O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, nesta 3ª feira (22.set.2026), na abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, que “tecnoligarcas” querem criar um novo modelo de neoliberalismo digital “sem freios e sem regras”. Leia a íntegra (PDF – 180 kB).
“Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, com grandes riscos e oportunidades. Seria uma omissão histórica, imperdoável, não enfrentar o desafio da regulamentação das big techs e da inteligência artificial. Um punhado de tecnoligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital sem regras nem transparência”, disse.
O petista também defendeu a regulamentação das big techs e da IA (inteligência artificial). Segundo Lula, seria uma “omissão histórica” não enfrentar o desafio de regulamentar as grandes empresas de tecnologia. O presidente disse que elas estão promovendo uma corrida tecnológica à revelia da ONU e do Painel Científico Internacional sobre Inteligência Artificial.
“Empresas que conhecem os riscos de seus produtos transferem para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos”, declarou.
No discurso, Lula voltou a afirmar que os recursos naturais brasileiros —no caso, minerais críticos e terras-raras— serão explorados em “benefício do povo brasileiro”.
“O acesso aos nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais”, declarou.
Assista à íntegra do discurso de Lula (22min30s):
Leia os principais assuntos abordados por Lula em seu discurso:
- autoelogio – Lula começou o discurso louvando a si próprio, um “operário que ganhou 3 vezes” a eleição para presidente, lutou “contra a ditadura” e “derrotou um golpe de Estado”.
- multilateralismo – disse que os pilares do multilateralismo “estão sendo corroídos” e que a Organização Mundial do Comércio “respira por aparelhos”; criticou o uso de tarifas como arma de coerção e chantagem;
- reforma da ONU e do Conselho de Segurança – afirmou que o Conselho de Segurança “não cumpre o seu papel” e que o direito de veto deu às grandes potências “o privilégio da insensatez”; cobrou reunião urgente dos líderes dos países-membros;
- soberania e não interferência – declarou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, classificou de “anacrônica” a divisão do mundo em zonas de influência e defendeu que o povo venezuelano “merece definir o próprio destino”;
- conflitos internacionais – voltou a classificar de genocídio a ofensiva israelense em Gaza sob o governo Netanyahu, defendeu a solução de dois Estados, cobrou fim da guerra na Ucrânia pela via diplomática e criticou a escalada no Estreito de Ormuz;
- crime organizado e segurança regional – citou a Lei Antifacção e a maior operação contra o crime organizado da história do Brasil, em 2025; defendeu cooperação internacional contra o fluxo de armas e dinheiro e rejeitou presença militar estrangeira nas águas do país;
- democracia e eleições – afirmou que o Brasil “não permitirá que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular” nas eleições de outubro, e que “a democracia brasileira pertence aos brasileiros”; a palavra “democracia” apareceu 5 vezes ao longo do discurso;
- mudanças climáticas – defendeu a retomada da agenda ambiental global, citou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e a redução do desmatamento na Amazônia ao menor nível em 11 anos;
- fome e pobreza – disse que “é possível colocar o pobre no orçamento e fazer os ricos pagarem a sua parte” e citou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza como fruto dessa política;
- Cuba – volta a dizer que o embargo comercial e de energia (com o bloqueio de venda de petróleo para o país caribenho) é “ilegal”.
- inteligência artificial e novas tecnologias – criticou a falta de regras para big techs e IA, classificando a corrida atual como “neoliberalismo digital sem regras”; citou o vício provocado pelas apostas online (bets) e defendeu a manutenção do Pix como infraestrutura pública;
- cooperação internacional – defendeu parcerias com base em “agenda positiva” com América Latina, África e Ásia, citando o Grupo de Amigos da Paz –criado por Brasil e China– como exemplo de diplomacia multilateral.
LULA NA ONU
Esta foi a 10ª vez que Lula abriu o Debate Geral da Assembleia Geral da ONU como presidente da República.
Acompanharam o discurso na bancada do Brasil:
- Janja Lula da Silva (primeira-dama);
- Audo Faleiro (assessor-chefe adjunto da Assessoria Especial do Presidente da República);
- Sérgio Danese (embaixador do Brasil junto à ONU);
- Wellington Dias (ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome);
- Mauro Vieira (ministro das Relações Exteriores)
- e Celso Amorim (assessor-chefe da Assessoria Especial do Presidente da República).
Discursou pela 1ª vez em 2003 e voltou à tribuna em 2004, 2006, 2007, 2008, 2009, 2023, 2024 e 2025. Em 2005, participou da reunião de alto nível da ONU, mas não abriu o debate geral. Em 2010, não viajou a Nova York, e o então chanceler Celso Amorim discursou em seu lugar.
A viagem deste ano foi curta. Lula chegou a Nova York no domingo (20.set) e tem retorno previsto para esta 3ª feira (22.set), depois do discurso. Antes da Assembleia, cumpriu uma agenda de encontros, entre eles com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o senador norte-americano Bernie Sanders. Também teve reunião com o secretário-geral da ONU, António Guterres.
A agenda brasileira na ONU inclui ainda reuniões sobre a situação da Palestina e a solução de 2 Estados, desigualdade, consolidação da paz e direito internacional humanitário. O ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores) presidirá a reunião da Zopacas, enquanto Wellington Dias (Desenvolvimento e Assistência Social) participará de atividades da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.
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