A deputada federal Bia Kicis (PL-DF) e o deputado Marcos Pollon (PL-MS) destinaram emendas parlamentares à ANC (Academia Nacional de Cultura), entidade presidida por Karina Gama, alvo da operação Make Up, que investiga suspeitas de irregularidades no uso de emendas parlamentares e contratos relacionados ao filme “Dark Horse”. Os recursos foram destinados, por meio do Governo de São Paulo, ao projeto “Heróis Nacionais”. Conforme os dados do Portal Transparência, Kicis designou R$ 150 mil, enquanto Pollon R$ 1 milhão.
A PF (Polícia Federal) e a CGU (Controladoria Geral da União) deflagraram nesta 5ª feira (10.set.2026) a operação Make Up. O deputado Mário Frias (PL-SP), produtor-executivo de “Dark Horse”, e Karina Gama estão entre os alvos da operação.
O documento da investigação afirma que as duas emendas não tiveram execução financeira e que, até a data da análise, nenhum valor havia sido transferido para a ANC. Os registros do Portal da Transparência, porém, mostram que os recursos foram empenhados e pagos ao Estado de São Paulo.
A investigação apura suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios. Segundo a PF, uma organização formada por agentes públicos e privados direcionou recursos públicos para empresas subcontratadas de forma irregular.
As apurações relacionadas ao filme são um desdobramento da operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro. Em maio, foram divulgadas conversas de Vorcaro que mencionavam o financiamento de “Dark Horse”. Em um dos áudios, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece pedindo dinheiro a Vorcaro para bancar a produção.
As mensagens deram origem a pedidos de investigação encaminhados ao Supremo Tribunal Federal.
Emendas de Kicis e Pollon
A emenda de Pollon, no valor de R$ 1 milhão, é a de nº 202444200010. A de Bia Kicis, de R$ 150 mil, é a de nº 202439190003. Segundo a documentação da investigação, as duas foram destinadas à entidade ANC, por meio do Governo de São Paulo, para o projeto “Heróis Nacionais”.
No caso de Pollon, os R$ 1 milhão foram empenhados em 26 de junho de 2024 em duas parcelas: R$ 700 mil e R$ 300 mil. Os 2 valores foram pagos em 13 de dezembro de 2024 ao Estado de São Paulo.
A emenda de Bia Kicis, de R$ 150 mil, também foi empenhada em 26 de junho de 2024. O Portal da Transparência registra pagamento de R$ 85.589,23 em 3 de julho de 2024 e de R$ 64.410,77 em 12 de dezembro de 2024. Os valores foram pagos ao Estado de São Paulo e somam R$ 150 mil.
Dessa forma, os registros oficiais mostram que as duas emendas foram executadas e tiveram os valores integralmente pagos. Isso não significa, porém, que o dinheiro tenha sido transferido diretamente à ANC. Nos documentos apresentados, o destinatário dos pagamentos é o Estado de São Paulo.
A documentação também aponta que Pollon foi eleito pelo Mato Grosso do Sul e Kicis pelo Distrito Federal, enquanto as emendas foram destinadas a São Paulo. Segundo a análise, isso “revela aparente desconformidade com a exigência de absoluta vinculação federativa”.
Ligação entre as entidades
A ANC é presidida por Karina Gama, que também preside o ICB (Instituto Conhecer Brasil). Segundo a investigação, as duas entidades compartilham integrantes, procuradores e administradores e fazem parte da mesma estrutura de gestão e execução de projetos financiados com recursos públicos.
O ICB recebeu R$ 2 milhões em recursos federais por meio de duas emendas de Mário Frias, identificadas pelos números 202444230008 e 202444230014. Segundo a CGU, os recursos recebidos pelo instituto tiveram origem integralmente nessas duas emendas.
A investigação foi aberta para apurar a execução das 4 emendas e a atuação do ICB, da ANC, de Karina Gama e de empresas e pessoas contratadas nos projetos.
Entre as empresas relacionadas a Karina Gama está a GO UP Entertainment, responsável pela produção de “Dark Horse”. A GO7 Assessoria, também de Karina, aparece na documentação como parte da estrutura empresarial relacionada às entidades investigadas.
O OUTRO LADO
Em nota, Marcos Pollon afirmou que a emenda de R$ 1 milhão foi destinada à produção da série documental “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem”. Segundo o deputado, ao tomar conhecimento de que a entidade responsável não havia cumprido os requisitos técnicos para executar o projeto, determinou o cancelamento do empenho e pediu o redirecionamento dos recursos para o Hospital de Amor de Barretos.
Pollon negou que tenha havido execução do projeto ou uso dos recursos para outra finalidade e afirmou que a emenda não foi destinada ao filme “Dark Horse”. Disse ainda que Flávio Dino foi informado sobre o cancelamento e o pedido de redirecionamento dos recursos.
Leia a nota de Pollon na íntegra:
“Diante das informações que passaram a circular sobre uma emenda parlamentar de minha autoria, esclareço que, em 2023/2024, o recurso foi destinado para a produção da série documental “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem”, composta pelos episódios “Portugal: Luz para o Brasil”, “José de Anchieta, o Apóstolo do Brasil” e “Dom Pedro I: o Libertador”.
O projeto possuía natureza cultural e educativa e foi apresentado formalmente dentro das exigências legais aplicáveis. Posteriormente, ao tomar ciência de que a entidade responsável pela execução não havia cumprido os requisitos técnicos necessários para continuidade do projeto, determinei o cancelamento do empenho e solicitei que os recursos fossem redirecionados para a área da saúde, com destinação ao Hospital de Amor de Barretos, instituição que atende milhares de sul-mato-grossenses todos os anos via SUS.
Reitero que não houve execução do projeto, nem utilização dos recursos para finalidade diversa daquela originalmente apresentada. Também não houve, em momento algum, destinação desta emenda para o filme “Dark Horse” ou qualquer outro conteúdo audiovisual diferente do previsto inicialmente.
O ministro Flávio Dino já foi formalmente informado sobre o cancelamento solicitado, assim como sobre o pedido formal de redirecionamento dos recursos.
Lamento que meu nome continue sendo citado de forma recorrente, especialmente quando os recursos permanecem nos cofres públicos. Também causa estranheza que esse tipo de narrativa volte a ser levantado coincidentemente após minha indicação como pré-candidato ao Senado do Mato Grosso do Sul pelo Presidente Jair Bolsonaro.”
O Poder360 procurou a assessoria da deputada Bia Kicis para perguntar se gostaria de se manifestar a respeito da operação. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso uma manifestação seja enviada a este jornal digital.
