Em junho de 2019, quando Daniel Vorcaro ainda estava no processo de assumir o controle do Banco Máxima, depois rebatizado Banco Master, um grande vazamento de mensagens deflagrava uma crise no sistema de Justiça brasileiro. Não tinha nada a ver com Vorcaro, ainda um desconhecido. O escândalo que eclodiu mostrava diálogos, entre outros, com o procurador da República que coordenava a operação Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, e o então juiz federal Sergio Moro nos quais eles combinavam estratégias de atuação.
As mensagens haviam sido obtidas de forma ilegal por um hacker. Traziam inúmeros detalhes da articulação da força-tarefa de Curitiba para investigar e tentar condenar empresários e políticos de diversas esferas e partidos envolvidos no escândalo de corrupção, inclusive o então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
À época, o STF estava acuado pela ação de Moro e dos procuradores da Lava Jato. A Corte havia perdido protagonismo. A Lava Jato dominava o noticiário. Alguns ministros, notadamente Gilmar Mendes, viram na Vaza Jato um impulso para declarar o juiz suspeito e frear a operação.
Quase 7 anos depois, outro vazamento de mensagens voltou a abalar a Justiça brasileira. Elas estavam no celular de Vorcaro, apreendido com a 1ª prisão do ex-banqueiro, em novembro de 2025. Incluem diálogos com Moraes que tratavam da sua estratégia de defesa. As primeiras conversas vieram à tona em março de 2026. O relatório completo da Polícia Federal, com as 52 mensagens entre Moraes e Vorcaro, foi divulgado em 1º de setembro.
ASSIMETRIA
Desta vez, há uma diferença importante. Não se trata de um conteúdo hackeado, mas de um celular apreendido e periciado pela PF. Apesar disso, Gilmar e um setor do STF não veem nas mensagens um auxílio valioso para investigar a possível conduta irregular de um ministro, cuja mulher tinha um contrato milionário com Vorcaro.
Em vez disso, há um esforço articulado para adiar a análise do caso, a perder de vista, com o apoio de Flávio Dino, Cristiano Zanin e do próprio Moraes. Para eles, a contradição entre declarações de Moraes e as provas obtidas no celular do ex-banqueiro não é suficiente para justificar a abertura de uma investigação.
Por exemplo: em março de 2026, Moraes negou que tivesse recebido mensagens de Vorcaro quando houve a prisão do ex-banqueiro. Em setembro, em um ofício dirigido ao presidente da Corte, Edson Fachin, ele questionou novamente que as mensagens identificadas pela PF como remetidas a ele tenham existido.
Além dos diálogos, a PF localizou 2 contratos da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes, com Vorcaro, que, juntos, poderiam resultar num pagamento de R$ 158 milhões. Um vídeo de Moraes e sua mulher saindo de um jatinho ligado a Vorcaro no Aeroporto Santos Dumont no Rio, em agosto de 2025, mostrava como o casal usava um dos contratos, que era exatamente para o uso dos aviões ou helicópteros de empresas nas quais o fundador do Master tinha participação.
Quando o caso eclodiu, Gilmar Mendes tentou postergar a análise sobre se Moraes deveria ou não ser investigado. Sem sucesso, durante a sessão do plenário do STF em 15 de setembro, o ministro questionou as motivações de André Mendonça, relator do inquérito sobre o Banco Master –que teve acesso ao relatório da PF e remeteu o pedido de investigação ao plenário. O decano da Corte disse que seu colega estava envolvido em uma “evidente condução política-eleitoral”.
Na 2ª feira (28.set.2026), Gilmar divulgou finalmente o texto da questão de ordem que havia apresentado na sessão de 15 de setembro. O ministro defende que o julgamento sobre se Moraes deve ser investigado ou não seja suspenso indefinidamente –até que sejam informados todos os magistrados citados nas conversas extraídas do celular de Vorcaro.
Há uma assimetria entre o desfecho da Lava Jato e o atual posicionamento de parte do Supremo sobre como lidar com a relação entre Vorcaro e Moraes. Em 2019 e 2020, alguns ministros foram vocais a respeito da possibilidade de usar as mensagens da Vaza Jato para declarar a suspeição de Moro.
VAZA JATO NO STF
As primeiras reportagens da série da Vaza Jato, do jornal digital Intercept Brasil, foram publicadas em 9 de junho de 2019. Mostraram uma colaboração entre Moro e Deltan, Deltan manifestando dúvidas sobre as provas contra Lula no caso do triplex, e os procuradores se articulando para impedir uma entrevista do petista.
No dia seguinte, 10 de junho, os ministros do STF comentaram o conteúdo das mensagens. Gilmar, integrante da 2ª Turma da Corte, que analisava a possível suspeição de Moro, disse que era um “fato muito grave”. Marco Aurélio de Mello também se manifestou. Afirmou que as mensagens colocavam em dúvida “a equidistância do órgão julgador”.
Cristiano Zanin, hoje ministro da Corte contrário à investigação de Moraes, à época advogado de Lula, divulgou nota afirmando que as mensagens mostravam um “conluio” entre Moro e os procuradores e pediu “o restabelecimento da liberdade plena” do petista.
Em 11 de junho, Gilmar voltou a se manifestar. Disse que que o fato de as mensagens possivelmente terem sido obtidas de forma ilegal “não necessariamente” anularia as provas decorrentes delas. “Se amanhã [alguém] tiver sido alvo de uma condenação, por exemplo, por assassinato, e aí se descobrir por uma prova ilegal que ela não é autor do crime, se diz que em geral essa prova é válida”, declarou o ministro.
Gilmar insistiu no uso das mensagens em 13 de junho. “Eu acho, por exemplo, que, na condenação do Lula, eles anularam a condenação”. E, em 17 de junho, o ministro citou um diálogo da Vaza Jato durante uma sessão do plenário do STF, que analisava a constitucionalidade do inquérito das fake news. O referido diálogo mostrava que Deltan teria pedido informações sobre Toffoli numa suposta tentativa de vinculá-lo a esquemas de corrupção.
A operação Spoofing, conduzida pela PF, obteve em julho de 2019 uma cópia das mensagens da Vaza Jato, e iniciou-se um debate jurídico se elas poderiam, então, serem usadas como prova lícita.
Em 8 novembro de 2019, sob o impacto das mensagens da Vaz Jato, Lula deixou a cadeia depois ter passado 580 dias preso por condenações pelos crimes de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro. Segundo as investigações da Lava Jato, o petista recebeu R$ 3,7 milhões em propina da construtora OAS por meio da entrega de um apartamento e de armazenamento de bens. Em troca, teria favorecido a empreiteira em contratos com a Petrobras durante seu governo. Lula sempre negou as acusações.
Lula não foi absolvido. O Supremo ainda sob o impacto das mensagens da Vaza Jato decidiu que Sergio Moro foi parcial ao conduzir os processos na Justiça Federal do Paraná e determinou que as ações fossem anuladas para que tudo recomeçasse em uma outra Instância da Justiça –o que nunca aconteceu.
Em dezembro de 2020, o então ministro Ricardo Lewandowski determinou o compartilhamento com os advogados de Lula de mensagens relevantes para a defesa do ex-presidente. Em 23 março de 2021, a 2ª Turma do STF declarou Moro suspeito no caso. Três meses depois, a decisão foi confirmada pelo plenário da Corte.
