Silva, presidente do PT, a estratégia compara governos e resgata o legado petista. A abordagem, porém, tem pouco apelo entre os eleitores jovens e enfrenta um partido que ainda busca renovação.
No levantamento mais recente do Datafolha, Lula tem 36% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro, 35%, entre os eleitores de 16 a 24 anos. A diferença não é estatisticamente significativa. Na rodada anterior, a vantagem do petista nesse grupo era de 10 pontos percentuais (39% a 29%).
Sidônio convenceu Lula a polarizar com Jair Bolsonaro (PL) desde a campanha de 2022, ideia que o petista inicialmente recebeu com dúvidas. Naquele ano, a estratégia deu resultado. Na Secom, o ministro também emplacou o discurso de soberania e a campanha “Pix é nosso”. Edinho, que coordenou a comunicação da campanha de 2022, definiu a eleição como uma escolha sobre o legado para as próximas gerações.
A tese, porém, parte de um cenário que mudou.
O desenho inicial era transformar a eleição em um plebiscito entre os governos do PT e de Bolsonaro. Mas Jair Bolsonaro não está na urna. O adversário é seu filho, Flávio Bolsonaro (PL), que carrega o sobrenome, mas não tem o histórico de um ex-presidente. Com 45 anos, o senador também representa um perfil mais jovem em comparação com o pai e Lula.
O ambiente em que esse contraste funcionou também mudou. O país passou pelas manifestações de 2013, pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), pela Lava Jato, pela prisão de Lula e pela ascensão de Bolsonaro. A polarização ampliou o espaço da direita, justamente o campo político que o PT usa como contraponto em sua estratégia de comparação.
A esquerda perdeu terreno na América do Sul, e o Brasil se tornou uma das exceções. A disputa também passou a envolver influenciadores, vídeos curtos e memes, ambiente em que a direita avançou mais.
Lula construiu sua liderança em um cenário que deixou de existir. Sua posição também mudou: agora é o presidente em exercício e será cobrado pelas entregas de seu governo. Comparar sua gestão com o passado de adversários pode ter menos efeito nesse contexto.
O Datafolha mostra uma disputa mais apertada. Na rodada de 22 e 23 de setembro, Lula tinha 40% e Flávio, 36% das intenções de voto no 1º turno. Em julho, a vantagem do petista era de 8 pontos percentuais.
Discurso olha para trás
O plano de governo registra a mudança de tom. Em 2022, o documento se apoiava na reversão de medidas da gestão anterior. Agora, apresenta entregas do 3º mandato, como a saída do Mapa da Fome, e recupera bandeiras antigas, como o Bolsa Família.
O documento passou de 121 diretrizes curtas para 13 eixos distribuídos em 84 páginas. Também apresenta propostas para o futuro, como o fim da escala 6 X 1, a jornada de 40 horas semanais, a regulação dos aplicativos e a criação de data centers nacionais.
O plano também dedica espaço à segurança pública, tema que teve presença limitada nos discursos de Lula durante o 3º mandato. A diferença sugere que as propostas estão no documento, mas a campanha dá mais espaço à recuperação da memória dos governos petistas.
Na convenção de 2 de agosto, Lula chegou a falar em educação, inteligência artificial e transição energética. Disse que sua “quarta Presidência é para mudar muita coisa”. Ainda assim, a mensagem central foi a possibilidade de ele voltar a ocupar o cargo por mais 4 anos.
O ato de lançamento da campanha, em 16 de agosto, reforçou esse tom. Lula abriu a campanha no estádio 1º de Maio, a antiga Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), palco das assembleias de metalúrgicos no fim dos anos 1970 e onde começou sua trajetória política. Ao anunciar o evento, já havia descrito o local como o lugar “onde tudo nasceu”.
No palco, o presidente falou a palavra “futuro” ao menos 23 vezes em 36 minutos, mas o discurso ficou predominantemente ancorado no passado. Lula resgatou sua trajetória sindical e lembrou os “47 anos de história” desde a assembleia de 1979. Também comparou o público dos atos. Disse que, naquele ano, havia “mais gente do que tem hoje aqui”.
A imagem mais próxima de uma perspectiva de futuro foi a dos filhos de metalúrgicos que Lula viu estudando engenharia espacial na universidade federal da cidade. Propostas para um eventual 4º mandato quase não apareceram.
O principal ponto de comparação com o governo anterior tem sido o preço dos alimentos. No horário eleitoral de 18 de setembro, o petista disse que o feijão e o arroz subiram mais de 45% durante o governo de Jair Bolsonaro. O argumento serve de ponte para uma das entregas mais destacadas pela atual gestão: a saída do Brasil do Mapa da Fome.
Em 28 de setembro, o presidente publicou nas redes sociais uma sequência de imagens que compara seu governo ao que, na avaliação dele, seria uma gestão de Flávio Bolsonaro, em áreas como habitação, educação, meio ambiente e saúde. Na legenda, perguntou se o eleitor quer um país que investe em comida na mesa ou um que se entrega a interesses estrangeiros.
