O economista-chefe da XP, Caio Megale, 51 anos, afirmou que um ajuste fiscal em 2027 poderá resultar em maior crescimento do do PIB (Produto Interno Bruto) em 2028.
Megale estima em 1% o crescimento em 2027. Avalia que há risco de ser menor, próximo de zero, caso a desaceleração da economia se intensifique. O varejo está entre os setores que serão mais afetados pela queda na demanda. Bancos, entre os menos afetados.
O economista declarou que o ajuste precisará ser feito por meio de corte de despesas do governo em 2027. Disse que há reconhecimento sobre a necessidade de redução de gastos entre integrantes das campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL). Ambos lideram as pesquisas de intenção de voto para a eleição em outubro de 2026.
“O aumento de receita está no limite. Tanto que as últimas medidas não geram tanto efeito. Tem que cortar despesas”, afirmou Megale. Ele estima que o Banco Central anunciará corte da Selic em 0,25 ponto percentual na 4ª feira (16.set) depois da reunião do Copom (Comitê de Política Monetária).
Assista à entrevista (33min51s):
O economista foi secretário de Fazenda da cidade de São Paulo em 2017 e 2018 , quando João Doria (então no PSDB) era prefeito. Foi secretário de Indústria de Inovação do Ministério da Economia em 2019 e 2020, no governo de Jair Bolsonaro (PL).
Abaixo, trechos da entrevista.
- meta fiscal em 2027 – “O governo, ao dizer que haverá superavit, reconhece a necessidade de ajuste. Mas é um resultado primário. Não considera juros e aportes em fundos ou capitalizações. Essas despesas financeiras cresceram por programas de incentivo fiscal”;
- estabilizar dívida – “As contas sugerem [necessidade] entre 1% e 2% do PIB de superavit primário. É muito difícil uma virada de um ano para o outro. Mas, se conseguir superavit com todas as despesas, inclusive precatórios e as financeiras, os juros caem, a dinâmica melhora. Se a economia se recuperar a partir de 2028, podemos, no próximo mandato, almejar a estabilidade da dívida”;
- forma de ajuste – “Se conseguir frear o crescimento das despesas, já ajuda muito. Vai ter que mudar critérios de indexação, ainda que temporariamente. O presidente vai ter que convencer a sociedade e o Legislativo”;
- reforma administrativa – “Seria fundamental. Vai manter a boa remuneração do funcionalismo que faz a máquina funcionar e ajustar exageros, [dar] passos para ganhos de produtividade”;
- crescimento do PIB em 2027 – “Tende a ser baixo. A nossa projeção inicial era entre 2% e 2,5%. Mas a gente foi percebendo que nem os estímulos conseguiam fazer a economia andar. Já estava cansada. A gente projeta 1%. Se vier uma desaceleração mais profunda, talvez zero. O ajuste fiscal até ajuda a recuperação a vir mais rapidamente”;
- redução do ritmo – “Tem a ver com excessos do passado, [com] estímulos ao crescimento da renda. Houve 1º aquele choque de 2015 e 2016, em que o PIB caiu 7%, [depois] se recuperou um pouquinho. Aí veio a pandemia. Na virada do 1º para o 2º semestre de 2020, faziam sentido medidas do lado da demanda. A partir de 2024, começaram a gerar distorções: falta de insumos e mão de obra. A inflação e as importações começaram a subir. A política fiscal voltou a todo vapor no final de 2025. [Houve] necessidade de um freio de arrumação, que o Banco Central está induzindo. No final do ano passado, a economia já não cresceu muito”;
- Juros no mundo – “Há pouca poupança e muita demanda. O título público dos EUA de 10 anos paga em torno de 4,8%. [A tendência] está mais para 5,5% ou 6% do que para voltar para 2,5% ou 3%”.
- Selic – “[O BC] deve cortar mais uma vez em 0,25 p.p.. A inflação continua chata. Os últimos números vieram um pouquinho melhores, mas as projeções são de 5% neste ano. A meta é 3%. O petróleo voltou a US$ 100. Tem os riscos fiscais. Mas a desaceleração, que eu achava que só viria no ano que vem, já está aparecendo”;
- Lula e Flávio – “Ambos têm o diagnóstico do ajuste pela despesa. A maior parte das medidas vai depender do chefe do Executivo. O Congresso vai dizer: se você não emprestar o capital político, não sou eu que vou fazer”;
- comparação entre 2015 e 2027 – “Alguns indicadores estão parecidos, por exemplo a taxa de juros real. Os títulos públicos pagam inflação mais 8%. Naquela época era mais ou menos nesse nível. Acho que a gente está numa situação mais confortável. Naquele momento, a economia brasileira estava mais alavancada. Hoje, tem casos de empresas com problemas, mas a gente tem muitas empresas grandes que estão saudáveis, com recursos guardados. Mas a dívida pública é bem mais alta do que naquele momento. As despesas públicas estão mais indexadas. E a inflação no mundo era zero. Foi mais fácil trazer o juro para baixo.”
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