Ao falar de si, Lula também recorre à própria trajetória. Na ONU, em 22 de setembro, apresentou-se como um “operário eleito 3 vezes presidente”. No dia seguinte, durante ato com artistas no Rio de Janeiro, relembrou os anos 1970 no sindicato. O Poder360 identificou 58 artistas no evento. Desses, 25 tinham 60 anos ou mais e apenas 11 tinham menos de 40 anos.
Antes do evento, o vice-presidente do PT, Washington Quaquá, disse que o ato “não ganha 1 voto”. Segundo o dirigente, é preciso conquistar eleitores que hoje não votam no presidente.
Jovens indecisos
O ponto mais frágil da estratégia está na faixa de 16 a 24 anos. Em 2022, Lula tinha ampla vantagem entre esses eleitores. Em março de 2026, a AtlasIntel mostrou que 72,7% dos jovens dessa faixa etária desaprovavam o governo.
Na reta final, a campanha do presidente passou a mirar os jovens que ainda não migraram para Flávio Bolsonaro. Um dos principais alvos são os eleitores de Augusto Cury.
O levantamento do PoderData de 2 de setembro de 2026 mostrou que Cury tinha 14% das intenções de voto entre eleitores de 16 a 24 anos. Na faixa de 25 a 44 anos, o índice era de 12%. Entre os eleitores de 45 a 59 anos, chegava a 7%. Já entre os com 60 anos ou mais, era de 8%.
Proporcionalmente, Cury tem seu maior percentual entre os jovens, o que o torna um alvo direto na disputa por esse segmento com Flávio.
No Datafolha de 21 de setembro de 2026, 79% do eleitorado geral já dizia ter o voto definido. O índice era menor entre os eleitores de 16 a 24 anos.
No levantamento do Datafolha de 22 e 23 de setembro, Flávio subiu de 29% para 35% entre os eleitores de 16 a 24 anos. Lula, por sua vez, oscilou de 39% para 36%. A margem de erro para esse segmento era de 6 pontos percentuais.
Falta renovação
O problema não está apenas na mensagem. Também envolve a composição do partido. A bancada do PT na Câmara é a 3ª mais velha, com média de idade de 59,2 anos.
Em 2026, o PT registrou 1.097 candidaturas, o menor número desde 1994 e a 4ª eleição consecutiva de queda. Diminuiu a participação de candidatos de 21 a 44 anos, enquanto cresceu a presença de nomes com mais de 60 anos. O maior aumento foi registrado entre os petistas de 70 a 74 anos, com alta de 77,4%, e entre os de 65 a 69 anos, com crescimento de 26,3%.
Em entrevista ao Poder360, a secretária nacional de Juventude do PT, Julia Köpf, 29 anos, rejeitou a ideia de que a velha guarda seja um obstáculo. Para ela, os dirigentes históricos ajudaram a fundar o partido e a resistir. Ainda assim, defendeu a renovação dos quadros, das pautas, das práticas e das prioridades.
A coordenação da campanha reúne diferentes gerações. À frente estão Gilberto Carvalho (75), José Sergio Gabrielli (76) e Paulo Okamotto (70). Entre os nomes mais jovens estão Julia e a vereadora Luna Zarattini, 32 anos, que atuam na mobilização da periferia.
No ambiente digital, o quadro é semelhante. Levantamento da Bites para o Poder360 mostrou que possíveis sucessores de Lula têm os piores índices de engajamento nas redes. Somados, os índices não chegam à metade da média de Jair Bolsonaro.
O próprio partido reconhece o atraso. O PT lançou uma rede para reunir apoiadores nas plataformas digitais e admite que a direita ainda está à frente. Em carta publicada em junho, José Dirceu, de 80 anos, defendeu um partido “presente nas ruas e nas redes”.
E depois de Lula?
Uma eleição também envolve o futuro. Em 14 de agosto, Lula afirmou que Fernando Haddad (PT) tem grande potencial, mas precisa demonstrar mais para se consolidar como líder. Disse que só ele e Bolsonaro são hoje líderes políticos nacionais.
O presidente também citou os petistas Camilo Santana, Rui Costa, Rafael Fonteles, além de João Campos (PSB) e Guilherme Boulos (Psol), como nomes para 2030. Campos é o único deles com menos de 40 anos: tem 32. O fato de não ser filiado ao PT, porém, representa um obstáculo para que seja considerado sucessor de Lula dentro do partido.
A estratégia de Sidônio e Edinho mantém a base e dá identidade à campanha. Mas, sem renovação dos quadros e da linguagem, deixa em aberto o diálogo com uma parcela do eleitorado que pode ser decisiva em uma disputa marcada pelo empate técnico.
